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CULTURA: Terras sem Sombra vai da Polónia às Astúrias, tendo como base o “seu” Alentejo

Publicada em: 18/02/2026 14:34 -

O Festival Terras sem Sombra está de volta, a partir do fim de semana de 28 de Fevereiro e 1 de Março, com uma programação que percorre 14 concelhos alentejanos, um concelho do vizinho Ribatejo (Coruche) e até o município espanhol de Ribera de Arriba, perto de Oviedo, nas Astúrias.

O Festival começa em Arronches, no último dia de Fevereiro, e termina em Alcácer do Sal, em Dezembro, um concelho que, nestas últimas semanas, tem andado nas notícias pelas piores razões, mas que agora se vai estrear neste certame, pelas melhores razões.

José António Falcão, diretor-geral do Festival Terras sem Sombra, em entrevista ao Sul Informação, acrescentou que a entrada de Alcácer do Sal «é muito emblemática, porque é um concelho importante no contexto do Alentejo».

Mas adiantou também que há três outros municípios alentejanos que regressam: Santiago do Cacém, Grândola e Viana do Alentejo. Ou seja, o festival continua a alargar a sua rede, mantendo-se «fiel à sua missão de descentralizar a oferta cultural e artística em territórios de baixa densidade».

Aquele responsável considera que a entrada de um novo município na programação, o regresso de três outros e a manutenção dos restantes não resulta tanto das alterações na liderança de algumas Câmaras decorrentes das Eleições Autárquicas de Outubro passado, mas do «desenhar de novas estratégias para a educação por parte de alguns desses territórios. Não é só uma ligação direta à parte política. Isto reflete também uma alteração de estratégia».

Outro pormenor importante é que o país convidado, nesta temporada de 2026, é a Polónia.

E porquê a Polónia? «Por três ordens de razões: a primeira razão é que, de facto, a Polónia é uma das grandes nações líricas da Europa. Tem pergaminhos musicais muito desenvolvidos, quer ao nível dos compositores, quer ao nível dos intérpretes. E depois tem uma outra particularidade: é um país em que a criação contemporânea tem realmente uma importância muito grande. Ou seja, eles não olham só para os compositores do passado, têm extraordinários compositores do presente e valorizam muito isso. Nós trabalhámos também esta vertente», explicou José António Falcão.

«E tivemos a sorte de ter a colaboração, além da Embaixada e de várias instituições polacas, também da Associação Polaca de Músicos de Câmara. O que significa que temos, no fundo, também os novos e novíssimos compositores connosco. Portanto, esta é uma razão importante, a qualidade musical da Polónia e a sua representatividade», acrescentou.

Por outro lado, salientou, o Festival Terras sem Sombra tem vindo a trabalhar com a Polónia «já ao longo de vários anos. Este trabalho que nos permite chegar aqui não é improvisado, tem as suas raízes bem consolidadas. Já nos conhecemos bem: o festival e a Polónia, a Polónia e o festival».

«E, finalmente, também por outro aspeto, que é: estando hoje a Polónia um bocadinho na linha da frente daquilo que é uma espécie de nova Guerra Fria, nós quisemos também ter aqui um ato de solidariedade e de partilha com um país, que, no fundo, tem bastantes afinidades com o nosso».

Numa temporada cheia de novidades, uma das mais interessantes é a visita do Terras sem Sombra às Astúrias, bem longe do seu Alentejo. Mas o que é que estas duas regiões têm em comum?

«Nós temos, em comum com eles, o problema da desertificação do mundo rural. Estão a fazer um trabalho absolutamente notável nesse sentido. Trabalham, por exemplo, com o Japão, é um país que é referência para eles. Por isso, Ribera de Arriba é um sítio que nos permite discutir, no fundo, problemas comuns. Eles também têm dois grandes rios no seu território, têm uma biodiversidade muito importante, têm o problema do envelhecimento da população, e, portanto, são questões comuns às nossas», adiantou José António Falcão.

Além disso, trata-se de um município asturiano com forte ligação a Portugal, uma vez que «lá existe uma comunidade portuguesa e também uma central térmica, que pertence à EDP».

