Um novo desafio que circula nas redes sociais está a preocupar profissionais de saúde e entidades oficiais. O chamado “desafio do paracetamol”, que incentiva a ingestão deliberada deste medicamento em doses muito superiores às recomendadas, com o objetivo de testar quem resiste mais tempo até necessitar de ser hospitalizado, está a ganhar visibilidade, sobretudo entre os mais jovens.
Esta situação tem exigido um reforço dos alertas sobre os riscos da utilização irresponsável de medicamentos.
É importante compreender que nenhum medicamento é isento de riscos, mesmo os mais comuns. O paracetamol é um dos mais utilizados em Portugal para aliviar dor e febre.
Por existirem apresentações que podem ser compradas sem receita médica, muitas pessoas consideram-no completamente seguro. No entanto, essa perceção é enganadora, uma vez que, quando o paracetamol é tomado acima das doses recomendadas, pode causar danos sérios e irreversíveis no fígado.
A ingestão excessiva de paracetamol pode conduzir a lesão hepática grave, que em casos mais severos pode evoluir para insuficiência hepática aguda, com potencial necessidade de realização urgente de um transplante de fígado. Em situações extremas, esta situação pode conduzir à morte.
É importante ter em mente que os sintomas associados à intoxicação do paracetamol nem sempre surgem imediatamente, o que torna a situação ainda mais perigosa. Entre os sinais mais comuns estão náuseas e vómitos, suor excessivo, mal-estar intenso, dor abdominal e cansaço extremo físico e mental.
Perante uma suspeita de ingestão excessiva, deve procurar-se assistência médica imediata, mesmo que a pessoa se sinta aparentemente bem, para que o tratamento possa ser iniciado o mais rapidamente possível. Um tratamento atempado reduz o risco de desenvolver complicações. Para obter informação especializada, deve contactar o Centro de Informação Antivenenos (CIAV), disponível através do contacto telefónico 800 250 250 (chamada gratuita).
No entanto, o uso irracional de medicamentos não se limita ao paracetamol, constituindo um grave problema de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de metade dos medicamentos é utilizada de forma incorreta. Isto inclui situações como tomar doses superiores às recomendadas, combinar vários medicamentos contendo o mesmo princípio ativo, interromper ou prolongar tratamentos sem aconselhamento profissional e/ou partilhar medicamentos com familiares ou amigos.
Muitos destes comportamentos têm origem em práticas aparentemente inofensivas, como “emprestar um comprimido para a dor de cabeça”.
No entanto, o mesmo medicamento nem sempre tem o mesmo efeito em todas as pessoas, já que a sua eficácia e segurança dependem de outras variáveis como outros problemas de saúde, tratamentos e características de cada indivíduo.
Nas redes sociais, os conteúdos espalham-se a grande velocidade e, muitas vezes, comportamentos perigosos tornam-se virais em poucas horas. Os mais jovens, em particular, podem sentir-se pressionados a aderir a desafios sem terem verdadeira noção dos riscos.
Entre a curiosidade, o desejo de pertencer ao grupo e a desinformação, o passo até uma decisão irrefletida pode ser muito curto. E, quando se fala de medicamentos, não há espaço para experiências nem para imitar o que aparece online.
Num tempo em que se partilha tanta informação, mas nem toda é de confiança, é cada vez mais importante saber distinguir o que é credível do que não é.
Antes de seguir modas perigosas ou conselhos encontrados na internet, deve procurar-se informação junto de profissionais de saúde e de fontes seguras. Pais e cuidadores, sobretudo, precisam de estar atentos e informados para conseguirem agir a tempo e evitar que os mais novos sejam influenciados por conteúdos errados.
Perante esta nova realidade, a farmacovigilância não pode ficar para trás. Tem de acompanhar a evolução tecnológica e usar todas as ferramentas disponíveis para proteger a saúde pública, desde a deteção rápida de possíveis riscos associados aos medicamentos até à divulgação de informação clara e acessível sobre a forma segura de os usar.
Mas há um aspeto que continua a ser decisivo – a comunicação por parte dos cidadãos, dos doentes e dos profissionais de saúde.
Quando algo corre mal, é fundamental notificar. Sempre que surge uma reação adversa a um medicamento relacionada com a sua utilização, essa situação deve ser comunicada ao Sistema Nacional de Farmacovigilância, através do Portal RAM, mesmo quando resulta de um uso inadequado.
É esse contributo que permite identificar padrões de risco, reforçar o conhecimento científico e emitir alertas que ajudam a proteger toda a população.
Bibliografia
Ordem dos Farmacêuticos: Riscos associados à toma deliberada de doses elevadas de paracetamol.
World Health Organization: Promoting rational use of medicines.Nota: Este artigo, publicado no âmbito da parceria entre a Unidade de Farmacovigilância do Algarve e Baixo Alentejo (UFALBA) e o Sul Informação, é da autoria de Kristina Angelova, Lília Leonardo, Liliana Pedro, Alexandre Baptista, Margarida Espírito Santo.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO ALENTEJO
