OPINIÃO (António Covas): Economia criativa, um espelho da coesão territorial

Publicada em: 09/04/2026 14:22 -

No passado dia 19 de março, fui convidado pela Academia da Cultura e da Criatividade da cidade do Porto para proferir, no Museu Soares dos Reis, uma comunicação sobre economia criativa, sustentabilidade e desenvolvimento.

Seguem-se algumas breves reflexões a propósito:

Em primeiro lugar, vivemos um tempo de grandes transições, numa sociedade de risco global elevado e onde os principais motores do desenvolvimento territorial são a ciência e o conhecimento, a cultura e a criatividade, a comunicação e o comportamento colaborativo.

Neste contexto de grandes transições, de riscos globais e de supertecnologias artificiais, não surpreende que o pensamento doutrinário e teórico regresse à dúvida sistemática de outros tempos e, por outro lado, a uma certa obesidade conceptual para conseguir abarcar a grande abrangência e amplitude dos problemas em consideração.

Ou seja, conceitos como sustentabilidade, coesão, circularidade, multifuncionalidade, governança, segurança, colidem com a realidade e eles próprios criam novas camadas de realidade e outras tantas interpretações. A realidade passou, doravante, a ser um assunto interpretativo.

Acresce que estes conceitos com uma grande amplitude temática acabam, também, por fazer dilatar as políticas públicas, a produção legislativa de leis-quadro e leis de base que, por sua vez, criam novas metas, métricas e certificações de sustentabilidade, novas estruturas de governança multiníveis, uma engenharia financeira mais complexa e, sobretudo, protocolos e procedimentos algorítmicos suportados em IA que vão colidir frontalmente com muitos interesses corporativos instalados criando assimetrias graves na estrutura de lobbying desses interesses e, também, na sua coesão social e territorial.

Dito isto, a grande questão que se levanta, em especial nas áreas de baixa densidade (ABD) é a seguinte: face a esta obesidade concetual de conceitos-placebo, em que medida a economia criativa – a tecnologia, a arte, a cultura, o destino turístico, a criatividade geral – é capaz de gerar recursos adicionais suficientemente atrativos nas ABD e dessa forma dar origem a cadeias de valor (CV) que acelerem o desenvolvimento sustentável desses territórios?

Ou, ainda, até que ponto, a associação entre economia criativa e territórios inteligentes é capaz de criar um círculo virtuoso entre uma economia material que é digitalizada e virtualizada e, por outro lado, uma economia imaterial que alavanca uma nova realidade material, como se houvesse uma espécie de inversão da cadeia de valor?

Aqui chegados, temos à nossa frente, em especial nas ABD, essencialmente rurais, um campo imenso de investigação e novas cadeias de valor em formação: a montante dessas cadeias temos o património natural com a sua biodiversidade e bioenergia (1), depois as tecnologias aplicáveis desde a agricultura de precisão, à biotecnologia e IA (2), a seguir os fatores de diferenciação e de nicho com a economia circular e a economia regenerativa (3), depois o destino turístico diferenciado com a arte e a cultura do turismo sustentável (4), por fim, a constelação e a plataforma de relações colaborativas com os atores de outros universos como as escolas profissionais, os centros de investigação e as plataformas de inovação e colaboração (5).

Em segundo lugar, e num plano mais programático e estratégico, agora que se prepara o PT 2028-2034 gostaria de salientar a importância de criar um Forum Regional para a elaboração do contributo regional e a construção de uma Agenda Territorial para o próximo período de programação, bem como a tradução dessa agenda no quadro do próximo POR (programa operacional regional).

E no quadro do POR conceber a governança regional da Estratégia Regional de Especialização Inteligente (EREI) e sua articulação com a Estratégia Nacional de Territórios Inteligentes (ENTI) e, nessa sequência, criar uma plataforma de inovação e colaboração (PIC) para o setor das indústrias criativas e culturais (ICC) que valorize o ecossistema cultural e criativo de toda a região.

Neste âmbito, ainda, importa fazer o mapeamento das cadeias de valor, atuais e potenciais, convencionais e inovadoras que podem ser operacionalizadas em tempo útil durante o período 2028-2034.

