CULTURA: Em “Grândola, Vila Morena”, há Terras sem Sombra

Publicada em: 22/04/2026 13:23 -

O Festival Terras sem Sombra vai passar, no fim de semana, de 2 e 3 de Maio, pelo concelho de Grândola, com destaque para a atividade em que se revisitará a relação de Zeca Afonso com uma terra que imortalizou como senha do 25 de Abril.

Antes de se tornar a voz da Revolução de Abril e ganhar dimensão universal, «Grândola, Vila Morena», de Zeca Afonso, nasceu num quadro intimista, fruto da passagem do cantautor pela localidade alentejana, em Maio de 1964.

Grândola era então marcada por uma economia rural assente em grandes propriedades. O trabalho agrícola, exigente, era acompanhado por formas de canto coletivo que reforçavam os laços comunitários. Do contacto com esta prática musical partilhada ficou uma impressão perene no autor. «Grândola, Vila Morena» traduz as vivências sonoras e sociais aí observadas de perto, fixando, em forma musical, uma experiência coletiva.

Por ocasião do seu regresso a Grândola, a 2 e 3 de Maio, o Festival Terras sem Sombra (TSS) propõe, do ponto de vista do património cultural, revisitar essa relação entre território, comunidade e criação artística, numa ampla abordagem à presença de Zeca Afonso no concelho. 

«Onde a Voz Ganhou Lugar: Zeca Afonso e “Grândola, Vila Morena”, Senha da Liberdade», ocupa a atividade de Património Cultural, na tarde de sábado, 2 de Maio (15h00).

Com ponto de encontro no Memorial ao 25 de Abril (Praça da Liberdade), a ação é orientada pela historiadora Ana Paula Amendoeira. Trata-se de um momento de revisitação da obra que viria a marcar a história cultural e política portuguesa e que teve a sua génese em Grândola. 

Em 1964, o músico José Afonso – nascido em Aveiro, em 1929 – atuou na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, popularmente conhecida como «Música Velha», onde conheceu, em primeira mão, as práticas de canto coletivo profundamente enraizadas na comunidade local.

Esse encontro revelou-lhe uma forma de expressão marcada pela participação horizontal, pela alternância de vozes e pela ausência de protagonismo individual, características estruturantes do Cante alentejano.

Gravada no início da década de 1970, «Grândola, Vila Morena» viria a adquirir um significado acrescido no contexto da Revolução dos Cravos, tornando-se um dos seus símbolos mais reconhecidos. Ainda assim, a sua origem permanece ancorada naquele encontro inicial, entre um autor e uma comunidade, num momento preciso da história cultural portuguesa. A relação de José Afonso com Grândola prolongou-se para além desse momento inicial. 

Os fonogramas com a “Senha da Liberdade” da Revolução do 25 de Abril, de valor histórico absoluto, foram recentemente classificados, pelo Ministério da Cultura, como Tesouro Nacional.

A componente musical cabe ao ensemble polaco Art’n’Voices, uma das formações mais relevantes, à escala europeia, da nova geração a cappella, reunindo oito excecionais cantores que projetam a tradição coral para uma apurada linguagem contemporânea. 

No que respeita à Salvaguarda da Biodiversidade, a proposta recai na costa alentejana e nos seus frágeis habitats dunares, de elevado valor ecológico, com flora adaptada a solos arenosos e espécies raras, algumas endémicas da costa alentejana. A sua conservação depende de uma gestão informada e de um equilíbrio entre uso e proteção do território.

Nesta apresentação, o TSS conta com a parceria do Município local, da Embaixada da Polónia e da Associação Polaca de Músicos de Câmara. Destaca-se, ainda, o apoio sustentado da Direção-Geral das Artes, do BPI-Fundação «La Caixa», da CCDR-Alentejo e do Ministério da Cultura e do Património da Polónia.

A noite de sábado, 2 de Maio (21h30), propõe um concerto memorável, tendo como palco o Cine Granadeiro – Auditório Municipal.

«Fragmentos do Eu: Oito Vozes, Uma Alma», pelo agrupamento polaco Art’n’Voices, apresenta um programa centrado na criação contemporânea, com arranjos vocais exigentes e uma exploração alargada das possibilidades tímbricas da voz. A presença de obras dos próprios elementos reforça a identidade do ensemble e a unidade estética do conjunto.

Distinguido em numerosos concursos, o Art’n’Voices soma dez prémios Grand Prix, incluindo o Mundus Cantat (2015) e o Music Everywhere (2014), bem como reconhecimentos no Polifonico Guido d’Arezzo (2017) e no Tolosako Abesbatza Lehiaketa (2019). Em 2023, venceu o International a cappella Contest Leipzig. É, sem favor, um dos melhores grupos vocais da Europa na atualidade.

No plano discográfico, participou em dez registos, destacando-se o álbum Midnight Stories, distinguido com o Prémio Fryderyk em 2021. Apresenta-se regularmente em salas de referência europeias e organiza o Festival ArteFonie, dedicado à criação contemporânea e ao diálogo entre artes.

A atividade da manhã de domingo, 3 de Maio (9h30), ruma às praias de Melides e Carvalhal, reproduzindo parte de uma etapa do itinerário botânico de Tournefort, célebre naturalista francês que visitou Portugal no final do século XVII.

A ação de salvaguarda da biodiversidade, sob o tema «Quando as Areias Florescem: Ecossistemas Dunares da Costa Alentejana», conta com a orientação de João Farminhão, investigador da Universidade de Coimbra.

A costa alentejana, em particular o sistema dunar entre a Comporta e a Galé, integra um dos mais relevantes conjuntos de habitats litorais em Portugal. Predomina aqui a chamada flora psamófila, formada por plantas adaptadas a solos arenosos, pobres em nutrientes, expostos ao vento e à salinidade, capazes de fixar as dunas e evitar a erosão. Estes habitats sustentam também uma fauna diversificada, incluindo uma rica comunidade de insetos, essencial à polinização.

São também sistemas frágeis, cujo equilíbrio ecológico se encontra ameaçado por espécies invasoras. A pressão humana, associada à urbanização e ao uso intensivo do litoral, tem vindo a acentuar processos de degradação ambiental. A investigação científica tem permitido mapear estas comunidades e compreender a sua vulnerabilidade, fornecendo bases para estratégias de conservação.

A 16 e 17 de Maio, o TSS apresenta-se em Mértola com o concerto «Pablo Casals e Johann Sebastian Bach: Diversas (Talvez Muitas) Afinidades Eletivas». O palco será entregue à violoncelista suíça Estelle Revaz. 

Todas as atividades são de acesso livre e gratuito.  

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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