Por Hugo Rodrigues
«Ou vimos todos viver para o litoral, ali à volta de Porto, Lisboa, Aveiro ou assim, e abandonamos definitivamente o interior – e então o que se lá passa também não chateia ninguém, porque está lá longe -, ou então muda-se assumidamente a política florestal», para diminuir o número de fogos e área ardida.
Quem o afirma é Nuno de Santos Loureiro, professor universitário, especialista em Sistemas de Informação Geográfica e investigador com muito trabalho realizado na área da gestão do território, monitorização de incêndios e erosão dos solos, que defende que atacar este «enorme problema» do abandono do interior, intimamente ligado ao aumento da área ardida, é «um desígnio nacional».
Este é um tema que o docente e investigador da Universidade do Algarve domina como poucos, uma vez tem vindo a usar “os olhos da Europa no céu”, que é como quem diz os satélites do programa Copernicus, para estudar a evolução da ocupação do território e as consequências dos fogos a diferentes níveis.
Ao longo dos anos, criou diversos modelos sobre os impactos dos incêndios no ecossistema e tem sido uma voz de alerta para o que considera erros ao nível da gestão do território e do ordenamento florestal.
O Programa Copernicus é apenas umas das muitas ferramentas tecnológicas ao dispor dos cientistas como Nuno Loureiro. O investigador e professor da UAlg também recorre a drones e a outros equipamentos para fazer o seu trabalho, bem como a software especializado.
Ainda assim, e apesar do conhecimento que tem sido gerado por este e outros especialistas, e da evolução tecnológica generalizada, há, neste século XXI, muito mais incêndios e de consequências mais graves do que havia no século passado, em Portugal.
Como é que isso se justifica?
«Há uma conjugação de fatores. O avançar da tecnologia põe os técnicos muito empolgados nos gabinetes e nos computadores. Todos se empolgam muito com softwares, com hardwares, com imagens de satélite, com essa parafernália tecnológica e de saber – e agora é inteligência artificial e agora é não sei o que mais. Mas estão cada vez mais no gabinete, cada vez mais no computador, cada vez mais longe do sítio onde efetivamente arde», explicou Nuno Loureiro em entrevista ao Sul Informação.
«Acabaram-se os técnicos no campo. E o que arde é o campo, não são os computadores. E o que arde são as árvores, não são as secretárias dos gabinetes. E podemos continuar por aí… Há um enormíssimo afastamento entre o know-how – e a tecnologia, as imagens de satélite e a aplicação do Copernicus, que descobre um incêndio cinco minutos depois deste começar – e a realidade do terreno», acrescentou.
A par desta realidade, «há o abandono, que começou nos anos 60, que se acentuou nos anos 70 e 80, das pessoas que vivem no campo. E as pessoas que viviam no campo eram os gestores do dia-a-dia, com coisas melhores, com coisas piores. Faziam queimadas, faziam isto, faziam aquilo e eram os gestores».
Estas pessoas «sabiam usar o fogo porque precisavam do fogo para manter pastagens, para manter gado, para manter cabras, para manter ovelhas, para manter a gestão do território. Essa gente toda emigrou, envelheceu, desapareceu».
Mas o investigador da UAlg vai mais longe e fala no que considera «a paranóia da arborização do país. Criámos uma utopia fantástica de que a natureza saudável e equilibrada é uma floresta frondosíssima. Tudo tem de ter árvores, tudo tem de estar arborizado, tudo tem de ter não sei quê».
«Dantes, ardia muito menos porque havia os guardas-florestais, porque havia as pessoas, os pastores, os agricultores. E não havia árvores. É muito simples: por um lado, temos o desaparecimento das pessoas, no terreno, por outro lado, temos uma multiplicação por N da área florestal», defendeu.
«Estamos a falar de uma área florestal de pinheiro-bravo e de eucalipto. (…) A outra grande diferença que nós temos no aumento dos incêndios é, efetivamente, o enormíssimo aumento da área florestal. Por um lado, pelo interesse económico da celulose, do papel, da madeira do pinheiro e tudo isso, por outro, por causa desta obsessão de que o país, para estar conservado em termos naturais, tem de estar totalmente florestado», reforçou.
Associada a esta mudança na forma de olhar para o território, foram tomadas decisões políticas, entre as quais a extinção do serviço de guardas-florestais, que os especialistas consideraram “tiros no pé” – um «erro crasso», como o designou, numa entrevista ao Sul Informação, João Guerreiro, antigo reitor da Universidade do Algarve e que liderou a Comissão Técnica Independente que estudou as causas dos mortíferos incêndios de 2017.
Fernando Santos Pessoa, fundador e primeiro diretor do Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico, o precursor do atual Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, junta à extinção do serviço de guardas-florestais outros dois «grandes erros»: o fim dos guarda-rios e dos cantoneiros.
Estes últimos limpavam periodicamente os taludes das estradas, «mas como devia ser. Limpar, não é passar tudo a pente fino. Hoje há algumas empresas que, de tempos a tempos, chegam lá, arrasam aquilo tudo. Não, os taludes devem ficar com vegetação própria. Era isso que faziam».
Na visão de Fernando Santos Pessoa, também os guarda-rios «eram fundamentais».
«Já viu o fogo nas ribeiras? As nossas ribeiras são temporárias, são torrenciais, estão sempre cheias de mato, de canavial, que arde que se farta. Ora, o fogo que chegue ali é como um pavio que vai com o vento», disse.
«Hoje, não há ninguém que limpe aquilo. Os guarda-rios não só limpavam a parte dos taludes, como obrigavam os proprietários marginais com a linha de água a limpar as suas terras».
