Por Cristina Marreiros
Era uma vez um pequeno país europeu, periférico, abençoado pela natureza com belas paisagens e uma história com muito que contar.
Esse país tinha no Turismo uma atividade económica cada vez mais representativa. A sua província mais a sul era um dos destinos mais procurados. Embora espelhasse um pouco todo o país, eram as suas praias as mais visitadas.
Mas essa região queria mais, queria um turismo mais cultural. Afinal tinha 27 Monumentos Nacionais e uma série de outros motivos de interesse, uma rica história e muitos mais atrativos.
Numa das suas cidades, existiam três Monumentos Nacionais, dois deles esquecidos, com graves carências a nível de conservação. Mas um terceiro era o filho dileto, com uma recente intervenção de vários milhões de euros, integrando o Museu Municipal, quase deixando de ser Monumento Nacional para passar a ser a sua sala 11.
Poderia ser um dos locais mais visitados da região, tinha todos os motivos para isso – uma história interessante, um interior barroco de talha dourada, pinturas e azulejos.
Poderia, não fossem as condições de admissão serem questionáveis e difíceis de cumprir para quem viaja em grupo.
Depois do Covid, as capacidades de carga dos edifícios foram reduzidas. Neste espaço, em particular, passaram a ser admitidas apenas 25 pessoas, o que dá uma média impressionante de 2,27 pessoas por sala. Não importa o tamanho do grupo. Conta-se sempre quantas pessoas estão no interior e depois deixa-se entrar um a um, dois a dois, a conta gotas, conforme os que vão saindo.
Para entrar, para além de pagar entrada, o que é normal, também tem de se deixar as malas, mochilas e sacos nos armários da receção.
Se forem muito grandes, se não couberem nos cacifos, nem sequer nos é consentida a entrada, porque não têm onde guardar os nossos pertences.
Se quisermos levar as nossas carteiras e os telemóveis na mão, também não é permitido. Normas mais restritas que no Louvre ou qualquer outro grande museu mundial ou ainda em qualquer outro monumento do tal país à beira-mar plantado.
E há videovigilância em todo o lado e funcionários que zelam diligentemente para que tudo se cumpra.
Até mesmo na rua, espaço público, há normas. Os visitantes que esperam e fazem fila no exterior não podem estar no sentido ascendente da rua, onde durante a manhã até existe alguma sombra, evitando ficarem expostos ao sol. E não o podem fazer porque a vizinha, uma senhora italiana, se sente incomodada e já chegou a despejar água em cima de quem espera.
Vamos imaginar um dia deste mês de Abril, com muito sol e quente. Um grupo de cerca de oitenta pessoas e quatro Guias, interessado no tal Turismo Cultural, tem duas horas na cidade e quer visitar o referido monumento.
Como está gente no interior tem de se esperar que vão saindo, lentamente. Mais de uma hora de espera faz com que cerca de dois terços do grupo desistam. Os resistentes acabam por não ter tempo para ver mais nada. Nem para um café ou comprar uma singela lembrança.
O Museu é de todos nós, está escrito na porta. Mas, com tantas restrições, é difícil perceber quem é o “nós”.
Ao pensarmos um espaço assim, com tantas complicações, apesar de gostarmos de divulgar a nossa história, os nossos monumentos, de mostrar o que de melhor existe no nosso país, ficamos tristes e desanimados. Ninguém gosta de querer dar o melhor pela sua região e sentir que não é bem-vindo.
Naturalmente, que perante uma situação destas nos questionamos se vale a pena estar numa fila ao sol, ao vento ou à chuva para sermos recebidos com má vontade.
Não é difícil pensar que o mais certo é evitar as visitas, desaconselhar os grupos, oferecer outras opões.
E um equipamento renovado, pago com os impostos de todos nós, arrisca-se a ficar só para as visitas escolares, que, quando se realizam, inviabilizam outro tipo de visitantes de entrar pelo tempo que duram e pela quantidade de alunos que recebem de cada vez.
As verbas que poderiam ser recebidas das entradas dos muitos grupos diminuem todos os dias.
A cultura não é para dar lucro, dirão uns, as visitas escolares são o objetivo final, poderão dizer outros. E tudo isso está correto. Mas mal não faria se pudéssemos amenizar os custos e as despesas, especialmente quando temos equipamentos que nos permitem fazê-lo, divulgando a nossa cultura e mostrando artes e tradições.
E esse pequeno país periférico continua a ser um destino popular. Mesmo que quem pensa que percebe destas coisas do Turismo continue sem visão, sem capacidade de entender que temos de trabalhar em conjunto, promovendo os nossos bens, o que nos faz únicos e diferentes, o que efetivamente motiva a que sejamos uma opção de visita num mundo cada vez mais competitivo e complicado. Já há tantas guerras no Mundo que entre nós deveríamos ser capazes de unir esforços por um bem comum.
Esta é uma história de um pequeno país europeu, na periferia, com muito que ver, que contar, que experienciar. Mas onde se dão tiros no próprio pé.
Felizmente, que em Portugal é diferente. Será?

PS – Parece que, entretanto, e já depois de ter enviado este artigo para publicação no Sul Informação, algumas regras de acesso ao tal monumento se alteraram.
Depois de inúmeras queixas de vários Guias, desde o dia 28 de Abril já pode entrar no dito museu um número ilimitado de visitantes, mantendo-se o limite de 25 pessoas na sala 11, a igreja que é Monumento Nacional.
Parece que é assim. E escrevo “parece” porque, apesar de existir no Algarve uma associação que congrega grande parte dos profissionais de informação turística, oficialmente nada foi comunicado.
E as dificuldades pelas quais temos passado não são esquecidas. Mas alegramo-nos que, aparentemente, exista uma vontade de dialogar.
Da nossa parte, estaremos sempre disponíveis.
Cristina Marreiros
Cristina Marreiros é Guia-Intérprete e presidente da Agigarve (Associação de Guias-Intérpretes do Algarve).
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
