No Cotifo, as crianças plantam árvores e o Emraizart cria raízes
CULTURA
Por Elisabete Rodrigues
«Falta água!». A resposta sai quase em coro. Mas há quem tenha estado ainda mais atento: «E falta pôr palha em cima, para que a água não evapore». No meio dos sobreiros do Cotifo, um grupo de crianças acaba de plantar um medronheiro e aprende, com as mãos na terra, que fazer nascer uma árvore exige mais do que abrir um buraco.
Foi assim, entre descobertas, gargalhadas, circo, mímica, teatro e natureza, que ontem começou a 6.ª edição do Festival Emraizart, que até dia 13 de outubro transforma este recanto do interior do concelho de Lagos numa espécie de grande palco sem paredes.
Os caminhos são marcados com pedaços de cortiça. Por todo o recinto, há sinais de que aquele montado não é apenas o cenário onde decorre o festival: é parte dele. E até os avisos sobre o risco de incêndio entram na experiência. «Se uma faísca pegasse na floresta?», pergunta um dos cartazes espalhados pelo espaço. «Quando a Floresta arde, perdemos o que é de todxs!», lê-se noutro.
Nesta terça-feira, primeiro dia do Emraizart, o público era sobretudo de pequena estatura. Alunos das escolas de Lagos chegaram ao Cotifo para experimentar oficinas, assistir a espetáculos e, sobretudo, fazer coisas que nem sempre cabem dentro de uma sala de aula.
Entre eles estava uma turma do 3.º ano da Escola EB1 do Bairro Operário, facilmente identificável pelos bonés cor de laranja, acompanhada pela auxiliar Sandra e pelo professor Rui Castro. Para este professor, o Emraizart já não é propriamente uma novidade: esteve nas seis edições.
«Este contacto com a natureza, o meter as mãos na terra, é fundamental para as crianças», disse ao Sul Informação. Na sua escola existe também um espaço de terra onde os alunos podem brincar e, todos os anos, há atividades na Mata de Barão de São João. Mas vir ao Cotifo acrescenta outras experiências. «As crianças precisam deste contacto com a natureza».
Há ainda outra aprendizagem que Rui Castro considera importante e que pouco tem que ver com decorar matérias. «Os miúdos são cada vez mais individualistas», observa. Por isso, considera muito útil que aqui possam «trabalhar a criatividade em conjunto, partilhar ideias, aprender a aceitar as ideias dos outros». E não se trata de um intervalo no trabalho escolar: «Tudo isto está adaptado ao nosso currículo», desde a educação ambiental ao contacto com a natureza e à construção.
Medronheiros e «árvores companheiras»
É seguindo um desses caminhos delimitados por cortiça que se chega a uma das oficinas de permacultura. Ali, a artista e monitora Maria João Alcobia acaba de orientar a plantação de um medronheiro.
Terminado o trabalho, há ainda um ritual. «Vamos dar as mãos, vamos dar energia a esta arvorezinha que acabámos de plantar», propõe.
As crianças obedecem, dão as mãos e cercam a pequena árvore entre risos e gritinhos. Mas a tarefa ainda não acabou. Maria João pergunta-lhes o que falta dar ao medronheiro. Já tem um sítio para viver. Que mais será necessário?
«Falta água!», respondem.
E logo surge a explicação sobre a palha que ajuda a impedir que essa água desapareça depressa do solo.
Uns metros ao lado, a guia de natureza Ana Carla Conceição tem outro grupo ocupado à volta de mais um medronheiro recém-plantado. Todos querem pegar no garrafão com água, para o regar, mas há primeiro uma pequena experiência a fazer.
Ana Carla apanha algumas bolotas caídas de um sobreiro próximo e coloca-as junto do medronheiro. «Vamos pôr aqui estas bolotas, elas ficam assim deitadas e depois acontece a magia. Sabem qual é?»
«Nasce outra árvore!», responde uma menina.
Mas qual? Depois de alguma hesitação coletiva, chega a palavra: «So… so… sobreiro».
A explicação transforma rapidamente a diversidade da floresta numa ideia que as crianças conhecem bem: «Assim como vocês são diferentes uns dos outros, na floresta há árvores diferentes». O medronheiro e o futuro sobreiro, explica Ana Carla, são «árvores companheiras».
A imagem resume boa parte da filosofia do Emraizart. O festival promovido pelo Teatro Experimental de Lagos (TEL) cruza artes performativas, educação e ambiente num montado de sobreiros, procurando criar experiências em que brincar, experimentar e aprender dificilmente se conseguem separar.
Duas semanas para construir uma semana de festival
Por detrás daquela aparente espontaneidade há muito trabalho. Berna Huidobro, diretora artística do Emraizart, conta que foram necessárias duas semanas para montar o espaço onde decorrerá uma semana de festival.
Tudo foi feito, sublinha, com «imenso respeito por este local maravilhoso» e através de um trabalho de equipa que reúne portugueses e pessoas de várias nacionalidades. «Se temos um desafio, na equipa resolvemos, de forma muito orgânica, pensando em conjunto».
Berna é chilena. Como foi parar ao Cotifo? «Por causa do amor», respondeu, entre risos, quando o Sul Informação lhe fez a pergunta.
Mas ficar no Algarve teve outras razões. «Se tivesse ido para Lisboa ou para o Porto, teria mais oportunidades, mas aqui há muito mais para fazer em termos artísticos, há pessoas lindas e abertas, há um Município aberto às nossas ideias», explica.
