E se as bermas das estradas se tornassem refúgios de biodiversidade?
CIÊNCIA
E se as bermas das estradas, habitualmente vistas apenas como espaços que exigem limpeza e manutenção, pudessem transformar-se em pequenos refúgios para a biodiversidade? Uma investigação liderada pela Universidade de Évora demonstrou que semear pequenas ilhas de vegetação nativa nas bermas de estradas nacionais do Alentejo aumenta significativamente a diversidade de plantas, sem comprometer a segurança rodoviária.
A experiência decorreu durante quatro anos, em estradas das regiões de Évora, Montemor-o-Novo e Estremoz.
O estudo, publicado em outubro de 2026 na revista científica Journal of Environmental Management, aponta para uma solução relativamente simples e de baixo custo que poderá ajudar a conciliar a conservação da natureza com a gestão das infraestruturas rodoviárias.
A investigação partiu de uma constatação: embora as estradas contribuam para a fragmentação dos habitats naturais e dificultem a circulação de espécies entre diferentes áreas, as suas bermas podem também constituir espaços importantes para a conservação da flora mediterrânica.
Esta possibilidade tem sido pouco explorada, sobretudo nas estradas antigas situadas fora dos centros urbanos, onde a vegetação é frequentemente sujeita a cortes regulares.
Foi precisamente nestes espaços que os investigadores decidiram testar uma solução baseada na introdução localizada de plantas autóctones, adaptadas às condições climáticas e às necessidades de manutenção das estradas.
Pequenas ilhas de vegetação fizeram a diferença
A experiência decorreu em três estradas nacionais do Alentejo Central, nas regiões de Évora, Montemor-o-Novo e Estremoz.
Ao todo, foram semeadas 28 pequenas ilhas de vegetação, utilizando uma mistura de sementes de plantas herbáceas nativas, selecionadas especificamente para as características das bermas rodoviárias em ambiente mediterrânico.
A escolha das espécies teve em conta vários fatores, nomeadamente a sua capacidade de adaptação ao clima, a resistência aos cortes periódicos da vegetação e o seu porte reduzido.
Este último aspeto foi particularmente importante para garantir que a presença das plantas não prejudicava a visibilidade dos condutores nem aumentava o risco de incêndio.
Durante quatro anos, os investigadores acompanharam a evolução destas pequenas áreas semeadas e compararam-nas com a vegetação existente nas restantes zonas das bermas.
Os resultados mostraram que as ilhas apresentavam um número significativamente superior de espécies vegetais, incluindo plantas nativas espontâneas que não existiam nas áreas vizinhas.
O aumento da diversidade foi mais evidente nos primeiros anos, mas as áreas intervencionadas mantiveram características próprias ao longo do período de acompanhamento.
Segundo a Universidade de Évora, as ilhas de vegetação desenvolveram comunidades vegetais distintas das restantes bermas, caracterizadas por plantas mais densas, de menor altura e com predominância de espécies perenes.
Ou seja, a introdução de pequenas manchas de vegetação nativa não se limitou a acrescentar algumas espécies ao espaço existente: contribuiu também para modificar a estrutura da vegetação e criar maior diversidade de habitats.
Três em cada quatro espécies semeadas floresceram anualmente
Outro dos resultados considerados relevantes pelos investigadores está relacionado com a floração.
O estudo revelou que cerca de três quartos das espécies semeadas floresceram todos os anos, proporcionando uma presença regular de flores nas áreas intervencionadas.
Esta característica poderá ter importância para diferentes espécies animais, sobretudo insetos que dependem dos recursos florais.
A maior diversidade da vegetação e a existência de diferentes estruturas vegetais podem também favorecer a formação de pequenos habitats, oferecendo condições distintas de abrigo e alimentação.
Contudo, os investigadores sublinham que estes possíveis benefícios para a fauna ainda precisam de ser avaliados diretamente.
