Por António Covas
Nos últimos 20 anos, consolida-se, progressivamente, uma visão cibernética e algorítmica da sociedade humana que interage, cada vez mais, com a socialização do mercado e a institucionalização do Estado-administração.
A nova economia política vamos encontrá-la, justamente, neste triângulo em operação formado pela economia privada do mercado, a economia pública do Estado-administração e a economia algorítmica das plataformas.
É aqui, também, neste triângulo, que podemos observar, em pleno funcionamento, a economia política do trabalho digital. Dois aspetos merecem especialmente a nossa atenção: o triângulo conexão, distração, solidão e a crise da esfera pública.
Conexão, distração e solidão, o produto somos nós
Conexão, distração, solidão, este é um dos triângulos paradigmáticos da economia política do trabalho digital do século XXI. Por causa da hipervelocidade e elevada conectividade das redes e plataformas, o potencial de extração de mais-valias do trabalho humano é cada vez maior. Voltamos, assim, à indústria extrativista do capitalismo.
Na era digital que já aí está, a precariedade tecno-digital irá substituir o contrato coletivo do operariado industrial e dos serviços. Esta dissociação contratual, por um lado, e a relação entre conexão, distração e solidão, por outro, são uma parcela muito relevante do capitalismo tecno-digital. Vejamos alguns aspetos.
Em primeiro lugar, o longo prazo dos contratos coletivos já não caracteriza os modelos que organizam o mundo do trabalho, há uma crise do universo socioprofissional, a remuneração fixa é complementada por prémios e rendimentos variáveis de recompensa; ou seja, abandonamos uma relação salarial simplista e entramos numa relação pós-salarial e remuneratória complexa onde cabem muitos outros fatores de ponderação: a mobilidade socioprofissional, o ambiente de trabalho, o apoio à família, o teletrabalho, o trabalho independente, a prestação de serviço, a formação permanente, os prémios de produtividade; de resto, esta complexidade de relações de colaboração deixa para plano secundário o papel das organizações sindicais e corporativas.
Em segundo lugar, é preciso não esquecer que existe uma forte diferenciação na economia política do trabalho digital, uma estratificação socio-digital que, em primeira aproximação, poderia ser delimitada do seguinte modo:
– Uma hiper classe digital: uma elite digital reduzida, mas em crescimento, bem remunerada e que dispõe de todos os meios e dispositivos de conexão e criação, cujos membros criam e manipulam informação em múltiplas plataformas, razão pela qual são nómadas digitais privilegiados e vivendo, por isso, uma solidão voluntária feita de múltiplas intermitências.
– Uma classe média digital: o digital labor, um grupo que procura alargar-se e afirmar-se, em luta para se juntar à hiperclasse e fugir ao proletariado digital; uma parte com vínculo laboral e outra parte em regime de trabalho independente e prestação de serviço, mas, em ambos os casos, a inovação e a obsolescência tecnológicas ameaçam com a precariedade e a intermitência profissionais; uma parte importante destes profissionais circula em redor das atividades de investigação e desenvolvimento e, também, das indústrias criativas das artes do espetáculo, entretenimento e distração que são fundamentais para manter este digital labor nos limites aceitáveis da tolerância social e política.
– Um proletariado digital: uma certa forma de digitalismo proletário, um grupo muito vasto, indiferenciado e disfuncional, deixado para trás nos interstícios do modelo pós-industrial dos bens e serviços mais tradicionais, sempre no limbo de um digitalismo elementar, digamos, uberizado e no limiar de uma pobreza sistémica.
Em geral, e no que diz respeito aos trabalhadores independentes, precários e intermitentes do universo digital em sentido amplo, eles terão cada vez mais uma identidade e percursos profissionais multivariados feitos a partir de múltiplas experiências, pois no futuro próximo todas as sociedades serão uma espécie de coleção de diásporas feita de migração e nomadismo, mas, também, de muita interação e intermitência. É neste quadro geral que se inscreve a formação das novas classes sociais da era digital.
Um exemplo desta proletarização digital diz respeito à chamada ideologia da uberização, a última versão radical do capitalismo. Nesta versão, não há, doravante, relação salarial, sindicato e vínculo contratual, trata-se, no fundo, de mais uma prestação de serviço do que uma relação contratual.
