OPINIÃO: “Klara e o Sol”, de Kazuo Ishiguro: uma meditação sobre Amor, Fé, Esperança e Obsolescência

Publicada em: 09/05/2026 16:31 -

Por Analita Alves dos Santos 


Esta é a história de Klara, uma Amiga Artificial, um androide concebido para acompanhar crianças e adolescentes, que observa o mundo a partir da montra de uma loja, à espera de ser escolhida.

«Uma tarde, quando o Sol penetrava até ao fundo da loja, a Gerente veio até onde eu me encontrava e disse:

­— Klara, decidi pôr-te de novo na montra. Desta vez vais ficar lá sozinha, mas sei que não te importarás. Tens sempre tanto interesse pelo exterior…»

Klara vê o mundo em fragmentos, literalmente, pois a sua visão processa a realidade em quadrículas que se reorganizam, e descreve-o com uma inocência meticulosa que desarma o leitor. A prosa é despojada, quase infantil por vezes, mas é precisamente essa contenção que amplifica a carga emocional. Não há adjetivos em excesso nem grandes proclamações; há apenas uma máquina a tentar compreender o que significa amar, viver, proteger e acreditar. É exploração da condição humana através de olhos que não são inteiramente humanos.

Aqui reside o paradoxo mais inquietante do livro: Klara sente mais, ou, pelo menos, age como se sentisse mais do que muitas das personagens humanas que a rodeiam. Enquanto os adultos calculam, negociam, conspiram e se protegem emocionalmente, Klara entrega-se sem reservas. A sua devoção a Josie, a adolescente doente que a escolhe, não conhece condições nem hesitações.

Num mundo onde a ciência permite «elevar» geneticamente as crianças, um processo que promete vantagens cognitivas, mas comporta riscos mortais, Klara desenvolve a sua própria forma de religiosidade. Para ela, o Sol é uma entidade benevolente, capaz de curar, de dar vida. Esta fé, construída a partir da observação e da lógica rudimentar de uma máquina, é ao mesmo tempo comovente e dolorosa. Klara não duvida, age, e é capaz até de se sacrificar.

«Mas eu agora aceitava que em breve seria engolida pelo solo, que o Sol estava zangado comigo, e talvez fosse hostil, e que Josie estava decepcionada comigo.»

O leitor mais cínico poderia ver nisto uma programação defeituosa, uma ingenuidade algorítmica. Mas Ishiguro convida-nos a outra leitura: e se a capacidade de acreditar, de manter a esperança contra toda a evidência, for, afinal, o que de mais humano existe? Klara, que não é humana, torna-se o repositório dessa virtude que os humanos do romance parecem ter abandonado.

Kazuo Ishiguro não situa a narrativa num tempo preciso, nem explica ao pormenor as regras deste mundo. Sabemos apenas o suficiente: há crianças «elevadas», geneticamente modificadas para competir num mercado de trabalho cada vez mais exigente, e há as que ficaram para trás. A edição genética não é garantia de sucesso. Pode, aliás, matar. Josie é uma «elevada» e está doente; a sua irmã mais velha morreu do mesmo mal.

Esta divisão social funciona como pano de fundo discreto, nunca panfletário, mas omnipresente. Ishiguro não precisa de gritar para nos mostrar uma sociedade que mercantilizou as crianças, que as transformou em projetos de otimização. No meio dessa engrenagem, Klara, um produto, uma mercadoria, mas mais do que um frigorífico, é quem demonstra amor incondicional.

Não revelarei os pormenores do final, mas posso dizer isto: o destino de Klara espelha, de forma pungente, o arco da própria existência humana. Klara tem o seu «declínio lento», a passagem da utilidade à obsolescência. Klara, que tanto deu, termina onde tantos de nós tememos terminar: posta de lado, com as memórias intactas, mas sem ninguém que as queira ouvir.

É um desfecho triste, sim. Mas Ishiguro não o torna melodramático. Há uma aceitação serena em Klara, uma gratidão pelo que viveu, que transforma a tristeza em algo próximo da beleza. O potencial desperdiçado não é um acidente narrativo, é o ponto. O que conta é o que fazemos, constantemente, uns aos outros e a nós mesmos.

Klara e o Sol não é um romance de ficção científica no sentido convencional. É uma fábula sobre o que significa cuidar de alguém, sobre os limites do amor e sobre a fragilidade de tudo o que construímos: relações, sentimentos, corpos, crenças. A escrita simples de Ishiguro, filtrada pelo olhar de uma máquina que vê mais do que devia, cria uma experiência de leitura envolvente e, por vezes, devastadora. No final, fica um vazio, uma sensação de «que desperdício!».

Klara acredita no Sol. Talvez o leitor, ao fechar o livro, acredite um pouco mais na possibilidade de bondade, mesmo quando vem de onde menos esperamos.

Quanto a mim, já tenho outro livro de Kazuo Ishiguro para descobrir: Nunca Me Deixes. Segundo o que me constou, ainda melhor do que este mundo da Klara. Cá voltarei para partilhar mais uma leitura deste merecido vencedor do Prémio Nobel da Literatura.

Analita Alves dos Santos 

Analita Alves dos Santos é autora e mentora literária.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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