Por Analita Alves dos Santos
Mariana Nunes, que mora em São Brás de Alportel, é criadora de conteúdo literário, fundadora do projeto Chronicles of Mariana e anfitriã do podcast The Books and the Tea.
Licenciada em Psicologia e mestre em Estudos Editoriais, une a paixão pelos livros ao conhecimento do universo editorial, promovendo a leitura através de conteúdos digitais e da criação de uma comunidade de leitores em Portugal.
Recentemente tornou-se mãe do Benjamin, uma experiência que acrescentou uma nova dimensão ao seu olhar sobre as histórias, o quotidiano e a forma como partilha o seu universo.
Entre livros, chávenas de chá e pequenos momentos do dia a dia, acredita que a leitura tem o poder de aproximar pessoas e criar comunidade.
Sul Informação – Em que momento o teu olhar sobre os livros deixou de ser só teu e passou a criar comunidade?
Mariana Nunes – Acho que aconteceu de forma muito natural. Comecei por partilhar leituras porque precisava de um espaço onde pudesse falar sobre aquilo que lia e sentia e, honestamente, encontrar um espaço que fosse só meu e que ninguém soubesse.
No início da conta, não partilhava a minha cara, mas ao fim de um mês percebi que fazia todo o sentido mostrar quem era. Com o tempo, percebi que havia milhares de pessoas que procuravam exatamente o mesmo: alguém que lhes dissesse “também senti isto a ler”.
E também fui recebendo imensas mensagens de leitores e foi quando percebi que tinha encontrado o meu “sítio”. Acho que foi a partir dessas mensagens e comentários que foi surgindo a comunidade.
Hoje sinto que as pessoas não me seguem apenas pelas recomendações de livros, seguem-me porque gostam de mim, das minhas conversas, dos meus hábitos, das minhas rotinas e uma da minha forma de viver e pensar. E acho que isso é o mais importante acima de tudo. Gostarem de mim por eu ser eu mesma, sem ter medo de rótulos e de caixinhas.
SI – O teu projeto chama-se Chronicles of Mariana. Existe uma procura consciente por transformar o efémero do dia a dia — o chá, a luz da casa, a arrumação dos livros — numa narrativa com significado?
MN – A Cronicles of Mariana nunca foi só sobre livros, foi sobre criar um espaço para desacelerar e encontrar conforto nas pequenas coisas. Foi um espaço para eu ser eu mesma sem medos e julgamentos porque durante muitos anos eu tinha medo de ser eu. Sempre ouvi aquela frase do “tu és demasiado”. Talvez por conta do PHDA e dos meus “extremos” e hiperfocos, e mil e um hobbies.
Mas eu nunca me senti mal por isso, só me sentia incompreendida, então acho que esta página acabou por ser isso também. Um lugar onde as pessoas se podiam sentir seguras para ser elas próprias sem medos.
SI – Tal como outros algarvios entrevistados neste ciclo de conversas, vives e crias a partir do Sul. De que forma o ritmo e a geografia do Algarve influenciam a curadoria do teu conteúdo e a tua própria «estética do quotidiano»?
MN – Acho que de nenhuma forma. Vivo a minha vida e partilho-a como normal, claro que o facto de termos sol durante grande parte do ano acaba por ser benéfico para criar conteúdo com mais ar livre, mas não acredito que me influencie a curadoria do conteúdo. Eu crio muito sem pensar, gostei e criei. Achei relevante, partilhei. Mesmo que seja a única a achá-lo.
Acho que a única coisa diferente por ser do Algarve é mostrar que também existem leitores e projetos fora das grandes cidades, porque a verdade é que somos sempre muito esquecidos no que se trata de eventos culturais literários, apesar de que nos últimos anos temos tido a ter cada vez mais! Convido toda a gente do Algarve a aparecer nas nossas sessões mensais do Entrelinhas na Biblioteca Municipal de São Brás de Alportel.
SI – Afirmas que «lês muito» e convives com a PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção). De que forma esta condição molda a tua relação com a página escrita? A leitura entra como uma forma de organizar esse caos, ou já trazes um ritmo próprio antes de abrires o livro?
MN – A PHDA faz com que a minha relação com a leitura seja tudo menos linear. Há dias em que consigo ler centenas de páginas ou até mesmo dois livros num dia, porque entro em hiperfoco e outros em que reler o mesmo parágrafo cinco vezes e não avançar dali.
Aprendi a não lutar contra isso e assumir que é a vida. Também por essa razão acabo por ler vários livros ao mesmo tempo: cada um de um tema diferente.
Sou uma mood reader então acabo por ter livros que vão de encontro ao que me apetece naquele momento. O que nem sempre é positivo, porque depois chego a ter vários livros começados e não avanço em nenhum, mas lá está, não forço nada.
