Player
 

 

OPINIÃO: Para que serve ir a uma biblioteca?

Publicada em: 18/05/2026 20:33 -

Por Miguel Salvado

Há uma pergunta que ouço muitas vezes: “Mas para que serve ir a uma biblioteca, se tenho tudo no telemóvel?”

Antes de desenvolver esta questão específica, gostava de partilhar a minha experiência como bibliotecário. Há vinte e cinco anos que trabalho na Biblioteca de Albufeira. Tenho oportunidade de falar com muitas pessoas que vêm à biblioteca. Discretamente, sem indicar formalmente que estou a fazer um inquérito, para deixar as pessoas à vontade, tento perceber porque gostam de frequentar a biblioteca. As respostas são variadas, mas refletem as motivações que levam as pessoas a ir a uma biblioteca, por exemplo:

– Encontrar livros que nem sabiam que existiam;
– Estudar num ambiente tranquilo e gratuito;
– Ter um lugar seguro e calmo para pensar;
– Fazer parte de clubes de leitura;
– Aproveitar o ar condicionado;
– Requisitar livros sem gastar nada;
– Ter acesso a internet e computadores sem custos;
– Ter acesso a livros inacessíveis em livrarias;
– Consultar obras de referência que não estão disponíveis online;
– Pedir recomendações de leitura a bibliotecários;
– Ter acesso a acervos digitais e audiolivros por exemplo: para se ter acesso ao PressReader (plataforma digital que dá acesso gratuito a jornais e revistas nacionais e internacionais) ou ao Biblioled (plataforma digital que dá acesso gratuito a livros digitais, audiolivros…) é necessário estar inscrito numa biblioteca como leitor.

Voltando à pergunta original: “Mas para que serve ir a uma biblioteca, se tenho tudo no telemóvel?” concordo que nunca tivemos acesso a tanta informação como hoje. Em segundos, pesquisamos factos, lemos artigos, ouvimos podcasts, assistimos a documentários. O conhecimento, na sua forma mais imediata, cabe na palma da nossa mão. Então, o que oferece uma biblioteca que o ecrã não dá?

Para além do que já foi dito… a resposta começa, curiosamente, pelo que a biblioteca não tem… Ou seja: não tem notificações, não tem algoritmos a decidir o que devemos ler a seguir, não tem publicidade, não tem o scroll infinito que nos mantém presos sem que percebamos como. Numa biblioteca, o tempo é da pessoa que a frequenta.

Mas há mais… Uma biblioteca é um dos poucos espaços verdadeiramente públicos que restam nas nossas cidades — um lugar onde não é preciso consumir para estar. Não é preciso comprar um café, não é preciso ter dinheiro no bolso. Basta entrar e usufruir das valências da biblioteca. Esta dimensão, aparentemente simples, tem um valor social enorme num tempo em que cada vez mais espaços públicos se tornam privados, comerciais, condicionados.

Por outro lado, numa época em que os livros novos ultrapassam facilmente os vinte euros, a biblioteca continua a ser o grande nivelador. A experiência da BIBAL (Rede Intermunicipal das Bibliotecas do Algarve), demonstra-o: dezasseis bibliotecas municipais, e uma universitária garantem que, do litoral ao interior, ninguém deixa de ter acesso à cultura ou ao conhecimento por falta de meios financeiros.

Para as crianças, a biblioteca é muitas vezes o primeiro encontro com o prazer da leitura fora de um contexto escolar — sem notas, sem obrigações, sem pressão. É o lugar onde um livro pode ser escolhido por curiosidade pura, pela capa que chamou a atenção, pelo título estranho que provocou uma pergunta. Este tipo de encontro — livre, acidental, sem agenda — é precisamente o que os algoritmos não conseguem replicar. Um algoritmo recomenda o que é parecido com o que já conhecemos. Uma biblioteca convida-nos ao desconhecido.

Para os adultos, a biblioteca é frequentemente um espaço de concentração que já não existe em casa nem no trabalho. Um lugar onde é possível ler durante uma hora sem interrupções, estudar sem distrações, pensar com calma. Num mundo que valoriza a velocidade acima de tudo, a biblioteca oferece o contrário: a possibilidade de ir devagar.

As bibliotecas, neste caso, as algarvias transformaram-se em centros culturais vivos é disso exemplo o trabalho colaborativo, partilha de recursos, programação conjunta que redes como a BIBAL têm desenvolvido, como é caso de “Uma Noite na Biblioteca” para assinalar o Dia Internacional do Livro Infantil (2 de abril) ou a exposição: “Patronos das Bibliotecas” a circular por vários concelhos algarvios, enaltecendo figuras locais ligadas ao saber e à memória.

Quem entra, numa biblioteca, para imprimir um documento, pode… inesperadamente… encontrar um romance que queria ler, ter uma indicação para assistir a uma determinada palestra ou um contacto para um clube de leitura.

Tudo isto para dizer que: ir a uma biblioteca é mais do que folhear livros em silêncio — é participar num dos espaços públicos mais democráticos, acolhedores e inspiradores que existem.

A resposta à pergunta “Para que serve ir a uma biblioteca?” depende do que se procuramos…

Se queremos um livro específico agora, a livraria online vence. Se queremos mergulhar sem rumo, deixar que o acaso nos guie pelas estantes, ou simplesmente precisamos de um espaço que nos devolva à concentração, a biblioteca permanece insubstituível.


NOTA: Artigo publicado no âmbito da parceria entre o Sul Informação e a BIBAL – Rede Intermunicipal das Bibliotecas do Algarve

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

 

Compartilhe: x
COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!
Carregando...