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OPINIÃO: É mais fácil entrar para a universidade do que sair de lá… com formação

OPINIÃO: É mais fácil entrar para a universidade do que sair de lá… com formação

Por Alexandre Lima

Quase 50 mil estudantes foram colocados no ensino superior. Portugal tem razões para celebrar. E uma responsabilidade que começa precisamente agora.

Foram conhecidos os resultados da 1.ª fase do acesso ao ensino superior público.

Em milhares de casas portuguesas houve um grito, uma chamada para os avós, uma captura de ecrã enviada para o grupo da família e, nalguns casos, a promoção imediata do jovem a «doutor», ainda antes de ele saber onde ficam os serviços académicos.

Faz parte. Há alegrias que não precisam de moderação.

Foram colocados 49 991 estudantes, mais 6092 do que em 2025. O aumento foi de 13,9%. É o número mais elevado da última década, com exceção de 2020, ano marcado pelas condições extraordinárias da pandemia. Mais de metade dos estudantes ficou na primeira opção e 84,5% conseguiu entrar numa das três primeiras escolhas.

Não é, rigorosamente, o maior valor de sempre. Mas é suficientemente alto para dispensar uma cunha estatística. A realidade já é uma excelente notícia.

Quando me candidatei ao ensino superior, era habitual ouvir, por esta altura do ano, um comentário dito com uma solenidade quase oficial:

«O filho do senhor fulano conseguiu entrar na universidade.»

O verbo «conseguiu» carregava o peso todo da frase. Trazia os exames, a média, os nervos, a família mobilizada e, muitas vezes, o orgulho de alguém ser o primeiro de várias gerações a chegar ali.

Durante alguns dias, a notícia circulava pela terra como se tivesse sido publicada em Diário da República. O curso podia ser revelado mais tarde. Para já, tinha entrado na universidade. Isso bastava.

Hoje, curiosamente, no mesmo lugar e porventura pelas mesmas pessoas, ouço com maior frequência a frase ao contrário:

«O filho do senhor fulano não conseguiu entrar na universidade.»

A desilusão de cada jovem merece respeito, mas esta inversão revela uma mudança profunda no país.

Antigamente, a notícia era entrar, hoje, a notícia é não entrar.

Não conheço muitas estatísticas capazes de explicar tão bem uma transformação social.

Portugal conseguiu, em poucas décadas, tornar o ensino superior uma expectativa normal para uma parte muito mais ampla da população. Não está acessível a todos nas mesmas condições. Ainda há jovens que ficam de fora por razões económicas, familiares ou territoriais, mas deixou de ser um lugar quase reservado às elites e às famílias que já conheciam o caminho.

Esta mudança não pertence a um governo, a um partido ou a um ministro. Resulta de uma orientação mantida por sucessivos governos: alargar a escolarização, expandir a rede pública, criar e consolidar o ensino politécnico, reforçar a ação social, aumentar as qualificações e permitir que mais jovens chegassem ao ensino superior.

Há políticas públicas que só começam verdadeiramente a produzir resultados quando já ninguém consegue colocar-lhes uma bandeira partidária.

Portugal, que tantas vezes muda o nome dos programas antes de perceber se funcionam, conseguiu manter aqui uma direção. Houve avanços, erros, interrupções e reformas discutíveis. Ainda assim, a linha geral permaneceu.

Os resultados são claros. No final da década de 1990, apenas 11% dos jovens adultos portugueses, entre os 25 e os 34 anos, tinham formação superior. Em 2024, eram 43%. Em cerca de 25 anos, a proporção quadruplicou e Portugal aproximou-se da média da União Europeia, situada nos 44%.

Isto não aconteceu por acaso. Foi consequência do investimento público, do trabalho das escolas, da expansão das instituições e também do enorme esforço das famílias. Muitas fizeram sacrifícios que nunca apareceram em qualquer relatório.

Convém, apesar disso, explicar o crescimento deste ano com seriedade. A subida de 2026 não resulta apenas desta transformação de longo prazo. Houve também maior flexibilidade na definição das provas de ingresso. Dos 1519 pares instituição/curso que podiam criar alternativas constituídas por uma única prova, 1330, correspondentes a 88%, decidiram fazê-lo. Essa alteração terá contribuído para o aumento das candidaturas e das colocações.