SI – No teu podcast The Books and the Tea, o ritual do chá parece ser indissociável da leitura. O que é que este ritual te confere que a leitura isolada não proporciona? É uma forma de ancorar a mente num mundo hiperconectado?
MN – Acho que não é um ritual, apenas a junção de duas coisas que amo. Ultimamente nem tenho tido essa junção de coisas, ou só leio, ou só bebo chá. Acho que os dois não estão de mão dada.
SI – Ser bookstagrammer implica transformar uma experiência privada, a leitura, em conteúdo público. Há livros sobre os quais preferes não falar porque sentes que pertencem apenas à tua intimidade?
MN – Não! Há histórias que chegam numa fase muito específica da nossa vida e acabam por ter imenso significado naquele momento e se calhar noutra altura isso não acontecia. Mas tudo na vida é assim. Não escondo nada do que leio, nem tenho vergonha de ter amado um livro que todos odeiam ou odiar um livro muito amado.
Partilho tudo, o que gosto, o que não gosto, porque honestamente pouco me importa a opinião das pessoas sobre o que leio ou deixo de ler. Só tem de fazer sentido a mim, porque cada livro é uma experiência e cada leitura desse livro é também uma experiência diferente para cada pessoa.
SI – Interessa-te mais a estética do livro como objeto físico e decorativo ou a «dureza» da história que ele contém?
MN – Quando a beleza de uma estante e a inquietação de um texto puxam para lados opostos, qual ganha? A estética da capa pode chamar-me à atenção primeiro, mas é sempre a história que me faz ficar. Adoro livros bonitos e colecionar livros.
Sou apologista de que ler e colecionar livros são hobbies diferentes. Pessoalmente, gosto de criar espaços visualmente acolhedores e esteticamente bonitos com as minhas estantes, mas faço isso com tudo na vida. Acho que ao tornar o espaço mais meu e bonito à minha maneira, que me traz mais conforto.
No entanto, um livro bonito sem uma boa história acaba por perder valor muito depressa. Por exemplo eu tenho uma estante com diversas edições especiais de diferentes coleções de livros que amei, caso a história em si do livro não me tivesse cativado eu nunca tinha ido procurar mais edições dos mesmos livros.
SI – Quando decides partilhar uma reflexão ou um vídeo, partes de uma imagem visual que te seduz ou de uma inquietação que precisa de encontrar palavras?
MN – Depende do tipo de conteúdo. Se for um vídeo mais cinematográfico, normalmente começo pela imagem, mas não é algo que costumo fazer regularmente. Quando quero falar de um livro ou de uma ideia importante, tudo começa numa pergunta ou numa emoção. Acaba por não ser muito produzido. Pego só no telemóvel e gravo.
Eu também sou uma pessoa muito prática. Não me identifico com coisas muito produzidas porque não tenho muita paciência para as editar ou planear. Gosto de coisas mais genuínas.
SI – Como distingues aquilo de que genuinamente gostaste daquilo que sabes que terá maior alcance nas redes? Já sentiste que o algoritmo tentava interferir no teu gosto literário?
Claro que o algoritmo influencia. É impossível ignorar que certos livros geram mais interação do que outros. Mas faço um esforço consciente para que isso não determine aquilo que leio. Caso contrário deixaria de ler por curiosidade e passaria a ler por modas, e isso retiraria todo o sentido da leitura para mim.
SI – Representaste os jovens leitores no palco do Book 2.0. Como é que se preserva a «lentidão» da leitura profunda quando o TikTok mede tudo em segundos?
MN – Acho que não precisamos de colocar os dois mundos em oposição. Um vídeo de trinta segundos pode ser a porta de entrada para um livro de seiscentas páginas. O importante é perceber que as redes sociais podem despertar curiosidade, mas nunca substituem a experiência da leitura. Podem, e conseguem, é ligar um livro a um leitor ou despertar a curiosidade de quem nunca pegou num livro.
SI – As redes sociais estão a ampliar a diversidade literária ou a criar formas de conformismo?
MN – As duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Nunca foi tão fácil descobrir autores independentes, editoras pequenas ou géneros menos conhecidos. Mas também é verdade que os mesmos livros acabam por aparecer constantemente nos nossos ecrãs. Cabe-nos fazer um esforço consciente para procurar aquilo que está para lá do algoritmo.
Acho que faz falta ser mais curiosos, sair da nossa zona de conforto. Eu gosto muito de consumir criadores de conteúdos que leem livros diferentes dos que eu costumo ler para descobrir novas coisas.
SI – Num espaço digital em que qualquer pessoa pode recomendar um livro, o que distingue, para ti, influência de mediação literária?
MN – Influenciar é dizer “gostei deste livro”. Mediar é explicar porquê, contextualizar a obra, perceber para quem faz sentido e reconhecer também as suas limitações. Acho que o papel de quem cria conteúdo sobre livros deve aproximar as pessoas da leitura, não apenas gerar consumo.
