Quem quer ser professor daqui a dez anos?
OPINIÃO
Por Alexandre Lima
Há alguns anos, numa cerimónia de entrega de prémios de mérito a alunos do ensino secundário, falava-se, como quase sempre acontece nestas ocasiões, do futuro. À nossa frente estavam alguns dos melhores alunos da escola, acompanhados pelas famílias, pelos professores e por todos aqueles que, de uma forma ou de outra, tinham contribuído para o percurso que ali era reconhecido.
A determinada altura, numa conversa sobre escolhas profissionais, perguntei a um dos alunos por que razão não considerava a carreira docente.
A resposta ficou-me na memória.
O jovem não hesitou, não procurou uma resposta diplomática e não se refugiou no habitual “ainda não sei”. Com uma educação irrepreensível, uma segurança rara para a idade e uma organização de pensamento que ajudava, aliás, a compreender por que motivo estava entre os premiados, apresentou-me dez razões pelas quais não queria ser professor.
Foram mesmo dez. Não três ou quatro argumentos improvisados para encerrar a conversa, mas dez razões claramente estruturadas, apresentadas com convicção e sem qualquer dramatismo. A certa altura, talvez por volta da sexta, comecei a suspeitar de que tinha feito uma pergunta bastante mais difícil do que imaginava.
Não consigo hoje reconstruir, com rigor, toda a lista. Também não é isso que mais importa. O que permaneceu foi a evidência de que aquele jovem já tinha pensado seriamente no assunto e tinha chegado a uma conclusão.
Era precisamente o tipo de aluno que qualquer sistema educativo gostaria de ver regressar à escola alguns anos depois, agora como professor: inteligente, organizado, capaz de argumentar, seguro nas suas escolhas e academicamente competente. A escola acabara de lhe reconhecer mérito e, poucos minutos depois, ele explicava à própria escola por que razão não tencionava construir nela a sua vida profissional.
Tenho pensado várias vezes naquela conversa, mas hoje ela ganha outro significado, porque Portugal enfrenta uma questão que dificilmente poderá continuar a ser tratada apenas como um problema anual de horários por preencher.
Segundo as projeções oficiais, o sistema educativo português precisará de cerca de 38 mil novos professores até 2034/35. Falamos, em termos médios, de aproximadamente 3.800 novos docentes por ano, num contexto em que a principal pressão não decorre de um aumento do número de alunos, mas do envelhecimento da profissão e da dimensão das saídas previstas nos próximos anos.
A escala do desafio é suficientemente grande para obrigar a mudar a pergunta. Durante demasiado tempo, discutimos a falta de professores como um problema de recrutamento. Procuramos soluções quando há escolas sem docentes, quando determinado horário fica sucessivamente por preencher ou quando setembro chega e algumas turmas continuam sem professor.
É natural que assim seja, porque esses problemas têm de ser resolvidos. Mas o recrutamento trata o sintoma quando ele já se tornou visível. O problema estrutural começa muito antes.
A questão essencial é saber quantos jovens, entre aqueles que hoje têm capacidade, formação e liberdade para escolher diferentes percursos profissionais, olharão para a docência como uma opção suficientemente atrativa para nela investirem uma parte importante da sua vida.
E esta pergunta não se aplica apenas aos futuros professores do 1.º ciclo.
Quando falamos da substituição geracional na profissão docente, não estamos apenas a falar de estudantes que entram em cursos de Educação Básica. O futuro professor de Matemática poderá estar hoje a escolher entre Matemática, Engenharia, Ciência de Dados ou outra formação próxima. O futuro professor de Física e Química poderá estar a entrar numa faculdade de Ciências. O de Informática terá diante de si um mercado de trabalho que disputa intensamente esse conhecimento. O de Português, História, Biologia ou Geografia também encontrará várias alternativas antes de decidir se quer entrar numa escola.
É precisamente aí que o problema se torna mais complexo. As projeções apontam para necessidades muito significativas em várias áreas disciplinares, incluindo milhares de novos docentes de Matemática, Física e Química, Biologia e Geologia, História e outras disciplinas. Ao mesmo tempo, muitas destas áreas já apresentam uma estrutura etária que torna evidente a proximidade de uma forte renovação geracional.
