Por Carolina Venda
Os ecrãs invadiram completamente o nosso dia a dia — mas a que preço? Estaremos a assistir, sem perceber, a uma transformação profunda (e preocupante) do cérebro das nossas crianças e jovens?
Televisores e computadores já fazem parte da história, mas os tablets, telemóveis e smartdevices trouxeram um novo nível de risco. Estes aparelhos estão sempre à mão, dentro e fora de casa, e oferecem estímulos constantes, altamente envolventes e difíceis de largar.
O resultado? Uma utilização cada vez mais intensa, mais precoce e, muitas vezes, completamente descontrolada.
Ao contrário das gerações anteriores, as crianças de hoje têm acesso ilimitado a conteúdos, podendo escolher o que ver a qualquer momento — sem pausas, sem tédio, sem limites. E aquilo que parece uma simples distração transforma-se rapidamente numa dependência silenciosa, usada para acalmar birras, preencher vazios e evitar qualquer desconforto.
Mas a ciência não deixa margem para dúvidas: o impacto é real e alarmante.
A comunidade científica tem vindo a alertar de forma consistente para os efeitos negativos da exposição precoce aos ecrãs. Estamos a falar de consequências diretas no neurodesenvolvimento, incluindo atrasos na linguagem, dificuldades de atenção e prejuízos nas funções executivas. E não fica por aqui: o uso excessivo está associado a problemas de sono, alterações comportamentais, dificuldades de aprendizagem e uma menor capacidade de regulação emocional.
Há ainda um efeito colateral devastador: quanto mais tempo diante de um ecrã, menos tempo existe para interações reais — com a família, com outras crianças e com o mundo físico. Menos brincadeira, menos movimento, menos desenvolvimento.
Perante este cenário, impõe-se uma questão urgente: que papel devem assumir os cuidadores?
Este artigo pretende lançar um alerta claro e inequívoco à sociedade: estamos perante um problema de saúde pública que exige ação imediata. A evidência científica é sólida e aponta para um impacto negativo significativo do uso inadequado de tecnologia ao longo de toda a infância e adolescência — sendo particularmente grave quando a exposição é precoce, não supervisionada e baseada em conteúdos aleatórios e pouco educativos.
Os primeiros anos de vida são cruciais para o desenvolvimento cerebral. É nesta fase que se estabelecem as bases para competências fundamentais — e isso só acontece através da interação direta com o ambiente. No entanto, os ecrãs competem diretamente com essas experiências essenciais.
O resultado? Crianças mais sedentárias, com menos oportunidades de desenvolver competências motoras e psicossociais básicas, como desenhar, recortar ou manipular objetos. A redução implícita de brincadeira livre, menos exploração, vai impactar negativamente na criatividade.
As consequências começam a tornar-se visíveis: dificuldades de concentração, impulsividade, menor tolerância à frustração e incapacidade de lidar com o tédio — um elemento essencial para o desenvolvimento da imaginação. Aumenta o risco de comportamentos de hiperatividade, défice de atenção, oposição e desafio.
Ao mesmo tempo, a tecnologia rouba espaço às interações humanas. O contacto com adultos e outras crianças diminui, abrindo caminho para atrasos na linguagem, empobrecimento do vocabulário e dificuldades sociais. Quanto mais cedo começa a exposição, mais profundo pode ser o impacto.
E há mais: os efeitos físicos também não podem ser ignorados. A fadiga ocular digital está a tornar-se cada vez mais comum, com sintomas como olhos secos, visão turva, dores de cabeça e até aumento do risco de miopia.
O sono — essencial para o crescimento e desenvolvimento — também está sob ataque. A exposição a ecrãs, especialmente antes de dormir, interfere com a produção de melatonina devido à luz azul emitida pelos dispositivos. Resultado: noites mal dormidas, ciclos de sono desregulados e impacto direto no bem-estar diário.
Nas redes sociais, o cenário agrava-se. As crianças e jovens são constantemente expostos a imagens irreais, muitas vezes manipuladas por filtros, criando padrões impossíveis de atingir. Esta comparação permanente pode levar a sentimentos de inadequação, baixa autoestima e aumentar o risco de perturbações alimentares, ansiedade e depressão.
Face a esta realidade, várias sociedades científicas têm vindo a estabelecer limites claros e rigorosos para o uso de ecrãs — recomendações que muitos ainda ignoram, mas que podem fazer toda a diferença no desenvolvimento saudável das crianças.
Nesse sentido a Sociedade Portuguesa de Neuropediatria recomenda:
- Evicção de ecrãs até aos 3 anos, exceto para vídeochamadas; neste contexto, exclui-se a televisão que pode ser usada até 30 minutos diários, desde que na presença de um adulto e com conteúdo adequado;
- Entre os 4 aos 6 anos, limitar o uso de ecrãs a 30 minutos por dia de programação de alta qualidade, assistida na presença de adultos que ajudem a contextualizar o conteúdo; o controlo de canais/mudança de vídeos não deve ser acessível à criança de forma autónoma;
- Manter limites consistentes de utilização, dos 7 aos 11 anos até 1 hora por dia e, dos 12 aos 15 anos até 2 horas por dia, garantindo que o seu uso não interfira no sono, na interação social, na atividade física, no estudo e em outras atividades essenciais para a saúde e bem estar;
- Como se prevê na legislação portuguesa, as redes sociais só devem permitidas a partir dos 16 anos;
- Em todos as idades, os ecrãs não devem ser utilizados como forma de facilitar as refeições, ultrapassar momentos de espera nem para controlar birras;
- Deve promover-se o uso de conteúdo educativo e de alta qualidade, utilizando estes recursos em conjunto com as crianças para ajudar a entender o que estão a ver e a aplicar o que aprenderam ao mundo em redor;
- Devem ser estabelecidos horários e áreas da casa onde o uso de dispositivos móveis não é permitido, como a mesa de refeições e os quartos;
- Os pais devem modelar comportamentos saudáveis em relação ao uso de tecnologia, demonstrando equilíbrio entre o uso de dispositivos e outras atividades
- Incentivar atividades físicas diárias e oportunidades para interações sociais presenciais;
- Devem ser ponderadas restrições à utilização de ecrãs nos intervalos escolares, promovendo o convívio e atividade física que substituam esta utilização extensiva; igualmente, o uso de manuais digitais e de plataformas on-line para trabalhos de casa devem ser repensadas até ao final do terceiro ciclo, dado não existir qualquer evidência de que a sua utilização seja vantajosa para os processos de aprendizagem, sendo muitas vezes fonte de distração e dispersão para outros conteúdos não letivos.
A responsabilidade não pode recair apenas sobre as crianças. Todos os adultos — pais, educadores, profissionais de saúde e sociedade em geral — têm um papel decisivo. O exemplo começa em casa, mas deve estender-se às escolas e aos sistemas de saúde, com um foco claro na prevenção.
O futuro das crianças está, literalmente, nas nossas mãos — e nos ecrãs que decidimos colocar (ou retirar) do seu caminho.NOTA: Escrito com base no documento “Recomendações da Sociedade Portuguesa de Neuropediatria para a utilização de ecrãs e tecnologia digital em idade pediátrica”, da Sociedade Portuguesa de Neuropediatria, de 09.2024.
Carolina Venda
Carolina Venda é médica de família (especialista em Medicina Geral e Familiar), a exercer na USF Farol em Faro.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