Embora os resultados sejam promissores para a conservação da flora, a investigação não permite concluir, nesta fase, que as ilhas de vegetação tenham provocado um aumento efetivo das populações de polinizadores ou de pequenos mamíferos.
Essa será uma das questões a aprofundar em futuros trabalhos científicos.
Uma solução que pode reduzir custos de intervenção
Uma das principais vantagens desta estratégia está na possibilidade de melhorar o valor ecológico das bermas sem necessidade de intervir em toda a sua extensão.
Em vez de proceder à sementeira contínua de grandes áreas, os investigadores testaram a criação de pequenas ilhas de vegetação, distribuídas ao longo das estradas.
Esta abordagem permite concentrar os recursos em áreas específicas, criando núcleos de diversidade vegetal que podem contribuir para enriquecer a composição florística das bermas.
A Universidade de Évora considera que a técnica poderá constituir uma estratégia prática e de baixo custo para integrar objetivos de conservação da biodiversidade na gestão das infraestruturas rodoviárias.
A utilização de misturas de sementes nativas, ecologicamente adaptadas às condições locais, poderá ainda facilitar a compatibilização entre a manutenção das bermas e a preservação da vegetação.
No entanto, os investigadores reconhecem que será necessário estudar os custos reais de implementação e manutenção desta solução quando aplicada em maior escala.
Também importa perceber se os efeitos positivos observados durante os quatro anos da experiência se mantêm a longo prazo.
Estradas podem deixar de ser apenas barreiras ecológicas
As infraestruturas rodoviárias são frequentemente identificadas como fatores de fragmentação dos habitats naturais, uma vez que atravessam áreas de vegetação e podem dificultar a ligação entre diferentes ecossistemas.
Mas as bermas, quando geridas de forma adequada, também podem contribuir para a conservação de espécies vegetais e para aumentar a diversidade ecológica da paisagem.
A investigação realizada no Alentejo Central reforça precisamente esta perspetiva, mostrando que é possível melhorar o valor natural destes espaços através de intervenções relativamente localizadas.
A experiência assume particular interesse em regiões mediterrânicas, onde a vegetação está sujeita a verões quentes e secos e onde a gestão das bermas tem de atender simultaneamente à segurança rodoviária e à prevenção de incêndios.
Os resultados sugerem que as estradas não precisam de ser encaradas exclusivamente como elementos que prejudicam os ecossistemas, podendo as suas áreas marginais desempenhar uma função complementar na conservação da biodiversidade.
Investigação envolveu várias universidades portuguesas
O estudo, intitulado Sowing vegetation islets enhance plant diversity and habitat heterogeneity in Mediterranean long-established road verges, tem como primeira autora Mariana P. Fernandes, investigadora do LaBot – Laboratório de Botânica do Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento (MED), do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c) e do Instituto de Alterações Globais e Sustentabilidade (CHANGE).
Mariana Fernandes é também assistente convidada do Departamento de Biologia da Universidade de Évora.
A investigação foi liderada por Anabela D. F. Belo, docente daquele departamento, contando ainda com a participação de Paula Matono e Carla Pinto-Cruz, investigadoras ligadas ao MED e ao CHANGE.
O trabalho envolveu igualmente Alice Nunes, da Universidade de Lisboa, e Francisco Moreira, ligado ao CIBIO e ao BIOPOLIS.
O estudo foi desenvolvido no âmbito do projeto LIFE LINES – Redes de Infraestruturas Lineares com Soluções Ecológicas e do doutoramento de Mariana P. Fernandes.
Publicado em outubro de 2026, o trabalho abre novas perspetivas para a gestão ecológica das bermas rodoviárias, mostrando que pequenas intervenções, quando baseadas no conhecimento científico e na utilização de espécies nativas, podem contribuir para conservar a diversidade vegetal.
A próxima etapa será avaliar até que ponto esta solução pode ser aplicada a redes rodoviárias mais extensas, qual o seu custo de manutenção e que benefícios concretos poderá trazer para os animais que dependem destes habitats.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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