OPINIÃO (Joana Coelho): Quando o oceano sobe ao palco

Publicada em: 16/04/2026 18:50 -

O oceano está em perigo. A ciência confirma, os números assustam mas nem toda a gente entende gráficos, relatórios ou palavras como “acidificação” ou “perda de biodiversidade”. E a  verdade é que, para muitos, o problema continua a parecer distante, abstrato e quase invisível. E é aqui que a arte faz aquilo que sabe fazer melhor: aproxima, traduz e envolve não como decoração, mas como um veículo de sensibilização, aprendizagem e mudança. 

A arte tem essa capacidade quase mágica de traduzir temas complexos numa linguagem universal, emocional e acessível, aquela que não precisa de legendas nem de formação académica para ser compreendida, que pode pegar em temas complexos como consumo, lixo marinho, mineração em mar profundo ou sobrepesca e transformá-los em experiências que não só se compreendem mas se sentem. 

Quando falamos de sensibilização e de conservação do oceano, precisamos precisamente disso: novas linguagens para chegar a novos públicos. A proteção do oceano não se faz só em centros de investigação ou em salas de decisão política; a mudança pode e deve existir no dia-a-dia, nas escolhas de consumo, na forma como olhamos para o lixo que produzimos e no valor que atribuímos aos ecossistemas que nos rodeiam.

É neste cruzamento entre ciência, sociedade, sensibilização e arte que o Mar Motto atua como ponte entre o conhecimento científico e as pessoas, usando a comunicação, a educação e a cultura como ferramentas de transformação porque informar é importante, mas envolver é essencial.

O Mar Motto surge exatamente dessa vontade de criar espaços onde o oceano deixa de ser um tema distante e passa a ser uma conversa partilhada. Mais do que um festival, é um conjunto de iniciativas que celebram o mar enquanto levantam questões urgentes sobre o seu futuro e a necessidade da sua proteção. Onde a ciência não sobe a um pedestal mas senta-se à mesa.  

Pode surgir numa conversa depois de um concerto, numa explicação simples enquanto se assiste a uma performance ou numa instalação que fala de alterações climáticas sem precisar de dizer o nome três vezes. O gancho é criativo, mas o impacto é profundamente pedagógico porque quando aprendemos sem dar conta, aprendemos melhor e esse impacto não se mede apenas em números de participantes, mas sim na capacidade de criar conexão, nas conversas que surgem depois, nas perguntas que ficam no ar e nas pequenas mudanças de comportamento. O festival aposta precisamente nisso: despertar envolvimento positivo, estimular a discussão e criar uma sociedade mais informada, mas também mais ligada emocionalmente ao oceano.

Este tipo de abordagem é particularmente importante em territórios como a Ria Formosa, um ecossistema frágil, rico e profundamente ligado à vida das comunidades locais. Proteger a Ria não é apenas proteger espécies e habitats, é proteger modos de vida, saberes tradicionais e um equilíbrio delicado entre pessoas e natureza. A arte, ao dar visibilidade a estas ligações, ajuda a criar empatia e sentido de responsabilidade partilhada.

Num tempo em que o oceano enfrenta ameaças cada vez mais complexas, precisamos de todas as ferramentas disponíveis. A ciência mostra-nos o que está a acontecer, a política cria as regras, mas a arte move as pessoas e ajuda-nos a perceber porque é que isso importa. E sem pessoas envolvidas, não há conservação que resista.

Talvez não seja exagero dizer que, para salvar o oceano, também precisamos de o cantar, filmar, pintar, dançar e celebrar. E talvez seja aí que reside a sua força: lembrar-nos de que o oceano não é apenas um recurso, nem um cenário de verão, mas um sistema vivo do qual fazemos parte. 

Porque só se protege verdadeiramente aquilo a que nos sentimos ligados. 

Por Joana Coelho

Licenciada em Marketing pela Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve, dedicou-se ao associativismo durante a licenciatura, integrando o departamento de comunicação da AAUAlg. Colaborou ativamente na comunicação e planeamento/produção de eventos, o que a motivou a prosseguir a sua formação na área de Design Gráfico na ETIC Algarve. Atualmente, integra a equipa da SCIAENA, onde combina a sua sólida formação e experiência em associativismo, comunicação e produção de eventos com a vontade de desenvolver materiais simplificados, de fácil interpretação e apelativos visualmente.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

 

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