O alcalde (presidente da Câmara) de Ribera de Arriba e a sua comitiva estiveram, na semana passada, na apresentação do Terras sem Sombra na Embaixada da Polónia em Lisboa. «Vieram das Astúrias e participaram muito ativamente na apresentação. Há um grande empenho».

O festival vai rumar às montanhas das Astúrias no fim de semana de 30 e 31 de Maio, levando na bagagem um encontro entre as tradições musicais do Alentejo e daquela região do Norte de Espanha.

Na viagem, seguirá o Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento, com o seu líder Pedro Mestre (direção musical e viola campaniça), que, em Ribera de Arriba, se encontrará com a gaita-de-foles de Vicente Prado Suárez, mais conhecido como El Pravianu, bem como com a Associación d’Intérpretes de la Canción Asturiana. Sem dúvida, um grande encontro de culturas e tradições musicais.

A atividade de Património, no sábado, que sempre integra o festival, terá como tema «Arcas da Vida: Hórreos e espigueiros na arquitetura tradicional da Península Ibérica».

No domingo de manhã, será altura de ir conhecer a biodiversidade do vale do rio Nalón.

«Eles não quiseram sequer mudar o título, a atividade chama-se Terras sem Sombra em Ribera de Arriba. O que é uma ideia engraçada, porque se trata de uma região muito montanhosa, com muita vegetação, muito frondosa», bem diferente do Alentejo, comenta o diretor-geral do festival.

«Mas eles não quiseram mudar o título, quiseram claramente fazer o mesmo que nós fazemos cá. É uma experiência interessante, porque é como se passasse a existir uma réplica do festival em território espanhol».

 

Mas há ainda uma outra novidade nesta temporada: o regresso do Prémio Internacional Terras sem Sombra, cuja atribuição foi interrompida durante a pandemia.

O Prémio tem tido, desde sempre, o alto patrocínio do Presidente da República e José António Falcão espera que se mantenha, quando o novo Chefe de Estado tomar posse.

Mas, porque o Presidente da República não costuma ter agenda para poder estar na entrega dos prémios (este ano marcada para 28 de Março, no Auditório Municipal António Chainho, em Santiago do Cacém), surgiu a ideia de haver também uma madrinha, «um rosto jovem».

«Convidámos uma infanta da Casa de Bragança, a filha do D. Duarte e de Dona Isabel, que se chama infanta Dona Maria Francisca de Bragança e é Duquesa de Coimbra», revelou José António Falcão.

«É uma pessoa muito acessível, muito simples», garante o diretor-geral do Terras sem Sombra, recordando que Maria Francisca de Bragança esteve na apresentação do Festival, em Lisboa.

Num Prémio que tem o alto patrocínio da Presidência da República, não deixa de ser interessante que a sua jovem embaixadora passe a ser agora um membro da Casa Real portuguesa, que não existe formalmente desde a deposição da Monarquia, em 1910. Mas, quem frequenta o festival, sabe que ele se faz destas nuances e destas pontes.

«Nós tentamos de facto fazer pontes, mas, neste caso, foi sobretudo, porque pensámos na Casa de Bragança, que tem a sua sede em Vila Viçosa e tem a ver com o Alentejo. Pensámos também numa pessoa jovem e pensámos numa terceira coisa: é que a Infanta é formada em Marketing Cultural, ela própria está entusiasmada e está a ajudar-nos nesta dinâmica dos prémios».

Mas há ainda outros pormenores novos em relação aos prémios. Até agora havia três categorias:  promoção da Música, valorização do Património Cultural e salvaguarda da Biodiversidade.

A partir deste ano, haverá mais «duas novas categorias. Uma, a que chamámos Sons Sem Sombra, que, no fundo, é um prémio dedicado a jovens profissionais da área da música.  Depois acrescentámos também uma quinta categoria, que é a cooperação internacional e serviço à comunidade. Porque também há pessoas que têm colaborado muito na promoção da música».