É essa escala de proximidade que a diretora artística valoriza. Numa grande cidade, diz, seria muito mais difícil construir as relações que ali surgem de forma natural. A Câmara montou o palco, mas os vizinhos também participam: cedem terrenos para estacionamento e até construíram as aves de madeira que decoram o recinto.
A presidente do TEL, Nelda Magalhães, sublinha a mesma preocupação. Há um «respeito muito grande pelo espaço, pelos caminhos que existem, pelas árvores que aqui estão». Mais do que instalar um festival numa floresta, acrescenta, pretende-se construir «todo um processo de relação com a natureza que queremos respeitar».
Um festival no interior que já olha para fora
Para José Viegas, chefe da Divisão de Cultura da Câmara Municipal de Lagos, o Emraizart tornou-se «uma referência a nível nacional e mesmo internacional» nas artes performativas dirigidas ao público infantojuvenil.
Mas há um aspeto que considera também relevante: o festival não acontece na cidade de Lagos, mas no interior do concelho, num espaço de grande importância ambiental.
José Viegas destaca ainda o caráter intergeracional da iniciativa e o encontro entre a comunidade escolar e a comunidade artística, num «diálogo permanente» que permite a troca de experiências. O trabalho com crianças e jovens, a criação de públicos, a sustentabilidade ambiental e a sensibilização das famílias para o território são, segundo o responsável municipal, dimensões fundamentais do projeto.
Há também a multiculturalidade, tema central desta sexta edição. Pelo Cotifo passam artistas de vários países, ao mesmo tempo que o programa integra criadores que vivem e trabalham no concelho e na região.
Para José Viegas, projetos deste género têm um «impacto social e transformador» acrescido quando acontecem no interior. E a cultura, defende, deve precisamente «ser transformadora, criar pontes e abrir janelas», contribuindo para a coesão e a partilha «num momento tão difícil da humanidade».
No fim de semana, o Cotifo é das famílias
Até 13 de outubro, o Emraizart continua a receber escolas. Nos dias 6, 7, 12 e 13, a programação entre as 10h00 e as 14h30 é dirigida aos alunos do ensino público do concelho de Lagos, enquanto 8 de outubro é reservado a escolas privadas, ensino não formal, instituições que trabalham com crianças com diferentes capacidades, projetos sociais e escolas públicas exteriores ao concelho.
Para os mais novos há «Cabaret de Circo», «Histórias sem Palavras» e «Cafelína», animação itinerante com «Bolota e Cortiça» e oficinas abertas de circo, construção criativa, permacultura e teatro. Em paralelo, o festival promove formação para professores, na procura de novas metodologias de aprendizagem ligadas à natureza.
Mas será sobretudo no fim de semana de 10 e 11 de outubro que o montado do Cotifo se abre às famílias. E a ideia não é apenas sentar os mais pequenos diante de um palco: o programa convida crianças, pais, avós e outros visitantes a passar uma tarde inteira entre árvores, artes performativas, jogos, circo, música e espaços de convívio. O recinto dispõe ainda de aparelhos de circo, jogos tradicionais e zona de piquenique.
No sábado e domingo, as tardes começam às 15h00, com música do mundo pelo DJ Kali. Às 15h30 chega «Cafelína», da argentina Lucia Merlina, um espetáculo que cruza circo e pintura com café. Às 17h30, o francês Philippe Phénieux apresenta «Histórias sem Palavras», baseado no mimo corporal, seguindo-se, às 18h30, «GAP42», dos alemães Chris & Iris, entre circo, teatro físico e teatro de objetos.
Às 19h00, nos dois dias, o fecho musical cabe aos brasileiros Sambambas. Pelo meio, haverá conversas sobre Arte e Educação — no sábado centrada em Portugal e no domingo em África — e serão apresentados processos de criação resultantes de residências artísticas do Bora Cultura!, programa do TEL dedicado ao apoio à criação e ao desenvolvimento de artistas locais.
As manhãs do fim de semana incluem ainda formação para jovens e adultos: «Dramaturgia para a Infância», com Manuela Pedroso, no sábado, e «Mimo corporal dramático», com Philippe Phénieux, no domingo.
No total, esta edição soma 35 oficinas de Arte e Natureza, 21 espetáculos e duas conversas, juntando artistas nacionais, internacionais e criadores emergentes da região.
Mas, no primeiro dia, os grandes protagonistas não precisavam de palco. Bastavam-lhes um medronheiro, algumas bolotas, um pouco de palha, um garrafão de água, pedras e canas.
E, depois de aprenderem que uma floresta também se faz de «árvores companheiras», havia ainda muito Cotifo para descobrir.
Elisabete Rodrigues | Sul Informação
Nasci em Lisboa, mas sou algarvia desde tenra idade. Foi em Lisboa que estudei Comunicação Social e foi também lá que iniciei a minha carreira, em 1985, n'«O Jornal». Passei pelas agências Notícias de Portugal e Lusa, e pelos jornais Independente, Diário de Notícias e Barlavento. Foi daí que saí para, com dois colegas, fundar, em setembro de 2011, o jornal online Sul Informação, do qual sou diretora. Já ganhei vários prémios de jornalismo, a maioria dos quais individualmente, mas também em equipa. Tenho ainda dado aulas a futuros jornalistas (e não só). Nos meus (poucos) tempos livres, dedico-me à fotografia, às caminhadas, à leitura ou simplesmente a não fazer nada, sendo capaz de estar meia hora a olhar para as folhas de uma árvore ou as nuvens do céu. Infelizmente, tenho muito pouco tempo para nada fazer...
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

Comentários