O complexo industrial de Sines na era da IA: a economia dos impactos do complexo de Sines (II)
OPINIÃO
Por António Covas
As novas cadeias de valor da economia tecno-digital – da descarbonização à eletrificação (1), da digitalização à automação (2), da IA aos agentes inteligentes (3) – exigem uma alteração substancial do conjunto de infraestruturas críticas e logística de um país ou região, o que tem impactos diretos sobre a produtividade e competitividade das cadeias de valor e empresas desse país ou região, assim como efeitos externos de espetro muito largo sobre todo o território envolvente.
No caso do ecossistema de Sines, estamos a falar de uma alteração substancial na estrutura de custos de contexto, de operação e de oportunidade, mas, também, de uma verdadeira transformação sistémica do território sub-regional, regional e nacional, com ligações potenciais transfronteiriças e transnacionais. Desta nova economia de impactos podemos destacar o seguinte:
– Não sabemos, ainda, como articular e coordenar efetivamente os impactos, diretos e indiretos, de cerca de 30 projetos de investimento nacionais e internacionais que têm cursos de compromisso, aprovação e execução muito desiguais e assimétricos; isto significa que, no período do próximo período de programação plurianual 2028-34, esta economia de impactos e externalidades pode ser verdadeiramente caótica com prejuízos evidentes para o município de Sines e toda a zona envolvente;
– Como refere o Presidente da autarquia Álvaro Beijinha, que chegou ao município em outubro de 2025, após 12 anos a liderar Santiago do Cacém, “nota-se um efeito perverso na comunidade local, naqueles que já cá vivem, porque no preço da habitação estamos a falar de valores das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, isto é, um T2 por 2.000 euros, e o mesmo impacto afeta a restauração e os supermercados; o mesmo se diga a propósito da geografia tributária, uma vez que as empresas pagam a derrama noutros locais, mas é aqui em Sines que deixam a pegada carbónica e criam constrangimentos como os vividos na habitação e na educação, setor em que a única escola secundária do concelho está no limite, já para não falar na pressão dos megaempreendimentos industriais sobre as acessibilidades, basta lembrar a dificuldade das autarquias como Sines e Santiago do Cacém em cuidar de estradas municipais onde passam camiões com dezenas de toneladas, em parte provenientes da central de betonagem próxima do local onde ficará a fábrica da CALB;
– No setor da educação e dada a prevalência de três grandes áreas – descarbonização e eletrificação, infraestruturas críticas e automação industrial, tecnologia de IA e agentes inteligentes – o diretor da Start Campus aponta uma parceria com a Microsoft, Universidade Nova e Instituto de Emprego e Formação Profissional e, mais especificamente, com o Politécnico de Setúbal para a criação de um curso específico em Sines, uma licenciatura em engenharia de sistemas de infraestrutura crítica, com um inegável benefício direto para a região; ainda no ensino, Sines e Santiago do Cacém irão, em breve, acolher também o nível superior com a chegada de um polo do Instituto Politécnico de Setúbal, que ficará, precisamente, no terreno ao lado da atual secundária de Sines, o mesmo espaço que irá acolher o ensino profissional, com a mudança da Escola Tecnológica do Litoral Alentejano (ETLA), há décadas localizada nos terrenos onde a Repsol tem a sua fábrica de polímeros, atualmente em expansão para o projeto Alba.
– A economia dos impactos faz-se sentir, sobretudo, nas áreas das infraestruturas críticas e da logística do complexo, por exemplo: os projetos de dessalinização, de reutilização de águas residuais tratadas e de refrigeração que são da responsabilidade das Águas de Santo André, a conclusão da A26 e sua ligação ao Algarve, via A2, ao interior alentejano e ao aeroporto de Beja e, mais tarde, também, ao território espanhol, a ligação ferroviária Évora-Badajoz, o plano de habitação para a área metropolitana de Sines, Santo André e Santiago de Cacém, o plano de mobilidade elétrica para esta área metropolitana, o plano de ordenamento, qualidade ambiental e gestão paisagística para a mesma área metropolitana e, evidentemente, a inclusão de todos estes projetos nos programas do PT 2034 e PTRR 34;
– A propósito de economia de impactos, Luís Rodrigues, diretor de operações da Start Campus, destaca a contratação de uma profissional portuguesa atualmente na Amazon, que chegará a Sines para desenvolver projetos de impacto na comunidade. “Vai ajudar-nos a dar a continuidade a todos os programas e também a fazer o plano multianual para os próximos dois, três, quatro anos, e ajudar-nos a implementar, de maneira a conseguir não só trazer mais-valias e apoiar a comunidade, mas também garantir que o que estamos a investir traz retorno à comunidade”, assegura o diretor da Start Campus.
Em síntese, Sines caminha para os 10% do PIB nos próximos anos, para investimentos superiores a 20 MM de euros e para uma economia de impactos nunca vista na estrutura do seu capital natural, produtivo e social, de acordo com a informação disponível junto da AICEP Global Parques. “Mais do que números, estes investimentos refletem uma transformação estrutural profunda da região, cada vez mais orientada para a energia limpa, a indústria sustentável, a logística avançada e a economia digital. O impacto social do projeto é, também, muito significativo. Estamos a falar da construção de novas infraestruturas e do acesso à habitação, num concelho de 14 mil habitantes que pode receber nos próximos anos mais de 7 mil novos habitantes”.
António Covas
António Covas é Professor Catedrático Aposentado da Universidade do Algarve.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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