Afinal, tudo fluido, precário, transitório, passageiro, como tudo o que a UBER transporta, em trânsito acelerado para o precariado digital, a nova servidão voluntária das redes, aplicativos e estrelas de reputação, sempre no interior do capitalismo neoliberal e em rota de colisão civilizacional em matéria de direitos económicos, sociais e humanos.
Em terceiro lugar, nas democracias vigora o governo das maiorias, mas as minorias ricas não vão aceitar o governo das maiorias pobres, logo estas têm de ser condicionadas e manipulados a todo o tempo com a ajuda das elites político-partidárias e técnico-científicas que são patrocinadas e financiadas pela minoria rica e é aqui, com esta estratégia política de condicionamento e manipulação, que entra a sociedade algorítmica e o capitalismo de vigilância; no limite, se este equilíbrio de pesos e contrapesos não for conseguido (entre criação e distribuição de riqueza), as democracias podem regredir para regimes autoritários ou autocracias, sob pena de caírem no caos e na desordem social e política (secessões e separatismos, por exemplo); no final, para este cidadão condicionado, não existe autodeterminação, ele é um produto da sociedade cibernética e algorítmica, uma criação biopolítica da sociedade tecno-digital. Nós somos o produto.
Transição tecno-digital e crise na esfera pública
A última vertente da economia política do trabalho digital diz respeito à quebra de confiança e sociabilidade gerada no mundo do trabalho, a uma certa degradação do ambiente socio-laboral que transforma a exposição ao risco em exposição ao perigo (a perceção do trabalho) e, igualmente, a uma perda de consistência narrativa e simbólica da vida profissional de cada trabalhador que nos remete para uma certa confusão cognitiva e uma crise mais geral do pensamento crítico na esfera pública e comunicacional da sociedade tecno-digital. Vejamos alguns pontos de fuga desta crise da esfera pública.
– O ponto de partida, os nossos dados pessoais, que nós cedemos gratuitamente a troco de alguns serviços das grandes plataformas, também gratuitos, mas que põem em causa a nossa privacidade e liberdade; uma vez tratados e perfilados, somos editados pela produção algorítmica, ou seja, coisificados, como produto de marketing publicitário;
– A crise de representação, mediação e confiança, que se traduz numa crise da verdade estabelecida e institucionalizada, anuncia o princípio do fim do nosso universo comunicacional, tal como o conhecíamos; as normas das instituições são substituídas pelas prescrições dos algoritmos;
– O crescimento do narcisismo digital, a consequência direta da adição digital e de um cidadão aditivado, empobrece a comunicação simbólica e facilita as bolhas de desinformação e contrainformação que circulam nas redes sociais e que, no final, alimentam o mercado político dos candidatos ao populismo nacionalista;
– Onde há sensores há censores, isto é, podemos, mesmo, estar à beira de um universo kafkiano se não prestarmos muita atenção aos inúmeros vieses cognitivos a circular na esfera pública, donde a grande importância de uma excelente literacia tecno-digital.
Nota Final
Aqui chegados, e por todas as razões, a economia política do trabalho digital não pode dispensar a cultura e o pensamento crítico. A cultura é um reportório simbólico, memória coletiva, imaginário político, narrativa comunicacional, se quisermos, uma espécie de operador multifunções e multiusos.
Sem cultura não há, definitivamente, pensamento crítico, pois ela tem o discernimento suficiente para nos ajudar a lidar com os paradoxos da nossa vida coletiva.
Em conjunto, temos de impedir que ela seja relegada para um recanto ornamental e decorativo, pois a cultura é imprescindível para repolitizar a narrativa do capitalismo tecno-digital. Para tal, não podemos separar a educação e a cultura, pois é nessa interação que reside o pensamento crítico.
Ora, justamente, a arte e a cultura introduzem distância, duração e tempo lento nesta linha do horizonte, basta que, para tal, não nos deixemos seduzir e iludir pelo entretenimento e a distração, sempre presentes, que o capitalismo nos oferece a todo o tempo e que são uma espécie de placebo para as nossas inquietações.
Se não o fizermos seremos fiéis serventuários dos mestres-algoritmos e seus avatares e no dia seguinte acordaremos no seio do universo transumano e pós-humano.
António Covas
António Covas é Professor Catedrático Aposentado da Universidade do Algarve.
