A diplomacia, considerada como a capacidade de conduzir e gerir negociações com arte e engenho de forma pacífica, é uma prática que remonta à Antiguidade e que tem vindo a acompanhar a evolução dos tempos, até aos dias de hoje.
Embora sempre tenha existido e tenha contribuído para o desenvolvimento político, social e económico das sociedades, a diplomacia nem sempre foi eficaz.
De facto, em Eras marcadas pela força bélica, a diplomacia pouco sucesso tinha na contenção de batalhas e surgimento de guerras.
Embora passando por grandes marcos históricos antagónicos à pacificidade subjacente à diplomacia, a evolução e desenvolvimento das sociedades levou a que a atividade diplomática fosse assumindo um papel cada vez mais relevante na resolução de conflitos de naturezas distintas.
No rescaldo da I Guerra Mundial (1914-1918), com o desenvolvimento do direito internacional, foi criada a Sociedade das Nações, um organismo internacional criado com o objetivo de promover a paz mundial.
O sucesso no cumprimento da sua missão foi escasso, já que este organismo não possuía instrumentos legais ou forças militares para impor a paz, algo que o descredibilizava perante alguns países, como os Estados Unidos da América (EUA), que nunca chegaram a aderir a esta sociedade.
De facto, a impotência da Sociedade das Nações, aliada à ascensão de alguns regimes autoritários, permitiu uma nova guerra, a II Guerra Mundial (1939-1945).
Na sequência deste conflito armado, que dizimou cerca de 60 milhões de pessoas, foi criada uma nova organização, a Organização das Nações Unidas (ONU), que veio substituir a Sociedade das Nações. Esta nova organização, procurou corrigir as principais insuficiências e evitar os erros da sua antecessora, tornando-se, até hoje, na principal entidade para a diplomacia, paz e segurança, a nível mundial.
Em alguns pontos do globo, o estado de guerra nunca deixou de ser uma constante, mas na Europa a resolução de conflitos seguia preferencialmente uma via diplomática.
Foi a 24 de fevereiro de 2022 que a situação começou a inverter-se, com a invasão em larga escala do território ucraniano por parte da Rússia.
Desde então, houve várias tentativas diplomáticas falhadas para pôr termo à guerra, o que tem levado os Estados Unidos da América (EUA) e a Europa a dar cobertura (i.e. armamento) à Ucrânia para a defesa do seu território.
Ainda no que respeita aos EUA, atualmente a diplomacia não parece configurar o seu modus operandi em termos de governação.
De facto, entre as ameaças de guerra comercial com a imposição de tarifas aduaneiras tanto à Europa como à China, a manifestação de anexar uma ilha pertencente à Dinamarca, a Gronelândia, e motivações alegadamente legítimas que incluíram uma operação militar para capturar o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, com vista a libertar o povo dessa região de um regime opressor, e uma guerra contra o Irão para impedir o desenvolvimento de um programa de armamento nuclear, a atual administração da Casa Branca tem desconsiderado e desrespeitado vários princípios do direito internacional e, consequentemente, desvalorizado a diplomacia multilateral.
A diplomacia contemporânea assume vários contornos, sendo a sua vertente multilateral (i.e. aquela que promove a inclusão de várias partes interessadas em negociações, fóruns e afins) um dos mais preponderantes.
Nesse sentido, várias entidades internacionais têm sido criadas com vista a promover o diálogo e alcançar o bem-estar coletivo quer no plano humanitário e social, quer no económico-financeiro.
Não obstante, a busca incessante por recursos (por exemplo, minerais críticos), dinheiro e poder, parece nortear as ações de vários (conjuntos de) países que, face a diversas questões multilaterais e coletivas, aplicam um tratamento unilateral, fragilizando as entidades diplomáticas.
A atividade diplomática teve uma evolução e implementação consideráveis no continente europeu, onde começaram a surgir, ainda no século XIX, as primeiras propostas para a criação de um organismo que evitasse as guerras em que as potências europeias estavam permanentemente envolvidas e que, vários anos mais tarde, estiveram na base da criação da Sociedade das Nações.
Atualmente, a Europa encontra-se numa posição enfraquecida, enfrentando diversas limitações, nomeadamente ao nível da segurança e proteção do seu território e interesses. Essa posição desfavorável, tem levado a uma desvalorização da sua influência diplomática, tornando-a um mero espectador na gestão das relações internacionais.
Neste primeiro quarto do século XXI, temos assistido a um despertar para a guerra. Em tempos, a diplomacia foi a solução para evitar guerras e promover a paz, mas uma realidade que julgávamos pertencer ao passado, parece ter um regresso cada vez mais provável. A questão que se impõe é: será que a diplomacia se tornou numa utopia?
Nota 1: Este artigo apenas expressa a opinião da autora, não representando a posição das entidades com as quais colabora.
Nota 2: artigo publicado ao abrigo do protocolo entre o Sul Informação e a Delegação do Algarve da Ordem dos Economistas
Por Beatriz Gonçalves
Beatriz Gonçalves é Professora Auxiliar Convidada na Faculdade de Economia da Universidade do Algarve e investigadora integrada do CinTurs, Centro de Investigação para o Turismo, Sustentabilidade e Bem-estar. Doutorada em Ciências Económicas e Empresariais, pela Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, tem centrado a sua investigação na área da Gestão Empresarial. Ao longo da sua carreira, tem procurado desenvolver a aproximação e colaboração entre o tecido empresarial da região e a academia. É vogal efetiva da Direção Regional do Algarve da Ordem dos Economistas.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
