OPINIÃO: Economia criativa, um espelho da coesão territorial (II)

Publicada em: 10/04/2026 13:51 -

No passado dia 19 de março, fui convidado pela Academia da Cultura e da Criatividade da cidade do Porto para proferir, no Museu Soares dos Reis, uma comunicação sobre economia criativa, sustentabilidade e desenvolvimento.

Esta é a segunda parte dessa intervenção, algumas breves reflexões em jeito de conclusões finais:

– Em primeiro lugar, a ligação hipertextual que o património mantém com muitas outras disciplinas e linguagens através da sua capilaridade tecnológica e digital cria as condições contextuais favoráveis para a produção de conteúdos artísticos e culturais de maior valor acrescentado, por exemplo, a valorização das artes e ofícios tradicionais e a denominação dos produtos locais e regionais;

– Em segundo lugar, a tecnologia e a transformação digital podem ajudar a reduzir os efeitos externos de algumas intervenções, por via de alertas e indicadores e nessa medida ajudar a conceber um padrão de internalização desses efeitos, além de que este facto é um grande avanço para a gestão do património natural e cultural, material e imaterial;

– Em terceiro lugar, uma curadoria particularmente atenta acerca do património natural e cultural previne os excessos de uma lógica de patrimonialização e turistificação abusiva, se, para o efeito, definirmos um protocolo de regras, processos e procedimentos, de tal modo que não sejam irreversíveis os danos causados sobre os recursos patrimoniais;

– Em quarto lugar, as novas cadeias de valor gerada pelo processo de patrimonialização e turistificação podem gerar excessos e abusos corporativos com mais precariedade e intermitência de algumas profissões face a outras que é preciso acautelar, por exemplo, entre conservadores, gestores, operadores, animadores e curadores;

– Em quinto lugar, a relação entre valoração e valorização é crítica no processo de patrimonialização e na formação de uma justa cadeia de valor; a valoração reporta-se ao sistema de valores dominante e à respetiva cultura do património e deve ser acautelada por uma adequada medida de valorização, porém, nem sempre é fácil que lhe corresponda uma medida de valorização que respeite aqueles valores e cultura;

– Em sexto lugar, o consenso social e a legitimação simbólica são fundamentais para uma transmissão benigna da herança patrimonial; por esta razão, os processos de classificação, denominação e certificação afiguram-se fundamentais para uma transmissão patrimonial que não ofenda a memória histórica e os recursos potenciais, as terras raras do território;

– Em sétimo lugar, a nova governação das cidades inteligentes e criativas, baseada na cultura digital e na inteligência coletiva territorial, deve fazer prova de vida, também no que se refere à sustentabilidade da relação entre cultura e desenvolvimento; a boa governação política da cidade dependerá em linha direta de muitas decisões tomadas a propósito dos processos de patrimonialização, turistificação e digitalização e seu impacto benigno na qualidade de vida dos cidadãos e na circularidade das cadeias de valor;

– Por último, a notoriedade e visibilidade atribuídas pelas classificações da Unesco, das convenções do Conselho da Europa ou da União Europeia constituem um estímulo fundamental para o estudo científico dos nossos recursos patrimoniais, assim como um instrumento precioso de storytelling e marketing territorial.

Este conjunto de conclusões conduz-nos até à conceção e desenvolvimento do ciclo da economia criativa. Vejamos mais de perto essa sequência:

– Em primeiro lugar, a formação das equipas criativas e o desenho do processo colaborativo entre instituições do ensino superior, serviços públicos locais e regionais, empresários e associações empresariais, associações culturais e autores, onde se incluem os incentivos para atrair uma crescente classe criativa,

– Em segundo lugar, é fundamental a discussão sobre o génio e o espírito do lugar e os sinais distintivos territoriais com maior potencial para serem representados como capital simbólico essencial e elemento fundamental de promoção e marketing territorial,

– Em terceiro lugar, é fundamental o mapeamento das fileiras económicas, cadeias de valor, áreas empresariais, mercados de nicho e denominações de origem com maior potencial e valor acrescentado, mas, também, as artes, ofícios e produções artesanais que acrescentam indicação geográfica e geografia sentimental às produções e serviços convencionais,