Dizer isto não diminui o resultado. Pelo contrário. Os bons números tornam-se mais credíveis quando não escondemos as condições que os produziram.

Também a adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia teve um papel relevante. A democratização da educação começou com a democracia, com a escola pública e com o alargamento da escolaridade. A integração europeia acelerou esse percurso. Trouxe financiamento, circulação de estudantes, contacto com outros sistemas e uma comparação permanente com países que estavam mais avançados.

A Europa não fez os trabalhos de casa por nós. Sentou-nos, porém, numa sala com colegas mais desenvolvidos e tornou bastante mais difícil continuar a usar o atraso como desculpa. A Comissão Europeia reconhece o impacto da adesão na modernização da economia, das infraestruturas, da educação e das condições de vida; só entre 2021 e 2024, mais de 55 mil estudantes portugueses frequentaram instituições de outros países europeus através do Erasmus+.

E o Algarve?

Quando trazemos o mapa para cima da mesa, os resultados tornam-se ainda mais interessantes.

A Universidade do Algarve disponibilizou 1678 vagas e recebeu 1576 estudantes colocados, atingindo uma taxa de ocupação de 93,9%. Em 2025, tinham sido colocados 1326 estudantes e a ocupação ficara nos 80,1%. Num só ano, a UAlg recebeu mais 250 colocados, uma subida de 18,9%, e recuperou 13,8 pontos percentuais na ocupação.

É um resultado forte.

A taxa da Universidade do Algarve fica acima da média nacional de 88,9% e praticamente alinhada com os 94,1% registados pelo conjunto das instituições do litoral. Entre universidades de dimensão regional, supera a Universidade de Évora, com 90,7%, a Universidade dos Açores, com 84,9%, a Universidade da Madeira, com 83,8%, e a Universidade da Beira Interior, com 82,5%. Fica abaixo dos grandes polos de Lisboa, Porto e Coimbra, onde a ocupação se aproxima dos 99%, mas essa comparação deve ser feita com algum juízo. Uma universidade não muda de dimensão nem de centralidade geográfica só porque a colocamos na mesma tabela.

Na lista oficial contam-se 46 pares instituição/curso da Universidade do Algarve, distribuídos pelas suas faculdades e escolas superiores. Em linguagem menos estatística, são 46 ofertas de ingresso, incluindo cursos ministrados em diferentes escolas, regimes ou localizações. Representam cerca de 3,9% dos 1170 pares com vagas existentes no país. A UAlg concentra 3% das vagas iniciais do Concurso Nacional de Acesso e 3,15% dos estudantes colocados.

Estes números ganham outro significado quando os relacionamos com a dimensão da região.

O Algarve tinha, no final de 2025, cerca de 578 mil residentes, correspondentes a aproximadamente 5,1% da população portuguesa. Em 2024, a região gerou 14,3 mil milhões de euros de produto, 4,9% do PIB nacional, e apresentou um índice de PIB per capita de 108,3, tomando Portugal como base 100. Convém não confundir PIB per capita com dinheiro disponível no bolso de cada família. Mede produção económica, não a distribuição dessa riqueza. Ainda assim, ajuda a perceber a dimensão económica da região.

Temos, portanto, uma região que representa cerca de 5,1% da população e 4,9% da riqueza produzida no país, mas apenas 3% das vagas iniciais do ensino superior público colocadas a concurso nacional.

Os anos de referência não são exatamente os mesmos e o Concurso Nacional de Acesso não inclui o ensino privado, os concursos especiais, os CTeSP nem todas as formas de ingresso. A comparação não permite decretar, por si só, que existe suboferta. Mas levanta uma questão legítima: a dimensão da oferta pública de ensino superior no Algarve acompanha verdadeiramente o peso demográfico, económico e estratégico da região?

Vale a pena aprofundar.

