No passado dia 5, assistimos ao encontro anual de Animação Turística promovido pela Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo (ESGHT), da Universidade do Algarve – Pólo de Portimão, este ano dedicado ao Turismo Acessível.
Numa das primeiras intervenções, a professora Manuela Rosa mencionou as paragens de autocarro, a sua falta de condições para pessoas com alguma condicionante de ordem física ou psíquica, e como ainda temos um longo caminho a percorrer para sermos verdadeiramente acessíveis.
No entanto, falava-se de paragens de autocarros enquanto transportes públicos, para servir os turistas que se deslocam de forma individual. Mas, para os grupos, a questão pode ser ainda mais pertinente.
Há alguns anos, numa reunião de trabalho com a Câmara Municipal de Loulé, uma colega questionou um responsável pelo trânsito onde poderíamos parar, com um autocarro de turismo, para tomada e largada de passageiros, no centro da cidade.
A resposta foi: em lado nenhum pois as paragens existentes eram para transportes públicos, não para turismo.
Se fossemos levar a lei à letra, nenhum grupo conseguiria fazer uma visita em Loulé. Percebendo o impacto da questão, passado cerca de um mês, foi criada, nessa cidade, uma paragem para autocarros de turismo.
Esta pequena história ilustra um problema com o qual, anos depois, ainda nos continuamos a debater – não é a falta de paragens preparadas para responder a vários desafios, é pura e simplesmente a falta de paragens para autocarros de turismo.
A maior parte dos clientes que se deslocam desta forma são grupos organizados, pessoas na sua maioria acima dos 50 anos, com algum poder de compra, que têm um pacote com vários serviços e que, efectivamente, contribuem com valor para a economia da região.
Ao mesmo tempo, são mal tratados, de forma geral, pelo nosso Turismo. A começar pelos hotéis. Todos querem ter grupos, especialmente aqueles que vêm do sector empresarial, com orçamentos elevados, que durante três ou quatro dias movimentam um número enorme de actividades.
Mas, muitas vezes, na altura da construção dos acessos, é esquecido que um autocarro precisa de mais espaço para manobrar que um automóvel ligeiro.
Depois vamos fazer as visitas e onde podemos parar? Não existem paragens ou estão ocupadas por outros veículos ou estão mal localizadas em relação às dinâmicas que as visitas exigem, por vezes muito longe, exigindo deslocações demoradas que acabam por afectar o tempo dedicado à visita e às compras ou ao café.
É certo que, na actualidade, em grandes cidades como Paris ou Roma, ou até Lisboa e Porto, há um retirar dos autocarros de turismo dos centros históricos.
Mas, no Algarve, não temos nenhum desses grandes centros urbanos e nos centros históricos não entram autocarros de turismo – não entram na Vila Adentro em Faro, nem sobem ao castelo de Silves, nem entram nos centros de Tavira, Lagos, Castro Marim ou Vila Real de Santo António.
Isso faz com que seja ainda mais importante que o lugar onde se pode parar possa ser uma mais-valia para quem visita e também para o sítio a visitar.
Portimão é, neste momento, a principal cidade onde, com uma regularidade crescente, param navios de cruzeiro. Há inúmeras visitas que se fazem a cidades vizinhas e também a Portimão.
A paragem para os autocarros que transportam os turistas foi deslocada do local onde, durante anos, se efectuou, perto da Capitania, para ficar, sensivelmente, a meio da avenida, longe da praça onde estão as casas de banho e até algumas lojas.
Numa cidade que, nos últimos anos, viu o seu centro descaracterizado com o fecho em cadeia de inúmeras lojas, conseguir atrair visitantes deveria ser importante e estes pequenos pormenores fazem a diferença.
O turismo é a indústria do bem-estar, mas também dos “pormaiores”, pequenos detalhes, que temos a tendência a chamar de pormenores, mas que podem ser o desbloqueio de uma decisão.
A existência de paragens de autocarro “inteligentes”, que nos possam auxiliar a ler os horários, a perceber a dinâmica do transporte público, a ajudar a superar certas dificuldades são, naturalmente importantes e esperamos poder ser capazes de as desenvolver para um futuro mais acessível.
Na actualidade, já ficávamos satisfeitos se, de facto, as paragens para autocarros de turismo existissem, fossem devidamente sinalizadas e respeitadas pelos outros veículos utentes da via, para podermos proporcionar aos nossos visitantes melhores condições de visita, em segurança e com tempo para usufruírem da nossa cultura, das nossas paisagens, aldeias, vilas e cidades.
Por CRISTINA MARREIROS
Cristina Marreiros é Guia-Intérprete e presidente da Agigarve (Associação de Guias-Intérpretes do Algarve).
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