Não basta, por isso, aumentar o número de estudantes interessados genericamente em Educação. Precisamos primeiro de assegurar que continuam a existir jovens interessados nas áreas científicas e disciplinares de que a escola necessita. Depois, entre esses jovens, será necessário que uma parte escolha o ensino, faça a formação profissionalizante exigida, entre na profissão e, não menos importante, queira permanecer nela.
Esse percurso contém demasiados pontos de perda para ser tratado apenas no momento do concurso.
E há ainda uma dificuldade adicional: estamos a pedir à escola que dispute talento numa sociedade em que os jovens mais qualificados têm hoje um conjunto muito mais amplo de possibilidades profissionais, tanto em Portugal como no estrangeiro.
É neste contexto que alguns sinais recentes merecem ser lidos com atenção. Houve uma recuperação da procura por cursos de Educação Básica e isso deve ser reconhecido como uma boa notícia. Seria errado construir uma narrativa segundo a qual os jovens abandonaram totalmente a ideia de ensinar.
Mas seria igualmente precipitado concluir que o problema está em vias de resolução.
A procura não é homogénea no território, existem áreas disciplinares com dificuldades muito diferentes e o número de estudantes que ingressa numa determinada licenciatura está longe de corresponder diretamente ao número de professores que estará disponível alguns anos depois.
Mais importante ainda, a decisão de ser professor não depende apenas da existência de vagas de formação. Depende também da forma como a profissão é percecionada.
Um jovem que termina o ensino secundário e tem várias opções legítimas à sua frente compara salários, estabilidade, progressão, mobilidade, possibilidades de carreira, localização geográfica e qualidade de vida. Faz aquilo que qualquer pessoa sensata faria perante uma decisão que pode condicionar várias décadas.
O salário conta, naturalmente, e seria pouco sério fingir que não conta, mas não explica tudo.
Conta também a previsibilidade da carreira, a autonomia profissional, a burocracia associada à função, as condições de trabalho e a possibilidade de um jovem imaginar onde poderá estar a viver daqui a cinco ou dez anos. Conta igualmente aquilo que acontece dentro da escola: a autoridade que é reconhecida ao professor, o comportamento dos alunos e a qualidade da relação que se consegue construir com as famílias.
Já escrevi sobre esta questão no Sul Informação, em “A escola por dentro: o que quase ninguém quer ver”, quando procurei chamar a atenção para o desgaste provocado pela indisciplina, para a fragilização da autoridade educativa e para uma relação entre escola e família que, demasiadas vezes, deixou de assentar numa verdadeira aliança em torno do aluno. Uma escola não pode ser permanentemente chamada a resolver cada vez mais problemas e, ao mesmo tempo, retirar autoridade a quem tem de os enfrentar.
Esta dimensão também pesa quando um jovem decide se quer ser professor. Aliás, talvez pese mais do que algumas tabelas salariais conseguem mostrar. Os futuros professores conhecem a profissão muito antes de entrarem nela, porque passam doze ou treze anos a observá-la a poucos metros de distância.
Há ainda uma dimensão menos fácil de quantificar, mas provavelmente muito mais importante do que algumas políticas públicas admitem: o prestígio social da profissão.
Os dados internacionais mostram que apenas uma pequena proporção dos professores portugueses considera que a profissão docente é efetivamente valorizada pela sociedade. Esse dado merece atenção porque existe uma diferença entre dizer que os professores são importantes e criar condições para que os jovens percebam que a sociedade reconhece essa importância.
Dizemos frequentemente que os professores transformam vidas, que não existe boa escola sem bons docentes e que a educação determina o futuro de um país. Tudo isto é verdade.
Mas os jovens não avaliam uma profissão apenas pelos discursos feitos em cerimónias. Passam anos dentro de escolas, acompanham o quotidiano dos professores, percebem as dificuldades, ouvem as conversas, conhecem o cansaço, identificam as frustrações e percebem, provavelmente melhor do que pensamos, a diferença entre a importância simbólica que atribuímos à profissão e a forma concreta como ela é tratada.
Talvez por isso a resposta daquele aluno me tenha impressionado tanto. Eu tinha-lhe feito uma pergunta; ele, sem o saber, tinha feito uma espécie de estudo de mercado e trazia dez conclusões.
