Por António Covas
Com este pequeno escrito, quero prestar uma singela homenagem ao arquiteto Fernando Santos Pessoa e felicitá-lo pelo Doutoramento Honoris Causa que recebeu, com todo o mérito, da Universidade do Algarve.
Agora que se fala tanto em turismo e em turistificação, agora que o ciclo está na fase ascendente, este é o momento certo para enfatizar dois temas fundamentais e intimamente ligados.
Por um lado, sublinhar a distinção paisagística na configuração dos recursos imateriais, da memória, do imaginário e do património cultural, nas atividades de recreio e lazer, por outro, relevar e prevenir o risco de exploração intensiva desses recursos sensíveis, geralmente de frágil constituição. Não queremos simplificar o problema, tudo precisa de bom senso e bom gosto, tudo merece ser feito com conta, peso e medida.
Neste pequeno escrito vou falar de recursos imateriais e simbólicos associados com a distinção da paisagem, as amenidades rurais, a memória e o imaginário e, no final, uma referência aos jardins do paraíso, em invocação do arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles.
A distinção paisagística
As paisagens tradicionais formaram-se tendo em consideração as características biofísicas do território e a necessidade de obter produtos essenciais às populações, segundo a maneira própria de cada comunidade entender a vida e o mundo.
As paisagens tradicionais, rurais, urbanas e outras, são, pois, um ato de criação, a marca de um povo, a memória de um país, que hoje se prolongam no plano das artes, da contemplação e da poesia.
Hoje, porém, com a vertigem do quotidiano e a velocidade da deslocação, o arco-íris das paisagens tradicionais tornou-se cada vez mais monocromático, um ponto no horizonte igual a tantos outros. Esta dissociação entre a vida e o trabalho, entre a história longa e a história curta, interessa à indústria turística.
As paisagens tradicionais são “embelezadas paisagisticamente” para serem consumidas como produtos turísticos. Podem, mesmo, ser replicadas algures. Se for comercialmente rentável, a turistificação tomará a seu cargo a tarefa de clonar as paisagens tradicionais lá onde for necessário.
Por esta via, que apaga e dissipa as nossas memórias, garante-se a modernização e o progresso!
Em tese, a distinção paisagística significa que uma política de paisagem cria “benefícios de contexto” para o sistema produtivo local da unidade de paisagem que estamos a considerar, o que realça a importância da agrobiologia e agroecologia no desenvolvimento da capacidade produtiva local.
Por agroecologia entende-se a aplicação dos conceitos e dos princípios de funcionamento da ecologia no desenho e gestão dos agro-sistemas que, por essa via, se passam a designar de agroecossistemas.
Nesta matéria, porém, e de acordo com a observação e a experiência, julgo poder dizer o seguinte:
– Não é muito previsível que uma política de paisagem desencadeie as externalidades positivas que o sistema produtivo local espera dela, isto é, uma série de serviços ambientais, culturais e de regulação sobre a sua área de influência e territórios adjacentes;
– Não é muito previsível que um sistema produtivo local seja exemplar do ponto de vista paisagístico, isto é, que tenha internalizado e incorporado todas as boas práticas de lidar com os recursos naturais e o ordenamento do território;
– Não é muito previsível que as várias paisagens coincidam, isto é, que as representações paisagísticas dos atores presentes e ausentes no território forneçam indicações seguras à política pública para promover os seus programas de ação; de resto, a política pública é sempre uma racionalização das mensagens contidas nessas várias representações;
– Não há uma política agroecológica bem estabelecida porque ela não se confunde ou reduz a uma transposição de normativos internacionais e europeus ou a um programa nacional de agricultura biológica;
– Não há uma cultura de ordenamento do território que esclareça qual a importância e a posição destas duas políticas públicas, de paisagem e agroecológica, no desenho e na gestão dos territórios multifuncionais existentes no espaço agro rural.
