OPINIÃO: O que sustenta a escola não cabe nas estatísticas

Publicada em: 16/05/2026 19:06 -

Por Alexandre Lima

Começa quase sempre da mesma forma: com um dado técnico, aparentemente neutro, tranquilizador, que rapidamente se transforma em argumento fechado. Portugal tem dos professores com maior preparação pedagógica da OCDE. A notícia foi amplamente divulgada e consumida como um sinal inequívoco de qualidade do sistema educativo.

E, no entanto, quem conhece a escola por dentro sabe que esta conclusão, sendo verdadeira, está longe de ser suficiente. Na verdade, pode até ser perigosamente incompleta.

Porque a questão nunca foi apenas a preparação. A questão é o que se faz com ela todos os dias, dentro de um espaço onde a complexidade humana não cabe em relatórios, nem em rankings, nem em comparações internacionais.

Celebrar estes dados sem perguntar em que condições trabalham estes profissionais é confortável. Mas é pouco sério.

Foi precisamente essa dimensão que um artigo meu publicado recentemente no Sul Informação, sob o título “A escola por dentro: o que quase ninguém quer ver”, trouxe para o centro do debate, expondo aquilo que raramente aparece na análise pública: a realidade concreta, densa e exigente que sustenta o funcionamento das escolas.

E é aí que começa a desconstrução.

A escola não é um espaço linear de transmissão de conhecimento. É um território vivo, imprevisível, onde se cruzam histórias pessoais complexas, fragilidades emocionais, contextos familiares difíceis e expectativas frequentemente desalinhadas com a realidade. E, no centro de tudo isto, está o professor.

Há dias em que ensina. Há dias em que gere conflitos. Há dias em que escuta. E há muitos dias em que faz tudo isso ao mesmo tempo, sem margem para falhar e sem espaço para se proteger do desgaste acumulado.

Um professor pode estar muito bem preparado e, ainda assim, estar profundamente desprotegido.

Num hospital, percebe-se rapidamente que a técnica salva, mas a presença sustenta. A máquina vigia, o procedimento orienta, mas é o olhar atento de quem cuida que devolve segurança a quem está vulnerável. Na escola acontece algo semelhante, embora quase nunca o digamos assim.

A escola não é apenas o lugar onde se ensina; é, cada vez mais, o lugar onde se segura o que a sociedade deixa cair.

É o professor que entra numa sala onde cada aluno traz consigo um universo que não se vê: instabilidade emocional, dificuldades de aprendizagem, ausência de referências, tensões acumuladas. E, ainda assim, há matéria para lecionar, metas para cumprir, avaliações para preparar. No meio desta pressão constante, o professor não ensina apenas conteúdos. Regula comportamentos, gere tensões, intervém em conflitos, orienta percursos e, muitas vezes, assume funções para as quais não foi formalmente preparado, mas que alguém tem de garantir.

E quase ninguém vê.

Nos últimos anos, começaram a surgir sinais que já não podem ser ignorados. Fala-se da necessidade de reduzir a idade da reforma dos professores. Discutem-se níveis elevados de burnout. Observa-se o aumento de baixas médicas e um ambiente cada vez mais exigente dentro das escolas.

Não são episódios isolados. São sintomas.

Sintomas de um sistema que, apesar de contar com profissionais altamente preparados, continua a assentar numa lógica de desgaste progressivo.

O número de professores de baixa cresce. O ambiente em muitas salas de professores torna-se reativo, por vezes tenso, não por falta de compromisso, mas por excesso de exposição constante à exigência, ao conflito, à pressão emocional.

Há uma imagem simples que desmonta qualquer leitura superficial. Num aniversário de uma criança, quando dois adultos recebem uma turma inteira em casa, o esforço para manter o equilíbrio é enorme. Gerir comportamentos, evitar conflitos, garantir que tudo decorre com normalidade. No final do dia, o cansaço é inevitável.

Agora imagine-se isso todos os dias.

Um professor não lida com alunos ideais. Lida com alunos reais. Crianças e jovens que testam limites, que reagem impulsivamente, que entram em conflito, que exigem intervenção imediata, firme e pedagógica. Cabe ao professor criar regras, estabelecer limites e garantir segurança, muitas vezes num contexto em que a continuidade desse trabalho fora da escola não está assegurada.

E depois há uma dimensão ainda mais silenciosa, mas igualmente exigente: a relação com famílias que, também elas pressionadas, chegam à escola carregando inquietações, expectativas e dificuldades que nem sempre encontram outro espaço para serem escutadas. O professor acolhe, escuta, tenta responder.

Mas acumula. E acumular tem um custo.

Por isso, quando se afirma que os professores portugueses são dos mais bem preparados da OCDE, a resposta não pode ser apenas um aplauso.

Tem de ser uma pergunta: Preparados para quê?

Para ensinar conteúdos, sem dúvida. Mas também para suportar, de forma contínua, uma carga humana crescente que raramente entra na discussão pública.

Portugal mede a preparação dos professores, mas não mede a carga humana que lhes pede para suportar. E é aqui que o problema se torna evidente.

Um país que se orgulha dos seus indicadores, mas ignora as condições reais em que esses resultados são produzidos, está a olhar para a escola apenas por metade.

A escola não é um espaço onde tudo corre bem. Nunca foi. É um espaço onde se tenta, todos os dias, fazer melhor com aquilo que se tem.

A diferença é que aqui o erro tem impacto direto em pessoas em formação. E isso eleva a exigência a um nível que raramente é reconhecido fora dos muros da escola.

A questão final é simples, e profundamente desconfortável:  Queremos continuar a olhar para a educação através de indicadores que nos tranquilizam, ou estamos disponíveis para reconhecer aquilo que realmente sustenta o sistema?

Porque, enquanto insistirmos em medir apenas o que é visível, continuaremos a ignorar o que é essencial.

E o essencial, na escola como no hospital, nunca foi apenas saber fazer: Foi sempre saber cuidar.

 

Alexandre Lima

Alexandre Lima é presidente da Escola Portuguesa de Luanda - Centro de Ensino e Língua Portuguesa. Foi delegado regional de Educação no Algarve.


FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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