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Quem controla as fronteiras do cérebro?

OPINIÃO

Quem controla as fronteiras do cérebro?

Por Ricardo Leitão

Quando pensamos em fronteiras, pensamos geralmente em linhas que separam territórios. Num mundo em que fronteiras, rotas e pontos estratégicos de passagem voltaram a ocupar diariamente as notícias, esquecemo-nos, por vezes, de que também o nosso organismo depende de fronteiras rigorosamente controladas.

Algumas das fronteiras mais importantes do mundo são também pontos de passagem. O Canal do Panamá é um exemplo: atravessá-lo implica um sistema de eclusas que controla cuidadosamente a passagem entre dois oceanos. O Estreito de Ormuz lembra-nos outra coisa: um espaço relativamente pequeno pode ter uma importância desproporcionada quando por ele passam fluxos essenciais.

Também o nosso cérebro depende de uma fronteira extremamente sofisticada. Chama-se barreira hematoencefálica e separa, de forma muito seletiva, o sangue do cérebro. O nome pode sugerir um muro, mas essa imagem é enganadora: o cérebro precisa constantemente de receber oxigénio, nutrientes e sinais provenientes do organismo e, ao mesmo tempo, de ser protegido de muitas das substâncias que circulam no sangue.

A existência desta fronteira começou a tornar-se evidente há mais de um século, quando certos corantes injetados no sangue coravam praticamente todo o organismo, deixando, porém, o cérebro intacto. A barreira hematoencefálica tem precisamente essa função: controlar o que entra, o que sai e em que condições. Uma boa fronteira não é aquela que não deixa passar ninguém, mas aquela que consegue distinguir aquilo que deve atravessá-la.

Esse controlo pode, no entanto, ser perturbado, como acontece num traumatismo crânioencefálico. E o traumatismo não termina no momento do impacto: a lesão mecânica inicial pode desencadear, nas horas e dias seguintes, processos secundários que incluem inflamação, stress oxidativo e alterações dos vasos sanguíneos cerebrais. Entre estas encontra-se a perda de integridade e da capacidade de controlo da barreira hematoencefálica. Por outras palavras, a fronteira começa a funcionar de forma diferente.

Esta alteração pode permitir uma passagem anormal de moléculas e células entre o sangue e o cérebro, contribuindo para aumentar a resposta inflamatória e a lesão cerebral. Compreender quando e como isso acontece, e como podemos preservar ou restaurar a barreira é, por isso, uma importante área de investigação no traumatismo crânioencefálico.

Sul Informação

Mas existe aqui um paradoxo particularmente interessante: a mesma barreira que queremos proteger quando existe um dano cerebral é também um dos principais obstáculos quando queremos tratar o cérebro.

Muitos compostos com potencial terapêutico têm dificuldade em atingir o cérebro precisamente porque a barreira hematoencefálica continua a fazer aquilo para o qual foi concebida: restringir a passagem. Quem procura desenvolver novos tratamentos para doenças ou lesões do sistema nervoso enfrenta, assim, dois desafios aparentemente contraditórios: proteger esta fronteira quando ela está comprometida e encontrar formas seguras de a atravessar quando queremos fazer chegar um tratamento ao cérebro.

Talvez seja uma das ironias mais interessantes da investigação sobre o cérebro: uma das estruturas que mais o protege é também uma das que mais dificulta o seu tratamento. Quanto mais eficaz é uma fronteira a controlar o que entra, mais difícil pode ser fazer passar aquilo de que precisamos numa emergência.

É precisamente este paradoxo que me interessa enquanto investigador e que está no centro do trabalho que desenvolvo no projeto therapY, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e por fundos europeus. Em colaboração com uma equipa multidisciplinar da Universidade de Coimbra e da ULS Coimbra, procuramos compreender melhor de que forma o traumatismo altera esta fronteira e explorar novas estratégias terapêuticas capazes de proteger o cérebro ou de ultrapassar, de forma controlada, algumas das limitações impostas pela barreira hematoencefálica.

No fim, o desafio não está simplesmente em abrir ou fechar esta fronteira, mas em compreender quem controla a passagem, como esse controlo se perde após uma lesão e de que forma podemos intervir sem destruir o equilíbrio que pretendemos proteger. Tal como uma fronteira real, a solução não passa por eliminar o controlo, mas por distinguir aquilo que deve ser bloqueado daquilo cuja passagem deve ser facilitada.

Porque, para tratar o cérebro, talvez tenhamos primeiro de compreender as suas fronteiras, saber quando as devemos proteger e aprender a atravessá-las sem comprometer aquilo que protegem.

Nota: Artigo publicado no âmbito do projeto “Medicina e Ciência no Sul”, um novo espaço mensal dedicado à  medicina e investigação biomédica do Sul Informação, em parceria com a Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas (FMCB), da Universidade do Algarve.

Ricardo Leitão

Ricardo Leitão é investigador no ABC CoLAB, e membro integrado do ABC-Ri/FMCB-UAlg.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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