Dito isto, a nossa tese sobre a distinção paisagística está, aparentemente, num impasse. Todavia, e não obstante as dificuldades, sabemos, também, que em muitos concelhos rurais de baixa densidade, a distinção paisagística e, portanto, a visitação, têm tudo a ver com a promoção dos ensinamentos da engenharia biofísica e arquitetura da paisagem e com a experiência de alguns agroecossistemas já em operação, que podem ter um valor demonstrativo muito elevado e revelar-se fundamentais para o lançamento de infraestruturas ecológicas, cinturas verdes e amenidades e, logo, para a concretização de uma política agro paisagística de efeitos, porventura, surpreendentes.

As amenidades rurais e a eco recreação
As amenidades rurais e a eco recreação são um corolário lógico da distinção paisagística. Sem uma verdadeira política de paisagem, de inspiração agroecológica, não é possível preservar a amenidade e os percursos da eco visitação e respeitar plenamente o ecossistema e os agro-sistemas onde ela se integra.
Como se compreende, esta eco recreação não pode ficar entregue ao capricho dos promotores urbanos que criam produtos turísticos para clientes nostálgicos do campo e da vida campestre.
Por outro lado, a eco recreação é uma componente fundamental de revitalização do sistema produtivo local e a única atividade capaz de substituir a falta de “stock” populacional por um acréscimo de fluxo. Mas tudo com conta, peso e medida, porque esse fluxo não é um recurso renovável se, porventura, a governança local não estiver à altura da sua nova responsabilidade socio-ecológica, em sentido amplo.
Não é fácil fixar definitivamente o conceito de amenidade rural. A amenidade rural é um bem cultural, um património preservado e cultivado pelo homem. Por outro lado, a amenidade rural ganha em ser territorialmente bem delimitada, pois a escala apropriada faz sobressair as suas propriedades e os seus atributos ganham maior visibilidade.
Trata-se, porém, de uma realidade em devir constante, um quadro de vida e uma trajetória da humanidade. Por todas estas conotações ou razões, o valor futuro de uma amenidade rural é muito superior à nossa observação circunstancial. É a sua grandeza que nos surpreende e interpela, por isso a nossa perceção dos seus atributos e qualidades é sempre redutora.
A lista é longa, mas podemos referir alguns exemplos: um parque natural, um povoamento característico, uma ou mais aldeias históricas, um bosque ou uma mata, uma zona de proteção especial, uma linha de água, um sítio histórico, um ecossistema particular, um lugar de recreio, uma reserva biogenética, etc.
A lista é tanto mais longa quanto, como sabemos, as amenidades rurais podem ser “produzidas”. Podemos estar, assim, perante uma “galeria de amenidades”, que se alonga desde a amenidade turistificada, puramente comercial, até à amenidade santuário, bem público puro.
Como é óbvio, o risco existe sempre, e o risco é o abastardamento, a ligeireza do propósito, a captura do recurso sob a forma de um bilhete-postal. A derradeira lembrança.
Os recursos da memória e do imaginário
A distância é curta entre a amenidade e os recursos da memória e do imaginário. O campo do simbólico e o simbólico do campo.
Por uma espécie de efeitos paradoxais cruzados, ou talvez não, os rurais aspiram aos valores urbanos e os citadinos sonham com o imaginário bucólico do campo. De facto, o campo é um território pleno de representações e quanto menos gente lá habita maior é o seu mistério e a sua nostalgia.
Estas representações estão, porém, em vias de se converterem em procuras solventes e comerciais, em produtos turísticos.
Estamos, portanto, num momento crucial, olhando para o nosso rural tardio. Com efeito, no trânsito intergerações, estamos cada vez mais próximos de cortar o cordão umbilical que ligou, durante gerações, a memória e o imaginário da cultura campesina que podia ser observada in situ através de uma ordeira passagem de testemunho feita de “tradição, coração e oração”.