Em 2025 residiam no Algarve 5477 jovens com 18 anos. Relacionando esse valor com as 1678 vagas da Universidade do Algarve, obtemos cerca de 306 vagas por cada mil residentes daquela idade. No conjunto do país, existiam 56 228 vagas para 110 376 jovens de 18 anos, o equivalente a aproximadamente 509 vagas por cada mil.

Este cálculo não é uma taxa de acesso. Os estudantes não ficam presos à região onde vivem, muitos ingressam com mais de 18 anos e as universidades recebem candidatos de todo o país e do estrangeiro. Serve apenas para medir, de forma aproximada, a capacidade pública instalada em relação à geração local que está a atingir a idade habitual de entrada.

Mesmo com essa cautela, a diferença é demasiado grande para ser ignorada.

A comparação com o Alentejo é especialmente elucidativa. A Universidade de Évora e as universidades politécnicas de Beja e Portalegre disponibilizaram, em conjunto, 2577 vagas para uma população regional de 4494 jovens com 18 anos. São cerca de 573 vagas por cada mil jovens daquela idade, quase o dobro do Algarve. Contudo, essas três instituições preencheram apenas cerca de 79,6% das vagas, enquanto a Universidade do Algarve chegou aos 93,9%.

O Alentejo tem mais instituições públicas e uma oferta bastante superior em relação à dimensão da sua geração jovem, mas enfrenta maior dificuldade em preencher as vagas. O Algarve dispõe de uma única instituição pública, oferece proporcionalmente menos lugares e ocupa quase todos os que abre.

Não vou torturar os números até eles confessarem uma causalidade que não conseguem provar.

Ainda assim, há aqui uma associação clara: o número de universidades e de cursos aumenta a capacidade disponível, mas não garante procura. Para atrair estudantes contam também a localização, os transportes, o alojamento, a reputação da instituição, a adequação dos cursos, as oportunidades profissionais e a perceção que cada jovem tem sobre a vida que poderá construir naquele território.

A correlação territorial mais visível está nos próprios dados nacionais. As instituições do litoral preencheram 94,1% das vagas; as do interior, 69,2%. No litoral registaram-se 122 candidaturas em primeira opção por cada 100 vagas. No interior, apenas 49. É uma diferença demasiado ampla para ser explicada por uma única variável.

Não significa que o litoral ensine necessariamente melhor. Significa que os estudantes não escolhem apenas um curso. Escolhem uma cidade, um custo de vida, uma distância de casa, uma expectativa de emprego e até a possibilidade de regressarem ao fim de semana com um saco de roupa que, por qualquer mistério científico ainda não esclarecido, volta sempre lavado.

A riqueza regional também não explica tudo. O Algarve apresenta um PIB per capita superior à média nacional e uma taxa elevada de ocupação da sua universidade. O Alentejo dispõe de mais vagas em relação à sua população jovem, mas preenche uma percentagem menor. Grande Lisboa, com o PIB per capita mais elevado, concentra instituições muito procuradas. Outras regiões com menor produção por habitante também conseguem resultados fortes em determinadas universidades.

Não existe, portanto, uma relação automática segundo a qual mais riqueza produz imediatamente mais estudantes ou mais vagas.

O que existe é uma interação entre capacidade económica, dimensão demográfica, oferta formativa, centralidade urbana e atratividade institucional. E é precisamente por isso que a Universidade do Algarve deve ser vista como uma infraestrutura estratégica da região, tão relevante para o seu futuro como os transportes, a saúde ou a gestão da água, entre outras.

Há ainda outro dado que as médias escondem. A ocupação global de 93,9% não foi igual em todos os cursos. As sete ofertas da Escola Superior de Saúde preencheram as vagas iniciais. Também vários cursos das áreas da educação, comunicação, gestão e ciências sociais ficaram completos. Em sentido diferente, algumas ofertas ligadas à agronomia, às engenharias e às tecnologias deixaram lugares por preencher.

Isto deve ser estudado sem precipitação. O Algarve não precisa simplesmente de mais vagas mas sim de uma oferta capaz de atrair estudantes para áreas relevantes para o seu desenvolvimento, de criar percursos entre o ensino secundário e o superior e de mostrar aos jovens que determinadas formações podem conduzir a uma vida profissional qualificada na própria região.

