OPINIÃO: A Inteligência Artificial e o paradoxo dos Eloi

Publicada em: 22/04/2026 13:28 -

Quem leu a “A Máquina do Tempo”1 de H.G. Wells (1895), recordar-se-á da visão  inquietante que o Viajante do Tempo oferece da Humanidade no longínquo ano de 802.701.

A Humanidade estava dividida em duas espécies os Eloi que viviam à superfície e cuja existência era pautada pelo lazer puro, seres pacíficos, (quase) infantis e sem intelecto e os Morlocks que viviam na obscuridão de um sistema subterrâneo, seres trabalhadores e que se alimentavam dos primeiros.

Apesar do autor trazer à luz do século XIX vários temas profundos como a estratificação de classes e as inerentes desigualdades sociais, deixa-nos também sérios alertas sobre o tempo como uma força implacável, a fragilidade da civilização, o perigo existente na perda da procura individual pelo conhecimento e da ausência de desafios.

“Parecia-me que surpreendera a Humanidade em pleno declínio. (…). Os triunfos de Humanidade sobre a Natureza sucediam-se. (…) O ideal da medicina preventiva fora atingido. As doenças haviam sido erradicadas. (…). Também tinham sido conseguidas várias vitórias sociais. (…). Não havia sinais de luta, nem social nem económica. (…). Mas esta alteração das condições de vida traz consigo adaptações inevitáveis a essa mudança. (…). Pensei na ligeireza física das pessoas, na sua falta de inteligência e naquelas ruínas enormes e abundantes (…). A Humanidade havia sido forte, enérgica e inteligente e usara a sua abundante vitalidade para alterar as condições sob as quais vivia. E agora chegava a reação às condições alteradas. Nas novas condições de conforto e segurança perfeitos, aquela energia inquieta, que em nós é força, tornar-se-ia fraqueza. (…). E num estado de equilíbrio físico e segurança, o poder, tanto intelectual como físico estaria deslocado. (…). Até mesmo este ímpeto artístico acabaria finalmente por morrer – e quase tinha morrido no Tempo que eu vi. Enfeitarem-se com flores, dançar, cantar à luz do sol; era o que restava do espírito artístico e não mais. (…). Sofri ao pensar quão breve fora o sonho do intelecto humano. Suicidara-se. Dirigira-se firmemente para o conforto e para a facilidade (…). É uma lei da natureza que nós muitas vezes ignoramos: a versatilidade intelectual é a compensação pela mudança, pelo perigo e pela provação. (…). Onde não há mudança nem necessidade de mudar, não há inteligência.”

O que em Wells surge sob a forma de ficção especulativa, encontra hoje um eco claro na realidade tecnológica contemporânea. Perante o avanço vertiginoso da inteligência artificial (IA), é inevitável sentir uma mistura de fascínio e inquietação.

Nunca tivemos acesso tão rápido e tão vasto a informação, nem dispusemos de ferramentas tão poderosas para organizar e interpretar o mundo. Contudo, este progresso coloca-nos perante um dilema fundamental: até que ponto estamos a ampliar as nossas capacidades cognitivas e até que ponto estamos, paradoxalmente, a enfraquecê-las?

O ser humano sempre recorreu a instrumentos para expandir os limites da sua mente, da escrita ao livro, da calculadora ao computador. A IA, porém, introduz uma diferença decisiva. Já não se trata apenas de guardar ou processar dados, mas de produzir respostas aparentemente “pensadas”, completas e convincentes. E o aparentemente é aqui muito importante.

Essa facilidade seduz-nos e, sem darmos conta, começamos a delegar nela tarefas que eram, até há pouco tempo, o coração da experiência intelectual: MEMORIZAR, COMPARAR, DUVIDAR, RELACIONAR. O risco é que este “atalho cognitivo” nos poupe trabalho, mas também nos roube o exercício. Um músculo que deixa de ser usado atrofia, ora, a mente acrítica poderá atrofiar?

Existe um desequilíbrio temporal entre o ritmo natural da aprendizagem humana e a velocidade com que a tecnologia nos obriga a agir. O cérebro não foi feito para processar informação em cadências de segundos, nós precisamos de tempo para amadurecer, refletir, errar e interiorizar.

No entanto, somos pressionados a consumir dados de forma imediata e a decidir quase sem pausa.

Aqui recorda-se uma reflexão de António e Hanna Damásio, numa conferência da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO – (2001), Brain, Art and Education 2: “In fact human minds and human brains result from a very complex cooperative working of both emotional and cognitive processes. We need both. (…) while cognition speeds up relentlessly our emotional processing does not speed up in parallel. (…). We are condemned, for the time being, to having one system of the brain evolve much faster and with enormous adaptability and one other system that will drag behind”.

Isto será tanto mais verdade quanto mais jovens somos. A arte, por exemplo, ao convidar-nos à contemplação, à imaginação e à emoção, contrabalança a urgência do digital e restitui ao pensamento o seu tempo interno. Mas não é apenas uma questão de ritmo, é também uma questão de profundidade.