Agora, porém, trata-se de “experienciação e emoções rápidas e furtivas”, e não se descortina quem possa assegurar a passagem do testemunho. Se não o fizermos com prudência e sabedoria a turistificação do território tomará conta da ocorrência.
E, no entanto, todos sabemos que os recursos da memória e do imaginário são ativos de uma economia da cultura do mundo rural que podem ser postos ao serviço do sistema produtivo local e das populações respetivas.
Os jardins do paraíso de Gonçalo Ribeiro Telles
Quando se fala de distinção paisagística, amenidades e recursos da memória e do imaginário é quase obrigatória uma referência aos princípios éticos e estéticos enunciados pelo Arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles (GRT) a propósito dos seus “jardins do paraíso” que são uma espécie de poesia da natureza, um passeio romântico através de uma paisagem de inspiração estético-literária. Passemos em revista esses princípios e apreciemos a sua elegância.
Em primeiro lugar, aposte na “sublimação do lugar” tornando-o ameno e feliz.
Em segundo lugar, invista na “presença da água”, na sua serenidade estética que confere um movimento ritmado e uma dinâmica musical ao jardim.
Em terceiro lugar, invista em espécies que sublinhem a “pujança da natureza e a sua diversidade biológica” e que enaltecem o ritmo da vida.
Em quarto lugar, tire partido da “luminosidade natural dos espaços”, o esplendor da luz é conseguido através do contraste sombra-claridade e da harmonia das cores.
Em quinto lugar, deixe-se influenciar pela “geometria e a profundidade das perspetivas”, o recorte dos sucessivos planos valoriza distâncias e formas.
Em sexto lugar, promova a “integração do jardim na paisagem envolvente” sempre que esta seja ordenada e bela.
Em sétimo lugar, aceite a “ordem natural como base da conceção do jardim”, ou seja, deixe-se inspirar pela ordem da natureza.
Em oitavo lugar, valorize os “aspetos culturais da paisagem”, pois a ordem cultural é a ordem da humanidade.
Em nono lugar, evite os excessos e exalte a” simplicidade no ordenamento das coisas”, não faça decoração pela decoração, ou seja, decorativismo.
Em decimo lugar, um jardim e uma paisagem são fruto de conceções e projetos e nunca de arranjos ou decorações, pelo que a sua “grandeza e beleza decorre do que lhes é essencial na medida certa”.
A eloquência e a elegância destes princípios falam por si. Percebe-se agora melhor a razão pela qual os conceitos de paisagem global e unidade de paisagem presidem à sua conceção do ordenamento e dos sistemas de produção.
Ou seja, com GRT o fator ecológico, o fator produção e o fator cultura não estão compartimentados em “silos administrativos”, antes reclamam uma outra conceção da política administrativa e da administração da política. Tão simples como isso.
Em jeito de síntese, os sinais distintivos territoriais são a imagem de marca de um território. Um desses sinais é a distinção paisagística. Num tempo de “turismo total” não é apenas a gentrificação das vilas e cidades que nos deve preocupar, é, também, a ludificação excessiva e, sobretudo, o critério e o modo como dispomos e usamos recursos escassos como a água, o solo e a vegetação, no fundo a paisagem global que nos acolhe. Não simplifiquemos, pois.
Todos nós somos, cada um à sua maneira, cuidadores da paisagem. Mas não nos iludamos. Há uma literacia própria da paisagem, que necessita de ser convenientemente abordada, sob pena de a nossa perceção da paisagem ser um crime de lesa-pátria e um mau serviço prestado ao país.
Talvez seja o tempo de voltar ao unitarismo de outros tempos, regressando à política e às causas públicas, reabilitando o discurso ideológico sobre a ocupação do nosso território antes que o tenhamos de recuperar num qualquer leilão de ocasião aqui ou no estrangeiro.
Atónio Covas
António Covas é Professor Catedrático Aposentado da Universidade do Algarve.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
