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CIÊNCIA: Novo estudo revela que Neandertais europeus descendem de uma única população

Publicada em: 25/03/2026 12:07 -

Um estudo recente, que contou com a colaboração dos investigadores Alvise Barbieri, Ricardo Miguel Godinho e Flora Schilt do Centro Interdisciplinar de Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano (ICArEHB) da Universidade do Algarve, mostra que os últimos Neandertais na Europa, antes do seu desaparecimento há cerca de 40 mil anos, descendiam de uma única linhagem genética.

Liderado por Cosimo Posth, do Senckenberg Center for Human Evolution and Palaeoenvironment, da Universidade de Tübingen (Alemanha), o estudo combina novos dados de ADN com evidência arqueológica e os resultados foram publicados na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Com base na análise de material genético transmitido pela linha materna (ADN mitocondrial), a partir de dentes e ossos de Neandertais, os investigadores conseguiram sequenciar ADN de dez indivíduos, até então não estudados, provenientes de seis sítios arqueológicos distribuídos pela Bélgica, França, Sérvia e Alemanha.

«Entre outros resultados empolgantes, este trabalho permitiu-nos recuperar ADN mitocondrial de um indivíduo excecionalmente jovem (provavelmente um feto), um dos Neandertais mais jovens alguma vez identificados», afirmou Alvise Barbieri, que lidera a investigação no abrigo rochoso de Sesselfelsgrotte, na Alemanha, com o financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e da National Geographic Society.

As investigações anteriores já sugeriam que as populações de Neandertais mais antigas e amplamente distribuídas na Europa tinham, em grande parte, desaparecido. Contudo, os novos resultados indicam que um pequeno grupo sobreviveu ao refugiar-se numa área de refúgio climático no que é hoje o sudoeste de França, há cerca de 75 mil anos, estimando-se que, há cerca de 65 mil anos, os seus descendentes tenham-se expandido por toda a Europa. Como resultado, a maioria dos Neandertais tardios partilha uma linhagem genética comum.

No entanto, esta população sofreu, posteriormente, um declínio acentuado. O novo estudo mostra uma diminuição rápida do número de indivíduos entre há 45 mil e 42 mil anos, pouco antes da extinção dos Neandertais.

Os novos dados apresentados neste estudo foram analisados em conjunto com 49 genomas mitocondriais de Neandertais previamente publicados. A equipa integrou também evidência arqueológica, proveniente da base de dados ROAD, desenvolvida pelo projeto ROCEEH da Academia de Ciências de Heidelberg, do Instituto de Investigação Senckenberg e da Universidade de Tübingen.

Ainda no que diz respeito aos resultados, a investigação sugere que as condições severas da Idade do Gelo, há cerca de 75 mil anos, reduziram drasticamente as populações de Neandertais na Europa. Ao mesmo tempo, os sítios arqueológicos tornaram-se menos numerosos e cada vez mais concentrados no sudoeste da Europa.

«Os nossos dados mostram que os Neandertais recuaram para o que é hoje o sudoeste de França», afirmou Cosimo Posth. «A partir daí, surgiu uma nova população há cerca de 65 mil anos, que mais tarde se expandiu por toda a Europa», diz.

Esta expansão explica por que razão a maioria dos Neandertais tardios, desde a Península Ibérica até ao Cáucaso, pertence à mesma linhagem mitocondrial, apontando para uma grande substituição genética.

Recorrendo a modelação estatística, os investigadores testaram também se as alterações na diversidade genética poderiam ser explicadas por uma população de dimensão estável, mas os resultados mostraram o contrário, ou seja, demonstram que houve um declínio populacional acentuado e rápido nos últimos milénios antes da extinção.

«Do ponto de vista genético, os Neandertais tardios constituíam um grupo altamente homogéneo», sendo que «a baixa diversidade genética, combinada com o crescente isolamento, pode ter contribuído para o seu desaparecimento».

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