Por Fernando Santos Pessoa
Em democracia, o Estado deve ser progressivamente mais educativo e menos repressivo, e aproveitar o saber de experiência feito para melhorar a governança.
Desta vez, começo por temas sobre que normalmente não escrevo, mas, no fundo, acabo por bater a mesma tecla…
Notícias recentes referem que voltará a ser criada a Brigada de Trânsito, face ao aumento da sinistralidade nas estradas, o que se julgou poderia ser contrariado com o aumento das coimas. Mas os que morrem nas estradas já não pagam coimas…
A presença de agentes nas estradas, circulando com regularidade, e as campanhas televisivas de educação teriam sido opções mais proveitosas; mas os programas educativos parecem ter sido julgados impróprios dum Pais moderno – erro fatal, como se está a ver cada vez com mais evidência. E os exemplos continuam.
Extinguiu-se o SEF, cuja única falha era ter poucos agentes e alguns eticamente malformados, por agressões cometidas em postos fronteiriços (fora aquelas que não foram tornadas públicas…). Os tempos vieram mostrar que a AIMA não garantiu maior eficiência e perdeu-se a prática dos agentes, que podia ter sido melhorada, sem extinguir o serviço prestado pelo SEF.
Os Governos têm dificuldade em dar a mão à palmatória e há sempre espíritos iluminados que trazem opções milagrosas…
Extinguiu-se o departamento governamental que dirigia a política da água, desde a velhinha Direcção Geral de Hidráulica e depois o Instituto da Água, e fundiu-se tudo numa APA que manifestamente não pode realizar, com a mesma eficiência, as funções de conduzir o aproveitamento e distribuição da água para abastecimento da agricultura e das populações espalhadas pelo território.
É sempre a estafada proposta neoliberal de reduzir o Estado para melhorar…o Estado. Aumenta a burocracia, mas não a eficiência.
De há umas décadas para cá, tem aumentado o número de fogos rurais e a dimensão das áreas ardidas – e este é o tema que, tanto eu como outros antigos profissionais do ramo, têm apontado.
E isto acontece desde que, neste caso, algumas brilhantes mentes socialistas extinguiram os Serviços Florestas que existiam desde o século XIX.
Esqueceu-se propositadamente o tal saber de experiência feito para acabar com um Serviço que guardava a experiência de mais de um século. Os eficientes guardas-florestais e os insignes Mestres florestais foram consideradas obsoletos e enviados para a GNR até acabarem as suas vidas…
Ora, a quadrícula de vigilância das áreas florestais e a presença permanente, ao longo de todo o ano, dos agentes florestais, impedia a propagação da maior parte dos fogos.
Ainda está por demonstrar que fica mais barato pagar os milhões de euros aos meios aéreos privados que combatem os fogos, muitas vezes sem eficiência, e aguentar os custos das tragédias das populações com os incêndios ao pé da porta, do que restabelecer uma Autoridade Florestal Nacional.
A harmonia de funções e de conhecimento do terreno, que existia entre os agentes florestais e os bombeiros, foi desprezada em prol de mais burocracia e de maiores lucros para os, privados, porque o Estado, nesta democracia que luta para continuar liberal, não sabe corrigir os eros cometidos.
Devia ser evidente que vale mais melhorar o existente, aproveitando o saber da experiência, do que estar permanentemente a inovar, prejudicando o que é público para incentivar o que é negócio de privados.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
