CIÊNCIA: Oceanos batem recorde de calor e acendem novo alerta global
Por Elisabete Rodrigues
A temperatura média diária da superfície dos oceanos atingiu um novo máximo histórico, chegando aos 21,1 graus Celsius no dia 22 de agosto e ultrapassando o anterior recorde, registado em março de 2024.
Os dados foram confirmados esta segunda-feira, 24 de agosto, pelo Serviço de Alterações Climáticas Copernicus (C3S), que alerta para um oceano sujeito a uma pressão crescente.
O novo máximo supera, ainda que por uma centésima de grau, os 21,09ºC alcançados em 2024. A diferença pode parecer reduzida, mas ganha relevância quando inserida numa tendência prolongada de aquecimento dos oceanos e numa sucessão de temperaturas mensais muito elevadas observadas ao longo de 2026.
Há ainda um elemento invulgar: o recorde aconteceu em agosto. Habitualmente, a temperatura média dos oceanos à escala global atinge os valores mais elevados em março e abril, depois do verão no Hemisfério Sul. Até agora, o agosto mais quente tinha sido registado em 2023, quando a média diária chegou aos 20,98ºC.
Os valores referem-se à temperatura média da superfície do oceano entre 60 graus Sul e 60 graus Norte, excluindo, portanto, as regiões polares. São obtidos através do conjunto de dados ERA5, produzido pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF). Para o acompanhamento no Climate Pulse, o Copernicus utiliza dados desde 1979, período considerado mais fiável devido à disponibilidade de observações por satélite.
«Um oceano sob pressão crescente»
Para Samantha Burgess, responsável estratégica para o Clima no ECMWF, o novo máximo não deve ser analisado como um episódio isolado.
«Este recorde é mais um sinal claro de um oceano sob pressão crescente», afirma. Embora o El Niño esteja agora a acrescentar calor ao sistema climático, sublinha, isso acontece «sobre décadas de aquecimento provocado pela atividade humana».
A cientista chama ainda a atenção para consequências que já estão a ser observadas: «À medida que as temperaturas dos oceanos continuam a subir, aumentam também os riscos para os ecossistemas marinhos e as comunidades costeiras».
Segundo Burgess, «o número de dias de ondas de calor marinhas à escala global mais do que triplicou desde o início da década de 1990», aumentando a pressão tanto sobre os ecossistemas como sobre as populações e atividades económicas que deles dependem.
El Niño acrescenta calor a oceanos já aquecidos
A situação é agravada pelo desenvolvimento de um forte episódio de El Niño no Pacífico tropical. Este fenómeno climático natural caracteriza-se pelo aquecimento das águas superficiais de partes do Pacífico equatorial e tem repercussões nas temperaturas e nos padrões de precipitação em diferentes regiões do planeta.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou, no final de julho, que está em desenvolvimento um El Niño forte e prevê que continue a intensificar-se entre agosto e outubro de 2026. A organização aponta para uma elevada probabilidade de temperaturas acima da média em grande parte do mundo e para alterações importantes nos padrões de precipitação.
As previsões multimodelo utilizadas pela OMM indicam que as anomalias médias sazonais da temperatura da superfície do mar poderão atingir cerca de 2,9ºC nas principais regiões de monitorização do El Niño entre agosto e outubro, com uma trajetória de intensificação que poderá culminar em novembro.
O Copernicus salienta, contudo, que o El Niño não explica sozinho aquilo que está a acontecer. O fenómeno está a atuar sobre um oceano que já aqueceu ao longo de décadas devido às alterações climáticas provocadas pelas atividades humanas.

Oceanos mais quentes, nível do mar mais elevado
As consequências ultrapassam largamente a temperatura da água. Um oceano mais quente contribui para a subida do nível médio do mar através da expansão térmica: à medida que aquece, a água aumenta de volume.
Isso representa um risco acrescido para comunidades costeiras e pequenas ilhas, sobretudo quando combinado com tempestades, erosão costeira e outros efeitos da subida do nível do mar.
O aquecimento aumenta igualmente a probabilidade e intensidade das ondas de calor marinhas. Estes episódios podem afetar ecossistemas como recifes de coral e pradarias marinhas, com repercussões nas cadeias alimentares e em atividades económicas dependentes do mar, entre as quais a pesca e a aquacultura.
Mais calor e humidade disponíveis para a atmosfera
As temperaturas elevadas da água podem ainda influenciar os fenómenos meteorológicos extremos. Quanto mais quente estiver o oceano, maior é a quantidade de calor e humidade que pode transferir para a atmosfera, criando condições capazes de intensificar a precipitação e determinados sistemas de tempestades.
A OMM antecipa precisamente que o forte El Niño provoque alterações significativas nos próximos meses: algumas regiões poderão enfrentar condições mais húmidas, enquanto noutras aumentará o risco de seca.
Existe ainda outro efeito climático importante. À medida que aquece, o oceano torna-se menos eficiente na absorção de dióxido de carbono da atmosfera, podendo enfraquecer um dos principais mecanismos naturais que ajudam a limitar a acumulação de CO₂ e, consequentemente, o aquecimento global.
Um recorde que ainda precisa de ser acompanhado
Os investigadores do ECMWF que trabalham para o Copernicus estão agora a acompanhar a evolução das temperaturas para perceber se a ultrapassagem do recorde será temporária ou persistente.
O valor de 21,1ºC resulta da reanálise ERA5, um sistema que combina grandes quantidades de observações meteorológicas e oceânicas com modelos para produzir uma representação consistente da evolução do clima. No caso destes cálculos, a temperatura utilizada corresponde à chamada foundation temperature, uma estimativa da temperatura do oceano a cerca de dez metros de profundidade. Por esse motivo, os resultados podem diferir dos obtidos por outros sistemas que meçam ou estimem a temperatura a profundidades diferentes.
Os dados podem ser acompanhados praticamente em tempo real através do Climate Pulse do Copernicus, que permite comparar temperaturas do ar e do oceano, consultar mapas e séries temporais e confrontar os valores atuais com a média climática de 1991-2020. A plataforma apresenta dados com apenas cerca de dois dias de diferença em relação ao presente.
O novo recorde diário, sublinha o Copernicus, deve ser interpretado no contexto mais amplo da evolução climática. Mas, entre um El Niño em intensificação, décadas de aquecimento provocado pelas emissões humanas e a multiplicação das ondas de calor marinhas, os 21,1ºC registados a 22 de agosto constituem mais um indicador de que o calor acumulado nos oceanos continua a aumentar.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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