Ou seja, explicou José António Falcão, «consolidámos e reforçámos o prémio, que agora vai ao encontro de pessoas que, às vezes, estão um bocadinho esquecidas».

Num Festival Terras sem Sombra na sua 22ª temporada, que, em 2026 passa por concelhos tão diferentes como Arronches, Santiago do Cacém, Ferreira do Alentejo, Grândola, Mértola, Viana do Alentejo, Gavião, Coruche, Odemira, Vidigueira, Castelo de Vide, Beja e Alcácer do Sal, dando até um salto às Astúrias, este ano vai mesmo haver um «Concerto Mistério», no fim de semana de 10 e 11 de Outubro. Onde será? Quem serão os músicos convidados? Qual o programa? É mistério…

Clique aqui para conhecer toda a programação

 

 

Na terra da mais pequena ponte internacional da Europa

O mote do Festival Terras sem Sombra, este ano, parte do primeiro verso de um dos mais conhecidos sonetos de Camões, «Alegres Campos, Verdes Arvoredos». E acrescenta: Música e Biosfera (Da Idade Média à Criação Contemporânea).

Um mote que tem muito a ver com o facto de, em 2026, se comemorarem «dois anos internacionais muito significativos», iniciativa da FAO, a organização da Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação.

O primeiro é o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. «Nós vamos dar muita atenção a esses temas, vamos fazer iniciativas com rebanhos, vamos colaborar com o nosso parceiro habitual, que é a ACOS, e também com Espanha», revelou José António Falcão.

O outro é Ano Internacional das Mulheres Agricultoras. «As pessoas acham que certas profissões ou certas atividades refletem muito a dinâmica, vamos dizer, masculina. Mas, na realidade, hoje em dia, a maior parte dos agricultores são mulheres. E, com grande sucesso, quer em coisas mais pequenas, mais como mão de obra, quer em coisas maiores, como empresárias. Portanto, este é um aspeto que nós temos de lembrar».

«São dois anos internacionais muito inspiradores para o nosso trabalho!», salientou o diretor-geral do festival.

Por isso, não é de estranhar que a primeira atividade sobre biodiversidade desta temporada, marcada para domingo, 1 de Março, em Arronches, tenha como tema «As Mulheres na Agricultura: Guardiãs do Futuro comum da Humanidade».

Quanto à ida até este concelho do Alto Alentejo, o responsável máximo pelo Terras sem Sombra salientou, na sua entrevista ao Sul Informação, que, «sendo este um festival que está muito pensado para territórios do interior, territórios de baixa densidade, com a escolha de Arronches quisemos dar um sinal também nesse sentido. É um concelho de baixa densidade, de interior. Ao mesmo tempo, é um concelho que se interessa muito pela atividade cultural. Portanto, pareceu-nos um parceiro ideal para começar».

É que, acrescentou, «a Câmara de Arronches é uma das Câmaras com as quais temos muito boas relações. E com as próprias pessoas de Arronches, incluindo a paróquia. Realmente gostaram muito do festival, gostaram muito de nós e tem havido uma boa dinâmica».

O programa já está definido, como se pode ver aqui, mas poderá haver uma surpresa. «Arronches está ao lado de um município espanhol que se chama La Codosera. Entre estes dois municípios, existe a mais pequena ponte internacional da Europa. Na verdade, é um pontão, mas consta da cartografia oficial e tem lá os marcos de fronteira. Eles têm um grande orgulho naquilo. Do lado português, há uma freguesia que se chama Esperança. A nossa ação de património vai ser precisamente para dar a conhecer um pouco a dinâmica do contrabando e da solidariedade entre terras raianas».

Ora, acrescentou José António Falcão, «a Câmara de Arronches está a tentar motivar a sua vizinha Câmara de La Codosera para, com o apoio cénico do grupo teatro que os espanhóis lá têm, fazer-se uma espécie de quadro vivo do contrabando, com guardas civis, com contrabandistas, nessa zona da mais pequena ponte internacional da Europa. Isso é muito engraçado, não é? Acho que vai ser um bom fim de semana em Arronches».

FONTE: SUL INFORMAÇÃO ALENTEJO

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