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Costa portuguesa pode guardar milhões de toneladas de CO₂ no subsolo

CIÊNCIA

Costa portuguesa pode guardar milhões de toneladas de CO₂ no subsolo

Um reservatório geológico identificado pela Universidade de Évora na Bacia Lusitaniana, poderá ter capacidade para armazenar pelo menos 93 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂).

O local, situado no mar, a cerca de 22 quilómetros da costa, na zona da Figueira da Foz, poderá receber um projeto-piloto destinado a testar esta tecnologia em Portugal, com uma primeira injeção experimental prevista para 2031 ou 2032.

Os estudos foram desenvolvidos pela Universidade de Évora no âmbito do projeto PilotSTRATEGY, em colaboração com a GALP e o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

A investigação permitiu passar de uma avaliação mais genérica do potencial nacional para a identificação de um reservatório concreto onde o armazenamento geológico de CO₂ poderá ser testado.

«Temos identificado e estudado um local concreto onde poderá ser realizado um projeto-piloto de armazenamento geológico de CO₂ em Portugal», explica Júlio Carneiro, professor do Departamento de Geociências da Universidade de Évora, investigador do CREATE e responsável pelo projeto.

A solução consiste em injetar o dióxido de carbono a cerca de 1200 metros abaixo do nível do mar, num reservatório de arenito, descrito pelo investigador como «uma rocha porosa com bastante permeabilidade». O CO₂ ficaria retido nos poros existentes entre os grãos da rocha, atualmente preenchidos por água com elevada salinidade.

Por cima deste reservatório, encontram-se formações rochosas com permeabilidade muito baixa, que funcionam como uma espécie de barreira natural, impedindo a migração do dióxido de carbono para a superfície. Ainda assim, antes de avançar para a fase experimental, os investigadores querem conhecer com maior detalhe a geologia do local e avaliar possíveis riscos.

«A prioridade é efetuar uma campanha de prospeção sísmica 3D que permita conhecer melhor a continuidade das formações geológicas em profundidade e identificar eventuais falhas que possam constituir um risco de fuga do CO₂», salienta Júlio Carneiro.

O calendário traçado prevê que essa prospeção sísmica seja realizada em 2027 e 2028, seguindo-se a perfuração de um poço de injeção em 2030. A injeção experimental decorreria durante cerca de 12 meses, em 2031 ou 2032, e seria seguida por uma fase de monitorização que deverá prolongar-se, pelo menos, até 2034.

O cumprimento destes prazos depende, porém, da obtenção de financiamento, das autorizações e dos resultados de cada uma das etapas.

Apesar de o reservatório apresentar uma capacidade de referência superior a 93 milhões de toneladas, o objetivo inicial está longe de atingir essa escala. O projeto-piloto deverá injetar menos de 100 mil toneladas de CO₂ e terá uma finalidade exclusivamente científica, permitindo confirmar a capacidade real de injeção, observar o comportamento do gás no reservatório, avaliar as alterações de pressão e testar a eficácia das formações geológicas que funcionam como barreira.

CO₂ poderá viajar de comboio e navio

Uma das hipóteses em estudo passa por utilizar CO₂ capturado na cimenteira de Souselas, perto de coimbra. O dióxido de carbono seria transportado de comboio, em contentores criogénicos, até ao porto e, posteriormente, levado de navio até ao reservatório. O próprio navio faria a ligação ao poço para permitir a injeção.

«Esta solução permite testar a cadeia com um mínimo de infraestrutura permanente, sem necessitar de uma plataforma offshore ou gasodutos», explica Júlio Carneiro. O projeto-piloto tem um custo estimado de cerca de 98 milhões de euros, podendo oscilar entre 90 e 120 milhões. Estes valores não incluem a unidade necessária para capturar o CO₂ na fábrica de Souselas.

A investigação não se limita, contudo, ao reservatório identificado. Em paralelo, o projeto CTS – Carbon Transport and Storage analisou diferentes cenários para a criação futura de uma infraestrutura nacional destinada ao transporte e armazenamento de dióxido de carbono, incluindo redes de gasodutos e sistemas que combinem tubagens com transporte marítimo.

Entre os potenciais utilizadores desta tecnologia encontram-se sobretudo as indústrias do cimento e da cal, setores nos quais é particularmente difícil eliminar as emissões de CO₂. A solução poderá também interessar à indústria da pasta e do papel, sobretudo quando estiver em causa dióxido de carbono de origem biogénica

Júlio Carneiro considera que o armazenamento geológico poderá ser uma opção precisamente para atividades industriais em que outras soluções de descarbonização não sejam suficientes.

«Continuar a investigação sobre captura e armazenamento de CO₂ é essencial para sabermos em que condições esta tecnologia pode contribuir para esse objetivo e para manter em Portugal a atividade dos setores de difícil descarbonização», afirma.

O investigador recorda ainda que já existe legislação para o armazenamento geológico de dióxido de carbono, embora um projeto-piloto possa contribuir para clarificar procedimentos e competências das diferentes entidades antes de uma eventual utilização comercial da tecnologia.

Antes de se pensar numa infraestrutura industrial de grande escala, será necessário confirmar no terreno aquilo que, até agora, foi apurado através dos modelos geológicos e das simulações. É precisamente essa a função do piloto: fazer a passagem da investigação e dos modelos para a demonstração experimental de que é possível armazenar CO₂ de forma segura no subsolo marinho português.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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