O complexo industrial de Sines na era da IA – as promessas de investimento para o ecossistema de Sines (I)
OPINIÃO
Por António Covas
Ao longo do século XX, a geografia económica e a teoria económica foram-nos contemplando com alguns conceitos que, de algum modo, marcaram o rumo e o ritmo da política económica nas suas dimensões produtiva, regional e territorial. Refiro-me em particular aos conceitos de distrito industrial, complexo industrial, cluster industrial, sistema produtivo local e arranjo produtivo local, meios inovadores, fileiras e cadeias produtivas, polos de crescimento e, mais recentemente, de ecossistema inovador.
No século XXI as noções de rede, plataforma, sistema, hub criativo, incubação e aceleração, territórios inteligentes e ecossistema de inovação tomam a dianteira enquanto a governação pública vertical de comando e controlo (o governing) dá, gradualmente, lugar à governança pública horizontal de rede e colaboração (a governance). Não vou fazer aqui a história da paternidade desta constelação concetual da geografia económica e da economia regional, mas ela tem muito a ver com o histórico de meio século do complexo de Sines e, sobretudo, com o futuro próximo do ecossistema de Sines na era da IA.
Estamos no verão de 2026. Com os elementos informativos de que dispomos “queremos acreditar que Sines está a consolidar-se como um dos principais polos industriais, energéticos, logísticos e digitais da Europa, com capacidade para atrair investimento transformador ao longo da próxima década”, diz a AICEP Global Parques gestora da Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS).
Vamos fazer uma breve incursão pelo Complexo de Sines às portas da IA através de três pequenas reflexões: as promessas de investimento anunciadas para Sines (1), a economia dos impactos e externalidades (2) e a governança pública de um ecossistema tão exigente como é o da IA (3).
Há muitos anos que Sines não é apenas um porto de águas profundas para o desembarque de petróleo para a refinaria e de carvão para a central termoelétrica da EDP, agora desmantelada. Após a abertura do terminal XXI, da empresa PSA, no início deste século, Sines tornou-se um verdadeiro complexo industrial e isto apesar do concurso para construção de um novo terminal, com o nome Vasco da Gama, ter ficado recentemente deserto. As promessas de investimento para os próximos anos são, deveras, surpreendentes.
Entre obra já no terreno e anúncios promissores, o investimento em curso em Sines pode alcançar os 10% do PIB, algo como 30 mil milhões de euros, de acordo com a AICEP Global Parques. Vejamos essa lista de obras e anúncios promissores que convergem para uma verdadeira revolução da Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS):
– As cinco unidades do centro de dados da Start Campus, beneficiários diretos dos cabos submarinos e fibra ótica que atravessam o Atlântico, posicionam a região de Sines no radar internacional dos grandes operadores de infraestruturas digitais, no preciso momento em que cresce a nível mundial a procura por áreas com capacidade para acolher data centres de grande escala e suportados por disponibilidade energética, conectividade internacional, integração logística e condições de expansão a longo prazo;
– No lado leste da ZILS vamos encontrar a estação de ancoragem do cabo EllaLink, cerca de 6.000 quilómetros de fibra ótica submarina entre o Brasil e Portugal, em operação desde 2021 e que abriu a porta à infraestrutura digital que é hoje o data center da Start Campus; importa acrescentar que a Microsoft anunciou a construção do cabo submarino NUVEM de ligação à costa norte-americana e em parceria com as tecnológicas NSCALE e NVÍDIA preparam para um grande investimento de 10 mil milhões de dólares em infraestrutura tecnológicas e IA; nesse sentido, a britânica NSCALE anunciou um investimento de 695 milhões de euros, com instalação de mais de 66 mil processadores GPUs NVIDIA Rubin de computação avançada usados nos modelos avançados de IA e sistemas tecnológicos de nova geração;