As instituições têm de explicar melhor os cursos, trabalhar com as escolas, envolver empresas, municípios e serviços públicos, criar estágios de qualidade e mostrar que profissões podem nascer de cada formação. Os jovens não escolhem aquilo que desconhecem. E raramente se apaixonam por uma designação retirada de um catálogo administrativo.

A procura elevada da Universidade do Algarve demonstra que há capacidade de atração. A diferença entre o peso económico e populacional da região e a proporção de vagas disponíveis aconselha, porém, uma reflexão séria sobre o crescimento da oferta, a diversificação dos cursos e as condições de permanência dos estudantes.

Chegados aqui, importa recordar uma frase que uso muitas vezes:

É mais fácil entrar para a universidade do que sair de lá.

Com o curso concluído, esclareça-se. Não quero assustar os novos estudantes com a hipótese de os portões serem fechados depois da matrícula.

A frase tem humor, mas o problema é sério.

Em Portugal, apenas 41% dos estudantes que iniciam uma licenciatura a concluem no tempo previsto. A percentagem sobe para 65% um ano depois e para 74% três anos após o prazo normal. Significa que, mesmo concedendo mais três anos, cerca de um em cada quatro estudantes ainda não concluiu o curso. É verdade que o abandono depois do primeiro ano, 8%, está abaixo da média de 13% da OCDE. É um dado positivo. Não chega, contudo, para esconder a dificuldade de muitos percursos.

A colocação é uma porta aberta. Não é uma garantia de chegada.

A mensagem que diz «ficou colocado» não traz um quarto dobrado em anexo. Não paga transportes. Não explica ao jovem como deve reagir à primeira reprovação, nem lhe diz que a sala 2.14 pode perfeitamente ficar no edifício quatro, piso menos um, atrás de uma porta sem placa. Também não resolve a solidão.

Há estudantes que entram e, alguns meses depois, começam a desaparecer. Primeiro faltam a uma aula. Depois deixam uma avaliação por fazer. Mais tarde, já não abrem a plataforma académica. Quando alguém finalmente percebe, o afastamento pode estar consolidado.

É frequente explicar estes casos com duas palavras muito cómodas: «Falta de motivação.»

A expressão serve para quase tudo e, por isso mesmo, explica muito pouco.

A motivação pode ser destruída por uma renda incomportável, por um curso mal escolhido, pela ausência de apoio, por dificuldades académicas acumuladas ou pela sensação de não pertencer àquele lugar. Pode perder-se quando o estudante trabalha durante o dia e tenta estudar à noite. Pode desaparecer quando uma família, apesar de querer ajudar, desconhece inteiramente o funcionamento do ensino superior.

Há jovens que chegam acompanhados por pais que sabem interpretar regulamentos, procurar bolsas, contestar decisões e aconselhá-los perante uma dificuldade. Outros são os primeiros da família a entrar numa instituição de ensino superior.

Os números mostram quanto o contexto familiar continua a pesar. Em Portugal, 73% dos jovens adultos que têm pelo menos um progenitor com formação superior conseguem também obter uma qualificação superior. Entre aqueles cujos pais não concluíram o ensino secundário, a percentagem desce para 23%. A diferença é de 50 pontos percentuais, superior aos 44 pontos registados, em média, na OCDE.

A porta pode estar aberta. Uns chegam com a chave, conhecem o edifício e sabem a quem perguntar. Outros entram pela primeira vez e tentam perceber tudo sozinhos. As famílias não podem transmitir um mapa que nunca receberam.

É aqui que as instituições de ensino superior têm de assumir uma responsabilidade maior. No ensino básico e secundário existe hoje um esforço significativo para identificar dificuldades, recuperar aprendizagens e evitar o abandono. No ensino superior ainda persiste, em alguns contextos, a ideia de que o estudante entrou, tem 18 anos e deve resolver sozinho tudo o que lhe acontecer. Se tem 18 anos é adulto para algumas decisões

As universidades e os politécnicos dispõem de informação que lhes permite identificar sinais de risco: faltas persistentes, ausência nas avaliações, quebra repentina do rendimento, propinas por regularizar ou abandono das plataformas académicas.

