OPINIÃO: Braços que abrem, mas não abraçam

Publicada em: 23/04/2026 11:30 -

A metáfora foi-me dita numa manhã como outra qualquer durante uma conversa de cujo impacto me apercebi logo. Surgiu assim, por acaso, numa troca de palavras normal – nem sequer nos era dirigida diretamente a nós que dizemos ser desta terra. Mas ficou, atingiu-me, fez-me pensar, olhar em redor, com um pouco mais de atenção talvez, aos pormenores, ao quotidiano, para tentar que não seja verdade. Nem que seja pura ilusão.

Recorro às notas do telemóvel porque foi também a elas que recorri quando a potência dessa mesma frase me inquietou – e certamente arregalou os olhos.

É uma sensação boa essa, a de ser atingido pela força de uma qualquer palavra que surge para nos abalar. Sabe do que falo, de certeza.

É o espanto de que fala Tolentino Mendonça neste texto. Que nos «obriga a uma revisão do que sabemos de nós próprios e do mundo». Que nos obriga a «recomeçar, como se fosse um nascer».

Para mim, o espanto foi uma comparação, em jeito de metáfora, sobre um povo. O nome não o vou dizer – nem isso interessa. A esse mesmo povo, é imputada uma ideia, até pelos próprios vinculada: têm braços que abrem, mas nunca se fecham.

Não quis discutir a verdade da afirmação – apesar de ter a opinião contrária. Preferi, ao invés, usar a força daquela imagem como o mote para um exercício de análise pessoal, mas essencialmente coletivo. Prometi que andaria atento nos dias subsquentes.

Será que também nós, que dizemos ser de «brandos costumes», temos braços que abrem, mas nunca se fecham?

Tanta coisa me passou pela cabeça desde a promessa dessa manhã: a imbecilidade do regresso das “terapias de conversão”, que, pasme-se, há quem defenda; a defesa de uma ditadura que, ninguém me contou, vi acontecer na televisão num dia de festa da Democracia; o caso, totalmente kafkiano, que me encheu de vergonha, de uma criança estrangeira que teve ordem de expulsão do nosso país.

Depois houve a gentileza com que fui brindado num restaurante, onde, só há dias, reparei que apenas há imigrantes servir à mesa. O constante sorriso com que um deles me brindou ainda cá está guardado.

Ou aquele instante em que, passando à porta de uma escola, decidi por lá ficar uns minutos. Por ser tempo de recreio, fiquei a ver os miúdos a jogar à bola. Entre os nomes que consegui identificar, havia de tudo: muitos estrangeiros, portugueses também, todos a comungar essa democracia que o futebol consegue promover.

Mas depois também houve a tristeza que senti no olhar de uma mulher asiática que passeava, com filho pela mão, numa rua de Faro ao final da tarde.

Não cheguei a nenhuma conclusão – por isso, não dou o caso por encerrado.

Mas parece-me que, sim, ainda abraçamos, mas, cada vez mais, os braços só querem tocar nos nossos. Socorro-me das notas do telemóvel mais uma vez à busca de um texto meu, antigo.

 

Juntamo-nos todos na multidão
A passear muito arranjadas
As nossas dores

Tentamos esquecer-nos delas
Noutros olhos
Noutros braços

Noutros rostos
O nosso.

 

Por Pedro Lemos

Poucas coisas me dão mais gozo na vida do que sentar-me frente a frente com uma pessoa, olhar-lhe nos olhos, escutá-la e ouvir a sua história para depois a verter num texto. Acho que isso diz tudo sobre como vejo e encaro isto do jornalismo, onde ando há quase 10 anos. Sou o Pedro.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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