– Em quarto lugar, é fundamental o mapeamento das amenidades paisagísticas, dos percursos de natureza, das artes da paisagem, mas, também, das infraestruturas verdes e operações de mitigação e adaptação no combate às alterações climáticas onde se incluem a regeneração e valorização dos serviços de ecossistema,

– Em quinto lugar, é fundamental o mapeamento das fontes de bio resíduos, as boas práticas de bio economia e economia circular aplicáveis, onde também se incluem as produções conjuntas e os bens comuns como imagens de marca e ilustração eloquente do espírito do lugar,

– Em sexto lugar, e com base em todo o processo criativo referido, é fundamental um grande programa educativo e cultural sobre a importância narrativa dos sinais distintivos territoriais, o papel da turistificação dos lugares e a eficácia da comunicação simbólica no desenvolvimento dos lugares e territórios e, bem assim, na qualidade de vida e bem-estar das populações.

Tudo o que dissemos precisa, digamos, de um programa de pós-produção. Com os recursos da inteligência coletiva e da criatividade territorial à nossa disposição, materiais e imateriais, trata-se, agora, de montar um estaleiro de economia criativa, arquitetura e curadoria territorial em direção a um objetivo mais ambicioso, muito para lá das convencionais indústrias culturais de cariz urbano.

Estou convencido de que a convergência entre as transições climática, energética, ecológica e alimentar será o grande motor da relação entre cultura e desenvolvimento e, em especial, a emergência de uma 2ªruralidade, um universo pós-moderno que surgirá por virtude do combate às alterações climáticas, a nova matriz energética e da nova ecologia funcional das relações cidade-campo em matéria agroalimentar, agroambiental e agroturística.

Mesmo a terminar, o nosso conceito de economia criativa, abrangente e multidisciplinar, está perfeitamente ao alcance da inteligência coletiva e da criatividade dos territórios.

De resto, a presente metamorfose do capitalismo tecnológico e digital está a dizer-nos para não perdermos esta grande oportunidade. Uma dessas entradas mais promissoras é, justamente, a relação cidade-campo, o grande universo da 2ª ruralidade e, em especial, as terras raras das áreas de baixa densidade.

Os jovens licenciados têm aqui uma excelente oportunidade para constituir as empresas e as start up da 2ª ruralidade e os exemplos são muito diversificados e complementares: a construção de um sistema alimentar de base local (SAL), uma denominação de origem protegida (DOP), um mercado ou segmento de nicho, um complexo agroturístico com campo de férias e aventura, um sistema ou mosaico agroflorestal (SAF), um centro de ecologia funcional e arquitetura paisagística, um parque agroecológico intermunicipal com objetivos de inclusão social e cuidados terapêuticos, um parque biológico e ambiental em zona de montanha para estudo, visitação e recreio, entre outros exemplos.

No entanto, e para que tal ambição aconteça mesmo, não precisamos de sobrevalorizar a dicotomia entre litoral e interior e extrair daí algum capital de queixa.

Ao invés, precisamos urgentemente de construir plataformas colaborativas de complementaridade entre o litoral e o interior que juntem centros de investigação e jovens investigadores e estagiários, associações de jovens empresários e organizações de produtores, que aumentem a intensidade-rede e o reagrupamento de micro e pequenas empresas e explorações e a sua articulação intersectorial com as escolas superiores agrárias, escolas profissionais agrícolas, associações de artes e ofícios, associações de ambiente, associações culturais e recreativas e, muito importante, os agrupamentos de escolas de cada comunidade.

As Comunidades Intermunicipais (CIM) podem ser o pivot desta nova engenharia colaborativa e associativa e deste movimento em direção à 2ª ruralidade, apoiando a introdução das TIC nas explorações agrícolas, redes de extensão rural e associativa e formação profissional e incentivando a próxima geração de empresários agrícolas, assim como a vinda de neorurais para o mundo rural.

Leia aqui o primeiro artigo desta série.

Por António Covas

António Covas é Professor Catedrático Aposentado da Universidade do Algarve.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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