SI – És uma voz influente numa nova geração de leitores em Portugal. Sentes que existe uma responsabilidade ética na forma como recomendas livros, sabendo que a tua opinião pode moldar o mercado e os hábitos de quem te segue?
MN – Nunca quero que as pessoas sintam que têm de gostar de um livro só porque eu gostei. Aliás quando eu não gosto de um livro sou a primeira a dizer para o tentarem ler porque o facto de eu não ter gostado não significa que outra pessoa não pode encontrar o seu novo livro favorito.
Tento sempre lembrar que a leitura é subjetiva. A minha responsabilidade não é dizer o que é bom ou mau de forma absoluta, mas dar contexto suficiente para que cada pessoa faça a sua própria escolha e decida se quer ou não ler um livro.
SI – Como vês o papel da mulher criadora de conteúdo hoje? Sentes que o estilo de vida feminino é tratado como superficial?
MN – O que é que esse julgamento costuma deixar de fora? Ainda existe esse preconceito. Infelizmente vivemos numa sociedade muito machista onde tudo o que uma mulher faz ou gosta é superficial. Eu não ligo muito a isso, diz mais sobre quem me aponta o dedo do que sobre mim. Fico feliz por ter um lugar onde posso ser eu e gostar do que faço.
E também existe sempre a opção de bloquear as pessoas, é pena não existir essa funcionalidade na vida real. Muitas vezes desvaloriza-se o trabalho porque envolve estética, mas por trás dessa estética há estratégia, planeamento, fotografia, edição de vídeo, escrita, comunicação e muitas horas de trabalho invisível.
SI – Trabalhaste como assistente editorial e estagiária numa editora, cruzando a fronteira entre a leitora entusiasta e a profissional que «fabrica» o objeto livro. Essa proximidade com os bastidores alterou a tua forma de ler ou de valorizar a obra?
MN – Alterou sobretudo a forma como valorizo o trabalho coletivo. Hoje olho para um livro e penso muito mais nas pessoas que contribuíram para que ele existisse: revisores, tradutores, designers, paginadores, equipa comercial e tantas outras. Passei a ter uma enorme admiração pelo percurso invisível que um livro faz até chegar às mãos do leitor.
SI – Quando um livro chega às redes sociais, vemos o objeto terminado. Agora conheces tudo o que aconteceu antes de ele chegar às mãos do leitor. Há alguma coisa que tenhas descoberto nos bastidores da edição que gostasses que os leitores soubessem?
MN – Gostava que percebessem que um livro é sempre um trabalho de equipa. Mesmo quando vemos apenas o nome do autor na capa, há dezenas de pessoas envolvidas no processo. Muitas decisões que parecem pequenas, uma tradução, uma escolha de capa ou uma revisão podem alterar profundamente a experiência de leitura, para melhor ou pior.
E ultimamente tem havido diversos debates devido à utilização de IA para criação de capas e traduções de livros, e acho que já se percebeu bem o quanto isso afasta os leitores e piora em grande escala a experiência do leitor com o livro.
SI – O que é que tu, enquanto leitora, ainda esperas encontrar nos livros? Existe algum «território literário» que ainda tenhas receio ou muita vontade de explorar?
MN – Espero continuar a encontrar livros que me surpreendam quando acho que já li de tudo. Quero explorar mais clássicos e literatura de diferentes culturas, mas também continuo fascinada por romances contemporâneos que conseguem transformar pequenas histórias em experiências memoráveis.
Quero continuar a encontrar cada vez mais livros que abordem saúde mental e com representação de PHDA. Há um género que nunca li, terror, mas para ser honesta não é algo que me seduz, também não gosto de filmes desse género por isso acho que dificilmente me apanharão com um livro desses.
SI – Se um seguidor teu levasse apenas uma ideia ou um sentimento das tuas «Crónicas», qual gostarias que fosse?
MN – Gostava que percebesse que ler não é uma competição nem uma obrigação, mas algo que nos deve fazer bem e saber bem. Se alguém sentir que encontrou um espaço mais calmo, mais acolhedor e sentiu que podia ser ele/a próprio/a sem julgamentos, então sinto que a minha plataforma cumpriu o seu propósito.
SI – Imagina que daqui a dez anos já não existem Instagram nem TikTok como os conhecemos. O que gostarias que permanecesse do Chronicles of Mariana além das plataformas?
MN – Gostava que permanecesse a comunidade. As plataformas mudam, os algoritmos mudam e os formatos também. Mas espero que fique a ideia de que os livros aproximam pessoas.
Se, daqui a dez anos, alguém se lembrar das Chronicles of Mariana como um lugar onde descobriu um livro que o marcou, ou onde encontraram uma pessoa que lhes trouxe conforto ou tivesse influenciado a voltar a ganhar o hábito de ler, acho que esse será o legado mais bonito que poderia deixar.
Analita Alves dos Santos
Analita Alves dos Santos é autora e mentora literária.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
