O Conselho Nacional para a Inovação Pedagógica no Ensino Superior (CNIPES) propõe a criação de uma Plataforma de Práticas Pedagógicas para a Inteligência Artificial (IA) que apoie a coordenação entre instituições de ensino superior, num contexto em que a adoção destas ferramentas está a avançar mais depressa do que a definição de regras claras e consistentes.
A proposta surge na sequência de um diagnóstico nacional que revela um desfasamento significativo entre a rápida adoção de IA e a ausência de enquadramento institucional consolidado. Em muitas instituições, a implementação já ultrapassa a formalização, sendo que apenas 14,7% reportam políticas institucionais em prática.
O estudo mostra que a IA já está amplamente presente no ensino (52,9%) e na investigação (42,6%), embora de forma maioritariamente fragmentada e localizada, com menor expressão na gestão institucional.
Segundo o relatório, esta adoção sem governação estruturada expõe o sistema a vários riscos, em particular à chamada “fragilidade epistémica” — a produção de conteúdos plausíveis, mas potencialmente incorretos ou enviesados. Neste contexto, a validação humana e a responsabilização institucional são apontadas como elementos críticos.
A Plataforma proposta pelo CNIPES pretende responder a estes desafios, promovendo a partilha de práticas, a produção de evidência comparável e o apoio à capacitação das instituições, com o objetivo de passar de uma adoção dispersa para uma abordagem mais coerente e sustentada.
O diagnóstico identifica ainda desequilíbrios relevantes, como o crescimento do uso sem mecanismos consistentes de verificação, a proliferação de projetos-piloto sem avaliação longitudinal e a ausência de critérios comuns entre instituições.
Para reforçar a resposta institucional, o estudo recomenda a adoção de políticas baseadas em cinco princípios: mediação humana, verificação, transparência, literacia afetiva e decisão informada por evidência.
O relatório conclui que o ensino superior português entrou numa nova fase, em que o desafio deixou de ser a adoção da IA e passou a ser a sua governação. Segundo Sandra Soares, coordenadora do grupo de IA no CNIPES, “já não se está a decidir a utilização da IA, mas sim como a usar de forma estruturada e responsável”.
O documento resulta da análise de 30 estratégias internacionais, 191 estudos empíricos e um inquérito a 68 instituições nacionais e foi coordenado pelo Professor Nelson Zagalo, da Universidade de Aveiro.
Sobre o Conselho Nacional para a Inovação Pedagógica no Ensino Superior | CNIPES
O CNIPES é um órgão independente, de natureza consultiva, com representação plural do ensino superior, criado no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com a missão de promover a inovação e a formação pedagógicas como dimensões estruturantes da educação superior, respondendo aos desafios contemporâneos de qualidade, inclusão e impacto da educação superior portuguesa.
Empossado em fevereiro de 2025, o Conselho integra representantes do ensino superior universitário e politécnico, público e privado, estudantes, especialistas nacionais e internacionais em áreas como inovação pedagógica, inclusão, inteligência artificial e sucesso estudantil.
FONTE: CNIPES - NOTA DE IMPRENSA