O problema não é exclusivamente português. Na União Europeia, uma parte muito significativa dos professores tem já mais de 50 anos e a percentagem de docentes com menos de 30 continua reduzida. Em vários países da OCDE existe também preocupação com a intenção de abandono entre professores mais jovens.
Em Inglaterra, o recrutamento para a formação inicial de professores recuperou recentemente, mas continua abaixo dos objetivos definidos em várias áreas. Nos Estados Unidos, a dimensão da escassez docente continua a traduzir-se em centenas de milhares de vagas ou lugares ocupados por profissionais que ainda não possuem a qualificação completa exigida.
Os sistemas são diferentes, os salários também e os modelos de carreira pouco têm de comparável entre si. Ainda assim, a dificuldade em atrair e reter professores aparece repetidamente.
Talvez estejamos perante uma profissão que continua a oferecer algo profundamente valioso, mas que já não consegue apresentar essa proposta de forma suficientemente competitiva perante as alternativas disponíveis.
Há dados que sustentam esta ideia sem necessidade de dramatismo. A maioria dos professores continua a declarar satisfação com o trabalho e muitos afirmam que voltariam a escolher a profissão. Ou seja, ensinar continua a proporcionar um sentido profissional que poucas atividades conseguem oferecer.
Quem já esteve numa escola sabe o que isso significa.
Existe uma recompensa difícil de traduzir em tabelas quando um aluno compreende finalmente algo que parecia impossível, quando alguém ganha confiança porque encontrou um professor que acreditou nele ou quando, anos depois, um antigo aluno regressa apenas para dizer que determinada aula, palavra ou exigência fez diferença.
Esse valor continua lá. Talvez o problema seja termos presumido durante demasiado tempo que ele seria suficiente, mas não será.
Se queremos professores de Matemática, Português, Física e Química, Informática, História, Biologia, Geografia ou do 1.º ciclo dentro de dez anos, teremos de competir por eles agora.
O professor de que precisaremos em 2035 poderá estar hoje no 10.º ou no 11.º ano. Pode ser um excelente aluno de Matemática, alguém apaixonado por Literatura, um jovem com enorme capacidade de comunicação ou uma pessoa com talento particular para explicar aquilo que os outros ainda não compreenderam.
Pode ser, precisamente, um dos alunos a quem entregamos um prémio de mérito e dizemos, com orgulho, que tem todas as possibilidades à sua frente.
Medicina será uma dessas possibilidades. Engenharia também. Economia, Tecnologia, Gestão, Ciência, Direito e muitas outras estarão igualmente disponíveis. Algumas poderão oferecer salários mais elevados, outras uma progressão mais rápida, outras ainda uma mobilidade internacional e uma flexibilidade profissional que há algumas décadas seriam difíceis de imaginar.
É esse o verdadeiro mercado em que a escola está hoje a competir.
Por isso, talvez devamos deixar de perguntar apenas quantos professores conseguimos contratar e começar a perguntar quantos jovens com talento para ensinar conseguimos convencer a escolher a profissão.
A diferença entre as duas perguntas é enorme. Recrutar é procurar alguém quando já precisamos dele; atrair é criar condições para que essa pessoa queira vir antes de termos de a procurar.
É nesse terreno que provavelmente se decidirá uma parte importante do futuro da escola portuguesa.
Há alguns anos, naquele auditório, perguntei a um excelente aluno por que razão não queria ser professor. Ele apresentou-me dez razões e nunca tentei convencê-lo de que estava errado, porque algumas delas eram difíceis de contrariar.
Hoje penso que esse talvez nem seja o caminho.
Se daqui a dez anos precisaremos de milhares de jovens como ele dentro das nossas escolas, não devemos gastar demasiado tempo a explicar-lhes por que razão as suas dúvidas são injustificadas. Temos uma responsabilidade mais exigente: conseguir dar-lhes razões suficientemente fortes para que, quando chegar o momento de escolher, possam olhar para a docência não como uma opção de recurso, nem como uma vocação que exige demasiados sacrifícios, mas como uma profissão onde vale a pena investir talento, ambição e uma vida profissional inteira.
Aquele aluno tinha dez razões para dizer que não. Está na altura de o país conseguir oferecer-lhe onze para dizer que sim.
Alexandre Lima
Alexandre Lima foi presidente da Escola Portuguesa de Luanda – Centro de Ensino e Língua Portuguesa. Foi delegado regional de Educação no Algarve.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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