Outro erro foi acabar com os guardas-florestais. «Devemos ser o único país do mundo com uma área florestal de mais de 30% do território, (…) que acabou com toda aquela quadrícula de pessoas que estavam o ano inteiro na serra. (…) Mal havia uma pequena coluna de fogo, havia sempre um guarda numa casa perto que via, acudia logo e o fogo morria ali. Não havendo isso, muitas vezes só se dá pelo fogo quando já está incontrolável».
«Os guardas-florestais, embora também andassem armados, a intenção não era serem polícias como a GNR. Eram técnicos. Se vissem a quantidade de livros que eles tinham de ler para os exames, ficariam impressionados. Os mestres eram os senhores da serra, sabiam mais que os engenheiros. Quando eu lá cheguei com 20 e poucos anos, o que me valeu foram os mestres, que conheciam a serra toda. Tudo isso desapareceu, sem vantagem para ninguém», recordou o também professor universitário, engenheiro silvícola e arquiteto paisagista.
Fernando Santos Pessoa dá um exemplo prático, ligado aos incêndios de 2025, que atingiram a Serra da Estrela.
É neste território que vive José da Serra, ou José Maria Serrano, «que é um senhor. Foi o primeiro vigilante da natureza a que dei posse em 1977, no Parque Natural da Serra da Estrela».
«Hoje já está reformado e tem uma propriedade lá na Serra da Estrela, um turismo rural. Ardeu tudo à volta, menos a propriedade dele. Porque tem monocultura, tem horta, tem relvado, tem árvores folhosas e tem à frente um povoamento natural de azinheiras que não arderam. Se o plano de ordenamento do Parque Natural [da Serra da Estrela] fosse implementado, a serra já tinha hoje uma paisagem de mosaico, que é aquilo que é necessário», rematou Fernando Santos Pessoa.
É precisamente da ausência desta diversidade de usos de que fala Nuno Loureiro, ao considerar que há um excesso de florestação do país.
«Nós temos séculos de uma densidade florestal muito mais baixa do que a atual. O mosaico, ou o bocage, como lhe chamam os arquitetos paisagistas, a diversidade de usos, de ocupações e usos do território que interrompia a progressão do fogo, desapareceu», ilustrou.
«Tudo o que eram os cereais nas encostas, com trabalho humano, sem trabalho humano, com o burro, com a vaca, tudo isso desapareceu. Foi tudo substituído por árvores. E, naturalmente, na sua maioria, por árvores de crescimento rápido e que ardem facilmente. É o caso do pinheiro e é o caso do eucalipto», disse Nuno Loureiro.
A tudo isto, «juntam-se as políticas europeias, que não financiam a plantação do Quercus robur [carvalho-vermelho] ou do sobreiro, mas financiam fortemente o pinheiro e financiam a indústria do fogo e a indústria do combate do fogo».
O aumento da área ardida está também ligado a uma mudança de abordagem no combate aos incêndios.
«Desde 2017, desde o cenário horroroso de 2017, se o eucalipto arde, que se lixe, se o pinheiro, se a esteva, se a giesta arde, que se lixe. Não podem arder nem casas, nem pessoas. Nós hoje assistimos aos fogos a começar, assistimos aos fogos a propagar. Há um certo “ver o que acontece”, um deixar arder, (…) até se aproximar das casas», apontou.
«Assim, obviamente, facilmente se perde o controlo dos incêndios. Por isso é que temos estas grandes áreas ardidas, porque, de facto, as instruções são para o foco estar nas casas e nas pessoas. Isso é notório desde 2017: a floresta, o território, deixaram de ser prioridade», disse ainda.
Daí que Nuno Loureiro aponte como «um desígnio nacional perceber se nós somos um território continental com 90 mil quilómetros quadrados ou se somos uma faixazinha litoral com uns pequenos satélites ligeiramente mais para o interior».
Mais do que um desígnio, esta mudança de abordagem «tem de ser um compromisso nacional, porque o assunto não se resolve num ano ou em dois anos. O assunto não se resolve numa legislatura. Se calhar, são precisas duas legislaturas para mudar objetivamente a face, a paisagem».
No entanto, se trilhar esse caminho, o país tem de aprender a dar resposta a diversas questões, hoje sem uma solução evidente.
«Como é que nós queremos olhar para o território, percebendo que, neste desígnio nacional, se põem desafios cada vez mais complicados? Como é que se volta a pôr pessoas ali? (…) Como é que se recupera uma agricultura onde precisamos de ter cereais, onde precisamos de ter vinho, onde precisamos de ter amêndoas, onde precisamos de ter maçãs? Ninguém sabe…», apontou.
«Por isso, é preciso assumir isto como uma verdade e como um problema enorme. É um desígnio nacional, assumidamente, porque temos desafios humanos, temos desafios do território, temos desafios políticos», insistiu.
Sem um interior com gente, com uma gestão territorial diferente e onde a tecnologia é colocada ao serviço da proteção da floresta (e de todo o território) contra incêndios, à luz da visão destes especialistas, os fogos florestais continuarão a fazer manchetes durante quase toda a época quente, em diferentes pontos de Portugal, e a queimar hectares e hectares.
NOTA: Esta reportagem é apoiada por uma bolsa do projeto Climate Frontline, do qual o Sul Informação faz parte, e que é liderado pelo European Journalism Center, em parceria com a REVOLVE.
Hugo Rodrigues
Nasci em Oeiras, vim para o Algarve para me tornar engenheiro, mas foi no jornalismo que encontrei a minha vocação. Comecei a minha carreira no Jornal Barlavento e, em 2011, fui um dos orgulhosos fundadores do Sul Informação. Gosto de sair da redação em busca de histórias intemporais e inspiradoras, mas também gosto de fazer a cobertura de temas da atualidade. Se ler uma peça sobre barragens no Sul Informação, provavelmente fui eu que a escrevi.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO ALENTEJO
