Por Catarina Abril
O acesso à tecnologia e à partilha imediata de imagens em tempo real tem exacerbado, nos últimos meses, a perceção de um aumento súbito do número de tubarões nas nossas costas. No entanto, este mediatismo esconde uma realidade menos visível: os tubarões tornam-se altamente visíveis quando alimentam a narrativa do medo, mas permanecem invisíveis quando desaparecem dentro dos sistemas que os exploram.
Se, por um lado, a hipervisibilidade dos avistamentos coloca estas espécies na ordem do dia, por outro, a sua sobreexploração assenta no secretismo, na ocultação e na ambiguidade. Não é segredo que os tubarões têm sido alvo de práticas de pesca ilegais, frequentemente associadas ao mercado multimilionário das barbatanas. Mas, e se o problema for muito mais profundo do que apenas as barbatanas? E se não for apenas na ilegalidade que reside a questão?
Estima-se que, por ano, cerca de 100 milhões de tubarões sejam mortos por ação humana. Deste total, aproximadamente 50 milhões correspondem a capturas acidentais (ou bycatch, o termo em inglês para tudo aquilo que sobra da pescaria quando se remove os peixes que realmente se queria apanhar), sendo a outra metade atribuída à pesca intencional de algumas espécies de tubarões. Em algumas destas pescarias, onde os tubarões não são o alvo, estes representam entre 20% a 30%, podendo chegar aos 80%, das capturas totais.
Este cenário é agravado por um outro fator estrutural: a subnotificação. Em várias pescarias, muitas espécies de tubarões estão protegidas por legislação, o que pode desencorajar ou dificultar o seu registo correto. Em alguns casos, reportar determinadas capturas pode mesmo ter implicações operacionais ou legais, criando um incentivo indireto à omissão.
A este problema soma-se a prática do transbordo em alto mar (ou trans shipment, em inglês), uma operação que, apesar de ser regulada em alguns contextos, contribui frequentemente para a opacidade das cadeias de pesca. Nestes casos, capturas podem ser transferidas entre embarcações, em pleno alto mar, longe de qualquer supervisão direta, tornando o rastreio da origem, da espécie e do volume capturado significativamente mais difícil.
Este sistema cria uma zona cinzenta na cadeia de abastecimento, onde a monitorização se fragiliza e a rastreabilidade se perde. O resultado é uma lacuna significativa de informação sobre os descartes e sobre o destino real destes animais: quantos são efetivamente devolvidos ao oceano e quantos sobrevivem após a captura.
Na prática, grande parte deste impacto permanece invisível nos dados oficiais, o que significa que poderemos estar a subestimar em larga escala o número de tubarões mortos anualmente.
Sabemos hoje que nem todas as espécies de tubarões respondem da mesma forma à captura e à libertação. No caso dos tubarões de profundidade, muitos indivíduos chegam já mortos à superfície, e aqueles que são devolvidos ao mar apresentam taxas de sobrevivência muito reduzidas, frequentemente associadas a stress extremo e danos físicos e fisiológicos difíceis de reverter.
Em termos gerais, isto pode traduzir-se em cerca de 8 em cada 10 indivíduos que não sobrevivem ao processo de captura e libertação. Neste contexto, a adoção de boas práticas de mitigação do bycatch não é apenas recomendável, é determinante para reduzir um impacto que continua a ser amplamente subestimado.
Mas não é apenas no momento da captura que o sistema beneficia de uma perceção distorcida da presença dos tubarões. Na realidade, estes animais estão muito mais presentes no quotidiano do consumidor do que geralmente se reconhece.
O esqualeno, um composto químico utilizado pelas suas propriedades hidratantes em produtos de cosmética como cremes e séruns faciais, pode ser obtido a partir do óleo do fígado de tubarões de profundidade. Ainda que algumas marcas já se tenham comprometido publicamente a não utilizar esqualeno de origem marinha, através de iniciativas como o movimento ‘Shark Free’, não existe atualmente qualquer obrigação internacional de divulgar a origem deste composto nos rótulos dos produtos cosméticos.
Esta opacidade estende-se também a outras áreas, como a da suplementação alimentar, nomeadamente ao uso de colagénio derivado de cartilagem de tubarão, que tem vindo a ganhar popularidade com alegações de benefícios para a saúde articular e, em alguns casos, alegando propriedades anticancerígenas sem base científica robusta.
De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, na sua sigla em inglês), o mercado global de produtos derivados de tubarão encontra-se avaliado em cerca de mil milhões de dólares.
Assim, ainda que o finning e o comércio de barbatanas permaneçam um problema, o mercado de tubarão estende-se muito para além destes, constituindo uma cadeia global ampla, fragmentada e em grande medida invisível ao consumidor.
Os próprios nomes comuns, como tintureira e litão, ou caneja e cação, contribuem frequentemente para a confusão do consumidor, diluindo a perceção de que se trata, na maioria dos casos, de tubarão.
Esta linguagem não é neutra: influencia a forma como percebemos o que está no prato, e aquilo que circula no mercado.
A verdade simples é que não é ‘sexy’ vender tubarão. A carne de tubarão surge frequentemente disfarçada, sendo vendida como se de outro peixe se tratasse, quer em produtos processados como douradinhos e delícias do mar, quer através de designações comerciais que mascaram a sua origem.
Existem ainda registos não oficiais de tubarão vendido como atum ou espadarte, reforçando a opacidade em torno da sua comercialização.
Em suma, não é que existam mais tubarões a aparecer nas nossas costas – na realidade, existem cada vez menos tubarões no oceano.
A diferença é que essa realidade nem sempre é conveniente de dizer ou de ver. Esta crescente “invisibilidade” cria ameaças que são difíceis de prever para os ecossistemas e a biodiversidade associada, e por consequência, ameaças para a humanidade em si, agravando o desinteresse na sua conservação.
Afinal de contas, só protegemos aquilo que amamos e só amamos aquilo que conhecemos. Mas desengane-se quem acha que esta invisibilidade é ingénua. Ela é estrutural, é sustentada por falhas de transparência e regulamentação, e serve interesses económicos que beneficiam diretamente da ausência de escrutínio.
Talvez a questão nunca tenha sido porque vemos tantos tubarões, mas sim porque continuamos a não ver tudo aquilo que os faz desaparecer.
Catarina Abril
Licenciada pela Universidade do Algarve em Biologia Marinha e Mestre em Biologia Marinha e Conservação pelo ISPA, é uma verdadeira “sharky”. O seu amor por tubarões valeu-lhe, em 2019, a bolsa Women in Shark Science da South African Shark Conservancy permitindo-lhe realizar o seu estágio em Hermanus, na África do Sul, onde desenvolveu o seu gosto pela comunicação e sensibilização. Atualmente lidera o trabalho em mineração do mar profundo, acompanhando de perto outros temas relacionados com o fundo do mar nomeadamente no ramo das pescas. Segue ainda o trabalho em Pescas no Nordeste Atlântico e integra as equipas de Pescas e de Clima da Sciaena.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