– A sul da ZILS, no local da antiga central termoelétrica da EDP, que durante cerca de quatro décadas marcou esta paisagem, aguarda-se um investimento em hidrogénio verde (HV) que será alimentado por energias renováveis: “existem oito projetos em instalação ou fase final de licenciamento que incluem autoconsumo e descarbonização da indústria instalada e que, no conjunto, representam um investimento superior a 3 mil milhões de euros, com uma estimativa de criação de cerca de 1.000 postos de trabalho, entre postos diretos e emprego temporário associado à fase de construção, reforçando o papel estratégico do território na transição energética e na descarbonização da economia”, explica a AICEP;
– No que diz respeito à geração de novas energias contam-se o H2Park, empreendimento de 1,2 mil milhões de euros que poderá chegar aos 900 MegaWatts e o HVO, mais 269 milhões de euros, ambos projetos em curso da Galp; no HVO será produzido combustível com menores emissões para a aviação, numa parceria com os japoneses da Mitsui, com o uso de resíduos da refinaria e hidrogénio verde produzido no local; estes investimentos demonstram que os grandes ativos industriais instalados em Sines estão a adaptar-se rapidamente às exigências da transição energética;
– Na extremidade leste da ZILS, onde se encontra o edifício da AICEP Global Parques, começou já a movimentação de terras para a fábrica de baterias chinesa CALB, (China Aviation Lithium Battery), um empreendimento onde trabalharão cerca de 1.800 pessoas, num investimento na ordem dos 2 mil milhões de euros que se espera esteja operacional em 2028 e que será uma das empresas com potencial para fornecer o futuro elétrico da Volkswagen a produzir na Autoeuropa;
– Na ZILS encontram-se, ainda, para lá da refinaria da Galp e da Repsol Polímeros, ambas em expansão, instalações petroquímicas e um parque fotovoltaico da Repsol, assim como fábricas de glicerina e cimento, as empresas Air Liquide, a Indorama, a Medway (empresa que ganhou a concessão da CP Carga, responsável pelas dezenas de comboios que chegam a sair diariamente do porto de Sines), a Euroresinas, a Metalsines e a Ren Gasodutos, entre outras empresas de menor dimensão;
– Uma referência especial ao projeto Alba, da Repsol – um empreendimento de 650 milhões de euros para triplicar a produção de plásticos – a que se poderá juntar uma fábrica promovida pelos suecos da Stegra de produção de aço “verde” com hidrogénio proveniente de renováveis, a modernização da refinaria da Galp, o hidrogénio e amoníaco verdes para abastecimento marítimo e industrial da Madoqua Power 2X, um investimento de de mil milhões de euros e 115 postos de trabalho criados, ainda segundo a AICEP Global Parques; outro dos projetos PIN em Sines é o da Catalyxx, um investimento de 100 milhões de euros para butanol verde; outros investimentos estão previstos nas áreas dos materiais, química e agroalimentar, por exemplo, os projetos Everbio, Liftone, Savannah Lithium, Topsoe Battery Materials, United Petfood;
– A mais recente novidade deste rol de projetos surgiu recentemente com a referência à giga fábrica de inteligência artificial que a União Europeia poderá conceder a um consórcio ibérico, sendo que Portugal poderá receber cerca de 6 mil milhões de euros, com Sines a dividir parte do bolo com Lisboa e Abrantes, que são redundâncias à cidade alentejana; embora Portugal beneficie do investimento, parte relevante da operação e do controlo tecnológico permanece nas mãos das grandes tecnológicas, ainda assim o projeto representa um marco sem precedentes para o país, numa altura em que a procura por capacidade computacional dispara devido ao crescimento acelerado da inteligência artificial generativa e dos sistemas avançados;
Neste alinhamento de grandes investimentos privados para o ecossistema de Sines falta ainda saber como, no período do próximo quadro financeiro plurianual 2028-34, estes investimentos serão articulados e coordenados com o programa de investimentos públicos para a região, não apenas com as infraestruturas críticas, mas, também, com a mitigação e adaptação dos principais impactos, no âmbito do PT 2028-34 e do PTRR 2034.
António Covas
António Covas é Professor Catedrático Aposentado da Universidade do Algarve.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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