Essa informação deve ser usada com cuidado. Os dados devem servir para bater à porta do estudante, não para lhe fechar a porta.

A OCDE recomenda o reforço das tutorias, da mentoria, da orientação e dos apoios financeiros e não financeiros. Refere também a utilização de métodos analíticos para identificar estudantes que possam precisar de apoio e estruturar intervenções mais precoces.

Um telefonema feito no momento certo pode ser mais útil do que um regulamento de 80 páginas que ninguém leu até ao fim, incluindo provavelmente quem o escreveu.

A intervenção deve ser humana. Perguntar o que aconteceu. Perceber se existe uma dificuldade financeira, académica ou pessoal. Encaminhar. Criar condições para recuperar.

Isto não significa diminuir a exigência. A exigência académica deve permanecer. O apoio existe para permitir que mais estudantes consigam responder-lhe, não para oferecer diplomas por cansaço administrativo.

Também nem toda a interrupção é um fracasso. Há estudantes que percebem que escolheram o curso errado. Outros descobrem uma área diferente, decidem trabalhar durante algum tempo ou precisam de interromper os estudos por razões pessoais. Mudar pode revelar lucidez.

O objetivo não deve ser prender estudantes a um curso para melhorar indicadores. Deve ser garantir que ninguém abandona por desconhecer os apoios, por não conseguir pagar um quarto ou porque ninguém reparou que estava a desaparecer.

Desistir de um estudante por uma razão evitável fica sempre mais caro a Portugal do que recuperá-lo. E a conta não é apenas financeira.

Há o investimento público e familiar já realizado. Há oportunidades profissionais que se estreitam, escolhas que deixam de estar disponíveis, há, por vezes, uma perda de confiança que acompanha a pessoa durante muitos anos.

Um diploma não mede o valor humano, a inteligência ou a competência de ninguém. Há excelentes profissionais sem formação superior e diplomados cuja principal competência parece ser encontrar o certificado na parede.

O ensino superior não garante sucesso. Altera, contudo, as probabilidades.

Em Portugal, a taxa de emprego das pessoas com formação superior ronda os 91%. Em média, os trabalhadores com ensino superior recebem mais 74% do que aqueles que concluíram apenas o ensino secundário. São valores médios, não destinos individuais, mas mostram que as qualificações continuam a ter um efeito relevante nas oportunidades profissionais.

Há pessoas que abandonaram os estudos e construíram vidas extraordinárias. Devem ser reconhecidas. Não devemos, porém, transformar a exceção heroica numa política pública.

A sociedade não pode dizer a um jovem: «Não tiveste condições, mas talvez a tua resiliência resolva.»

A resiliência ajuda. Uma bolsa, um quarto acessível e alguém que telefone a tempo costumam ajudar mais.

Convém também não transformar a democratização do ensino superior numa nova obrigação social, como se todos os jovens tivessem de seguir o mesmo caminho. O país precisa de ensino superior forte e de ensino profissional respeitado. Precisa de investigação e de boa execução técnica. Precisa de pessoas altamente qualificadas em diferentes percursos.

A liberdade está em poder escolher. Não em ter o destino decidido pelo rendimento da família ou pelo código postal.

Neste ano,  parte dos alunos colocados, entraram no subsistema politécnico. O politécnico não pode continuar a ser tratado como uma sala de espera para quem não conseguiu entrar numa universidade. Tem uma missão própria e uma ligação decisiva ao território, às profissões e à economia.

Há ainda um problema nas transições a partir do ensino profissional. Entre os alunos dos cursos científico-humanísticos, 76% prossegue estudos superiores. Entre os diplomados do ensino profissional, apenas 22% o faz. Parte desta diferença decorre da natureza e dos objetivos dos cursos. Outra parte resulta de obstáculos no acesso, da preparação académica e das expectativas associadas ao contexto familiar.

É necessário criar mais pontes, melhorar os percursos dos cursos técnicos superiores profissionais e permitir que quem começa por uma via profissional possa prosseguir estudos mais tarde. Uma escolha feita aos 15 anos não deve funcionar como uma sentença académica para o resto da vida.