O acesso instantâneo à informação cria uma ilusão de plenitude. Um texto gerado por uma máquina, pela sua fluidez, pode parecer definitivo e essa pesquisa rápida pode dar-nos a sensação de domínio sobre um tema.

No entanto, esse consumo acelerado é muitas vezes superficial. Há ainda uma outra dimensão social que não pode ser ignorada. A IA não distribui apenas informação, distribui também poder. Quem não tem literacia digital, quem não sabe questionar os algoritmos ou interpretar criticamente os resultados, ficará para sempre em desvantagem.

Assim, a promessa de democratização do conhecimento pode transformar-se, paradoxalmente, num novo fator de desigualdade cognitiva.

No entanto, e mesmo assim, perante este cenário, não me parece que a solução mais inteligente seja rejeitar a IA, mas, antes, aprender a conviver com ela de forma crítica e, ao mesmo tempo, cultivar na educação espaços de pausa, de reflexão lenta, de discussão (com os professores) que protejam a mente do automatismo do clique e da resposta imediata.

Isto é ainda mais verdadeiro no âmbito do ensino (independentemente do nível) e quando lidamos com mentes (muito) jovens e em plena formação. Em junho de 2025 investigadores do Massachussetts Institute of Technology levantaram dúvidas sobre a existência de uma potencial “dívida cognitiva”.3

O estudo analisou se o uso de chatbots facilita a escrita no imediato, mas prejudica a memória, a atenção e o pensamento a médio prazo.

Participaram 54 estudantes universitários, que escreveram ensaios em três condições: sem ferramentas, com motores de busca ou com ChatGPT, enquanto a atividade cerebral era monitorizada por EEG (eletroencefalograma).

Os textos foram avaliados por professores, e os participantes indicaram também o que recordavam ter escrito e o grau de autoria sentido.

Os resultados mostraram que escrever sem apoio tecnológico implicou maior envolvimento cerebral, melhor memória do conteúdo produzido e maior sentimento de autoria.

O uso de motores de busca apresentou um nível intermédio de esforço cognitivo (pois exigiu uma análise visual e seleção da informação adequada) e a utilização de IA esteve associada a menor conectividade cerebral, pior recordação do texto e menor sentimento de autoria, sendo que 83% dos estudantes não conseguiram citar uma frase do que tinham escrito.

Além disso, quem começou por escrever sem ferramentas e só depois usou IA obteve melhores resultados, enquanto os que iniciaram com IA revelaram mais dificuldades quando tiveram de escrever sem apoio.

Os autores explicam esta situação com o facto de uma delegação de tarefas demasiado precoce à IA, nos poupar a um esforço imediato de pesquisa e interpretação, mas com um custo (muito) elevado na aprendizagem, compreensão e retenção do tema.

Introduzir a IA depois de um trabalho inicial autónomo de pesquisa e aprofundamento, parece ser uma estratégia mais benéfica, permitindo tirar partido da ferramenta sem comprometer a construção interna do conhecimento.

Em termos práticos, a mensagem dos autores parece clara e remete-nos, de certo modo, para o universo de H.G. Wells.

A IA pode ser uma aliada poderosa, mas devemos manter os pés bem assentes na terra, e estas ferramentas não devem substituir o esforço inicial de pensar, estruturar e escrever de forma autónoma.

De facto, o seu uso adequado reside numa lógica de complemento, depois das nossas ideias estarem criadas. Utilizada de forma ética e responsável pode contribuir para potenciar o trabalho humano sem comprometer a autonomia, a flexibilidade cognitiva e o pensamento crítico de quem a utiliza.

Success in the AI era will belong to those who adapt, learn, and innovate continuously.
Anónimo

1 Wells, H. G. (2017). A máquina do tempo. In Ficção curta completa (Vol. I, pp. 13–96). E-Primatur/Letras Errantes.

2 Damasio, A., & Damasio, H. (2001). Brain, art and education[Conference paper]. UNESCO Conference on Arts and Education, Brain and Creativity Institute and Dana and David Dornsife Cognitive Neuroscience Imaging Center, University of Southern California, Los Angeles, CA, United States. https://share.google/ha0w3YMN0tXTWMzem

3 Kosmyna, N., Hauptmann, E., Yuan, Y. T., Situ, J., Liao, X. H., Beresnitzky, A. V., Braunsteins, I. & Maes, P. (2025). Your brain on ChatGPT: Accumulation of cognitive debt when using an AI assistant for essay writing task. arXiv preprint arXiv:2506.08872, 4. https://doi.org/10.48550/arXiv.2506.08872

Por Helena Santos Leitão

Helena Santos Leitão é médica radiologista, professora universitária e investigadora na Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas da Universidade do Algarve e no Algarve Biomedical Center Research Institute. Formada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e doutorada pela Universidade de Coimbra, trabalha nas áreas da imagem médica, bioética, direito médico, gestão em saúde e educação médica. Ao longo do seu percurso, acumulou experiência em administração hospitalar e tem participado em projetos que aproximam o ensino médico, a investigação biomédica e os cuidados de saúde.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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