Trata-se de escolher as cadeias de valor com maior potencial e ensaiar as conexões e hiperligações entre as cadeias produtivas convencionais, o ecossistema tecno-digital em construção e o ecossistema criativo e cultural, de modo a testar a sua intensidade-rede e a elaborar uma tipologia consistente de fatores críticos e fatores inovadores.

Em terceiro lugar, e num plano mais pragmático e operacional, vamos testar a engenharia colaborativa e as interações entre os atores e o sistema. Falamos de património e monumentos nacionais, redes de museus, polos e centros interpretativos (1) Câmaras municipais e comunidades intermunicipais, (2), associações, fundações e misericórdias (3) grupos empresariais e projetos culturais e criativos privados (4). Tecnologia, arte e território, pode ser uma convergência muito prometedora se soubermos contextualizar e integrar devidamente todas as variáveis envolvidas.

No estádio atual do nosso desenvolvimento, a relação entre os processos de digitalização, patrimonialização, turistificação e ludificação parece ser a mais promissora no que diz respeito à conexão entre cultura e desenvolvimento territorial, sobretudo nas áreas de baixa densidade. Vejamos alguns exemplos que promovem uma hibridação das cadeias de valor, que verticalizam e horizontalizam as cadeias de valor:

1- A artista Vanessa Barragão: artes da paisagem do mar de coral, design têxtil de lã que liga a arte à economia azul e ao capital natural do mar; Vanessa Barragão é embaixadora do Observatório do Mar e do Centro de ciências do mar da Universidade do Algarve.

2- O artista Bordallo II: artes de rua com ligação à gestão de resíduos e à economia circular.

3- As diferentes formas de arte ecológica, artes da paisagem, arte povera, ligadas por exemplo à agricultura sintrópica e regenerativa de que são exemplo os projetos Mértola Sintrópica e a agricultura regenerativa na herdade do Freixo do Meio (Montemor-o-Novo).

4- O Projeto Entre Serras, que junta aldeias de xisto e de montanha em parceria internacional para promover residências artísticas, a circulação de arte contemporânea, artes da paisagem, turismo de natureza e exposições itinerantes em três países.

5- A Cooperativa agro rural de Boticas, a CAPOLIB, uma cooperativa de fins múltiplos, ligada ao Ecomuseu do Barroso, ao artesanato, aos produtos denominados e certificados, à conservação do património mundial da FAO, ao turismo de natureza e a projetos de coesão socio-territorial.

6- O Museu ZerO, um centro de artes digitais recentemente criado na cooperativa agrícola de produtores de azeite da freguesia de Santa Catarina da Fonte do Bispo do concelho de Tavira; o seu programa de visitação inclui viagens imersivas ao passado agro rural, exposições e instalações digitais, seminários e conferências, residências artísticas, etc.

7- O MUZEU DST abre no dia 25 de abril próximo no complexo industrial do grupo DST, no centro de Braga, no palacete Vilhena Coutinho. Aí estarão expostas 1500 obras de arte em quatro pisos de uma fábrica do futuro e o programa inclui exposições, ciclos de jazz, clubes de escuta, ciclos de conferências, workshops de filosofia para crianças, ciclos de dança, etc.

8- Outros exemplos dignos de nota incluem projetos ligados ao turismo rural e ao enoturismo como é o caso do grupo Roquete com herdades no Alentejo, Douro e região dos Vinhos Verdes e o Grupo Berardo com herdades e quintas em Vila Fresca de Azeitão, Bombarral e um museu em Estremoz.

Estes exemplos permitem-nos retirar algumas conclusões importantes a propósito das hiperligações entre diferentes ecossistemas: entre o ecossistema do património natural, o capital natural e os serviços de ecossistema (1), entre o capital natural, o ecossistema tecno-digital e o ecossistema produtivo (2), entre o ecossistema produtivo e o ecossistema educativo e criativo e o capital simbólico e o capital turístico (3), as ligações destes ecossistemas em termos de escala, intensidade-rede e relações colaborativas entre os principais incumbentes (4).

(continua)

Por António Covas

António Covas é Professor Catedrático Aposentado da Universidade do Algarve

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FONTE: SUL INFORMAÇÃO ALENTEJO

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