Também a geografia continua a selecionar.

A nota permite entrar mas a renda pode impedir a matrícula. Uma vaga pode ser pública mas o quarto onde o estudante vai dormir não é.

Por isso, falar de acesso ao ensino superior sem falar de alojamento, transportes e custo de vida é discutir apenas metade do problema. Um estudante pode estar formalmente colocado e materialmente impedido de frequentar o curso.

No Algarve, esta questão ganha uma dimensão particular. Uma universidade com 93,9% das vagas ocupadas precisa de garantir que os estudantes encontram alojamento, transportes, serviços de apoio e condições para permanecer. A taxa de ocupação é uma boa notícia. Pode também transformar-se numa pressão adicional sobre recursos que já sejam escassos.

Viver e trabalhar fora de Portugal tornou-me mais consciente do caminho que o país percorreu. Conheci realidades em que a escola não é ainda uma presença segura na vida de todas as crianças e jovens, onde muitas famílias não tiveram qualquer contacto com o ensino superior e onde estudar nem sempre é visto como uma possibilidade concreta de transformação da vida.

Essa experiência não me leva a achar que Portugal resolveu tudo. Leva-me a reconhecer melhor aquilo que já conseguiu e a perceber o preço social de não investir no conhecimento.

Um jovem que só tenha visto casas quadradas pode imaginar uma casa redonda. Pode, mas terá, contudo, de descobrir sozinho uma possibilidade que a educação lhe poderia ter mostrado mais cedo.

A escola não diz a cada pessoa qual a casa que deve construir. Mostra-lhe que existem mais formas, outros materiais e maneiras diferentes de organizar o espaço. O conhecimento alarga aquilo que conseguimos imaginar.

É esse o seu papel social mais profundo.

Por isso, hoje devemos celebrar.

Estão de parabéns os estudantes. Os que entraram na primeira opção e os que vão descobrir que a terceira pode afinal ser o lugar certo. Estão de parabéns as famílias, os professores e todos os que, ao longo de décadas, contribuíram para tornar o ensino superior uma possibilidade normal para milhares de jovens.

No Algarve, há ainda uma razão acrescida para satisfação. A Universidade do Algarve recuperou procura, aproximou-se da ocupação total e mostrou que tem capacidade para atrair estudantes. O resultado deve ser celebrado. Deve também servir para discutir, com dados e sem provincianismos, se a oferta atual é suficiente para uma região com o peso populacional e económico que o Algarve já possui.

Os resultados das colocações não podem ser o fim da política pública. Devem ser o princípio de uma nova responsabilidade.

As instituições publicam as notas dos últimos colocados. Devem conhecer com igual rigor quantos estudantes faltam, quantos mudam de curso, quantos interrompem e quantos concluem. Sobretudo, devem saber porquê.

Uma instituição não se mede apenas pela dificuldade de entrar. Mede-se pela qualidade do ensino e pela capacidade de ajudar cada estudante a construir um percurso exigente e possível.

Hoje, em muitas casas, a pergunta foi: «Onde entraste?»

Daqui a alguns meses, talvez devamos aprender a fazer outras:

  • «Estás bem aí?»
  • «O curso corresponde ao que esperavas?»
  • «Precisas de ajuda?»

São perguntas menos festivas, mas podem ser muito mais importantes.

É, de facto, mais fácil entrar para a universidade do que sair de lá.

Portugal fez um caminho notável na primeira parte. Tem agora de tornar menos difícil a segunda: sair com uma qualificação concluída ou escolher conscientemente outro percurso, sem que a pobreza, o isolamento ou a falta de orientação decidam em lugar do estudante.

Hoje temos muitas razões para celebrar.

No Algarve, temos 1576 histórias que agora começam.

E exatamente o mesmo número de razões para prestar atenção ao que acontece a seguir.

 

Alexandre Lima

Alexandre Lima foi presidente da Escola Portuguesa de Luanda – Centro de Ensino e Língua Portuguesa. Foi delegado regional de Educação no Algarve.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

 

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