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Manifesto anti-Ruis

OPINIÃO

Manifesto anti-Ruis

O Rui tem mais ou menos a minha idade e aparece na televisão. É da minha geração. É jovem e juro que da primeira vez em que o vi fiquei a olhar, atento, porque era uma cara nova num sítio onde nós, os jovens, não entramos tanto, por isso admito que fiquei interessado, que até aumentei o volume do televisor para o ouvir.

O Rui é uma figura. O Rui aparece sempre muito bem penteado – e isso, devo admitir, é algo que também prezo. Cabelos fora do lugar fazem-me impressão, Rui.

Quando fala, o Rui parece estar cheio de certezas. O Rui gesticula, o Rui sorri, o Rui gosta de se assumir como diferente na nossa geração em que são todos iguais – «de extrema esquerda», não é? Ou melhor: «socialistas». Ia jurar que conheço pouquíssimos com a nossa idade, Rui.

Mas o Rui é articulado, garante não ter medo de nada nem de ninguém, porque ele é diferente, porque quer fazer diferente, porque ele representa tudo aquilo que Portugal ainda não foi.

Desta vez, vi o Rui subir ao púlpito, tinha uma gravata azul e dois pins à lapela – o do país e o do partido -, voltava a estar muito bem penteado e começou a falar dos «arruaceiros».

O Rui cerrou os dentes: «carrega, PSP! Carrega em cima deles, carrega em cima deles!». O Rui diz ser pela ordem pública.

Depois, o Rui pegou em duas imagens de jovens como nós: «estes manifestantes não precisam de habitação! Quanto muito, precisam de um champô e de tomar banho! Disso é que eles precisavam muitas vezes». E ria-se.

O Rui é deputado e tem um salário acima de grande parte dos jovens. O Rui terá maiores possibilidades de arrendar ou até comprar uma casa porque, fui consultar, tem um salário bruto de cerca de 4200 euros. O Rui não pensou nos outros.

Mas o Rui é católico. O Rui vai à missa. O Rui nunca faltou a um dia de catequese. O Rui terá lido a Bíblia. O Rui conhece os 10 Mandamentos. O Rui reza o Pai-Nosso.

O Rui é muita coisa: só não é um deputado que me represente minimamente a mim, jovem de 30 anos que vive todos os dias na pele o pesadelo que é comprar ou arrendar uma casa. E sabem que mais?

Ainda bem que não.

Pedro Lemos

Poucas coisas me dão mais gozo na vida do que sentar-me frente a frente com uma pessoa, olhar-lhe nos olhos, escutá-la e ouvir a sua história para depois a verter num texto. Acho que isso diz tudo sobre como vejo e encaro isto do jornalismo, onde ando há quase 10 anos. Sou o Pedro.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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