CULTURA: Marimba mexicana faz soar o Forte de Milfontes sobre o Mira
Uma marimba mexicana tocada a oito mãos, dentro de uma fortaleza com mais de quatro séculos e tendo a foz do rio Mira como cenário. É esta a proposta do Festival Terras sem Sombra para 12 de setembro, às 21h30, em Vila Nova de Milfontes, num concerto que terá como protagonista o Mario Nandayapa Quartet, um dos agrupamentos mexicanos de referência dedicados a este instrumento.
«O Mundo, Essa Nossa Casa: Poemas Sonoros» tem ainda a particularidade de acontecer num local normalmente inacessível ao público. O Forte de São Clemente, propriedade privada e um dos edifícios mais emblemáticos de Vila Nova de Milfontes, abrirá excecionalmente as portas para receber o espetáculo, transformando-se, por uma noite, num ponto de encontro entre dois patrimónios separados pelo Atlântico.
E a grande estrela será mesmo a marimba, instrumento formado por uma extensa sucessão de lâminas de madeira, percutidas por baquetas e associadas a ressonadores acústicos.
As suas dimensões permitem que seja tocada simultaneamente por vários músicos e, ao reunir funções melódicas, harmónicas e rítmicas, pode assumir quase a dimensão de uma pequena orquestra.
Em Chiapas, no Sul do México, tornou-se uma das expressões mais reconhecidas da identidade cultural da região.
No concerto de Vila Nova de Milfontes, será tocada a oito mãos, num programa que parte precisamente da tradição mexicana, com compositores como Rafael de Paz González e Zeferino Nandayapa, ligados à afirmação da marimba e à cultura musical de Chiapas.
Mas a viagem não ficará pelo México: o repertório atravessa o Atlântico para chegar a Bach, Franz von Suppé e Manuel de Falla, antes de regressar à música mexicana através de Silvestre Revueltas, uma das figuras centrais da criação musical daquele país no século XX.
O Mario Nandayapa Quartet foi fundado em 2008 pelo músico mexicano Mario Nandayapa e tem uma forte dimensão familiar. O fundador toca ao lado dos filhos Mario, Tania e Daniel, prolongando uma tradição de construtores e intérpretes de marimba com mais de um século.
O grupo cruza a música tradicional mexicana com jazz, criação contemporânea e outras linguagens.
O percurso do quarteto há muito ultrapassou as fronteiras mexicanas. O ensemble já atuou em países como Japão, Estados Unidos, Coreia do Sul, China, Brasil, Belize e Porto Rico, passando por palcos e eventos como o Tōdai-ji Kinsho Hall, em Nara, o Copley Symphony Hall, em San Diego, o Hi Seoul Festival e o Festival Internacional Cervantino.
Uma fortaleza que raramente abre as portas
A escolha do Forte de São Clemente acrescenta uma dimensão patrimonial pouco habitual ao concerto.
A fortificação nasceu da necessidade de defender a entrada do Mira e a própria Vila Nova de Milfontes, depois dos ataques que atingiram esta zona do litoral no final do século XVI. A construção começou em 1599 e ficou concluída em 1602, numa posição estratégica sobre o estuário.
Depois de perder a função militar, o edifício passou para mãos privadas no início do século XX e acabou por ser adaptado a residência. Foi classificado como Imóvel de Interesse Público em 1978, continua a ser propriedade privada e não faz parte dos circuitos habituais de visita.
Por isso, sublinha a organização, a abertura para o espetáculo constitui «uma oportunidade pouco comum de conhecer o interior de um dos edifícios históricos mais emblemáticos da localidade».
A passagem do Terras sem Sombra por Vila Nova de Milfontes conta com a parceria da Junta de Freguesia, dos proprietários do Forte de São Clemente, Leigh e Richard Schell, da Secretaria de Relações Exteriores do México, da Embaixada do México em Portugal e do programa Ibermúsicas.
O festival tem ainda o apoio continuado da Direção-Geral das Artes, BPI-Fundação «la Caixa» e CCDR Alentejo e beneficia do Alto Patrocínio da Presidência da República.
Depois desta noite mexicana junto ao Mira, o Festival Terras sem Sombra segue viagem pelo Alentejo. A próxima paragem será Monforte, a 26 e 27 de setembro, onde a Igreja do Espírito Santo receberá a Accademia del Piacere para «Rediscovering Spain: Glosas, Fantasias e Diferenças (Viagem às Raízes do Flamenco)».
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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