Por Raul Afonso Luz
Há um paradoxo que surge com frequência na realidade empresarial: empresas com resultados positivos enfrentam dificuldades de tesouraria, enquanto outras, apesar de apresentarem prejuízos, aparentam alguma tranquilidade financeira.
Não é uma contradição. É, na maioria das vezes, uma questão de prazos de pagamento.
No acompanhamento próximo das empresas, este é um padrão recorrente. Por um lado, gestores preocupados porque “o dinheiro não chega”, apesar de a atividade ser rentável. Por outro, uma certa desvalorização de resultados negativos, sustentada pela ideia de que “ainda há liquidez”. O problema é que esta leitura pode ser enganadora.
Uma empresa pode vender bem e ter margem, mas, se recebe tarde, acaba por financiar os seus clientes — e isso pressiona inevitavelmente a sua tesouraria.
Pelo contrário, quando os pagamentos a fornecedores são sucessivamente adiados, cria-se uma sensação artificial de conforto, que não reflete a verdadeira situação económica da empresa.
Este desalinhamento entre resultados e liquidez é um dos erros mais comuns na gestão e, muitas vezes, está na origem de decisões que fragilizam o negócio.
Mas o impacto não se esgota dentro de cada empresa.
Quando um pagamento é adiado, essa pressão não desaparece — é transferida. Passa para o fornecedor, que, por sua vez, poderá ter dificuldade em cumprir com os seus compromissos. E assim se gera um efeito em cadeia que percorre toda a economia, penalizando sobretudo as pequenas e médias empresas, que têm menor capacidade para absorver estes desvios.
Mais do que um tema financeiro, esta é uma questão de confiança.
As relações entre empresas assentam, em grande medida, na previsibilidade. Quando se acorda um prazo de pagamento, está implícito um compromisso. O incumprimento desse compromisso não afeta apenas a tesouraria — afeta a credibilidade.
E quando a confiança se deteriora, todo o sistema se torna mais rígido: aumentam as exigências, encurtam-se os prazos, reduzem-se as margens de manobra. A economia perde fluidez e eficiência.
Importa também reconhecer que nem todos os atrasos resultam de dificuldades financeiras. Em muitos casos, são uma prática instalada — uma forma de gerir tesouraria que foi sendo aceite ao longo do tempo, sem grande penalização.
Esse é, talvez, um dos maiores desafios: mudar uma cultura onde o incumprimento é tolerado.
Há ainda uma dimensão menos visível, mas relevante: o impacto na atratividade da economia para investimento.
Quem investe — seja nacional ou estrangeiro — procura previsibilidade, estabilidade e confiança nas regras do jogo. Uma economia onde os prazos de pagamento não são cumpridos de forma consistente transmite exatamente o oposto: incerteza, risco acrescido e dificuldade em antecipar fluxos financeiros.
Este fator, embora muitas vezes subvalorizado, influencia as decisões de investimento. Não sendo o único critério, contribui para tornar o ambiente de negócios menos apelativo, afastando oportunidades que poderiam contribuir para o crescimento e dinamização da economia.
Cumprir prazos de pagamento não é apenas uma questão interna — é também um sinal para o exterior sobre a forma como o mercado funciona. Revela respeito por regras, compromissos assumidos e relações baseadas em confiança.
Mais do que uma obrigação, trata-se de uma decisão de gestão e de um posicionamento claro. Empresas que atuam com previsibilidade tendem a construir relações mais sólidas, gerar maior confiança e, muitas vezes, beneficiar de melhores condições. Porque, no final, a previsibilidade é um ativo.
Neste contexto, o papel de quem acompanha as empresas é também fundamental. Não basta olhar para os resultados — é necessário interpretar a realidade financeira como um todo. Alertar quando a tesouraria não acompanha a rentabilidade, ou quando resultados negativos estão a ser desvalorizados por uma liquidez momentânea, é parte essencial de uma gestão mais consciente.
Promover uma cultura de pagamento pontual exige, acima de tudo, mudança de mentalidade. exige rigor, planeamento e consistência.
Num contexto económico exigente, cumprir prazos de pagamento não é um detalhe operacional. É um fator de estabilidade, um sinal de maturidade e credibilidade e um contributo direto para uma economia mais equilibrada.
No fundo, a forma como cada empresa e agente económico gere os seus pagamentos acaba por dizer muito sobre o tipo de economia que estamos a construir.
Nota: artigo publicado ao abrigo do protocolo entre o Sul Informação e a Delegação do Algarve da Ordem dos Economistas.
Raul Afonso Luz
Raul Afonso Luz, natural de São Brás de Alportel e residente em Faro, é licenciado em Economia e pós-graduado em Finanças Empresariais pela Universidade do Algarve. Membro da Ordem dos Economistas, onde desempenha atualmente o cargo de Secretário da Mesa da Assembleia Regional, é ainda membro da Ordem dos Contabilistas Certificados desde 2003. Ao longo do seu percurso profissional, desenvolveu uma sólida experiência nas áreas da contabilidade e consultoria, trabalhando com empresas de diversos setores de atividade, bem como com entidades do setor social, acompanhando diferentes realidades e desafios no tecido económico.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
