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OPINIÃO: Ainda o tempo…

Publicada em: 28/05/2026 00:11 -

Por Fernando Santos Pessoa 

Na língua portuguesa, temos estas ambivalências, de a mesma palavra significar coisas diferentes. É assim com o tempo, que tanto pode ser o das horas, dos dias e dos anos, como o do clima que se suporta. Aqui é sobre este último tempo que alinho umas notas.

Vou limitar-me a divulgar informações que devem ser, deviam ser, do conhecimento corrente de todos os cidadãos, mas que são, em regra, ignorados. E baseio-me no World  Resources Institute, que há décadas reporta as mais recentes investigações de cientistas sobre a evolução do clima e as consequências para o planeta e para a nossa existência, e no IPCC Internationall Pannel on Climatic Changes, que estuda as alterações climáticas e as suas consequências para o presente mas também para o futuro das populações humanas em todo o planeta  Terra.

E uma das primeiras constatações é que o planeta já está a sofrer com estas dimensões sem precedentes, de fogos, secas, cheias e outras situações extremas que matam milhares de pessoas e colocam em risco a economia mundial. Perspectiva-se que o custo do impacto do clima para a economia mundial será de 7,9 mil milhões de dólares até 2050.

O dióxido de carbono e outros gases de estufa são essencialmente devidos à produção de energia, apesar do aumento considerável da produção de energia solar que tem contribuído para diminuir o perigo das emissões, mas, ainda assim, as investigações revelam que o mundo necessitará de reduzir o nível actual para metade até 2030.

Produção de energia, construção, indústrias, transportes, florestas e agricultura são os principais emissores mundiais e estamos muito longe do que seria desejável para atingir as metas definidas no Acordo de Paris.

Estima-se que a produção de energia é responsável por 76,7% das emissões e a agricultura é o segundo maior emissor de gases de estufa, a seguir à produção de energia – 12,3% das emissões globais.

Os esforços para reduzir estas fontes emissoras de gases de estufa ficam muito aquém do que será necessário para, pelo menos, aguentar uma situação tolerável no planeta.

Uma das ocorrências que mais afecta directa e imediatamente a nossa vida, falando agora de outras condicionantes provocadas pelas alterações climáticas, são as limitações no acesso à água potável, sem a qual a vida não é possível.

A condição de estarmos na Península Ibérica coloca-nos numa das áreas mais afectadas pela carência de água e também pela maior ocorrência de secas prolongadas. Isso está explícito informações produzidas pelo IPCC.

Lá porque nos ocorre um ano excepcional de abundância de água, na nossa situação geográfica, isso não quer dizer que o mesmo se passa também nas outras regiões do planeta indiciadas como críticas. E verifica-se que a Bacia Mediterrânica e a Península Ibérica estão entre as áreas mais afectadas.

Sul Informação
Regiões do mundo mais afectadas pelas secas (Origem IPCC, in Patrícia Carvalho, Público)

                      

Politicamente, surgem os que renegam a Ciência e contrapõem que sempre houve fenómenos destes, que são ciclos ou outras balelas para embalar crianças; e isto vai do humilde cidadão, que pouco sabe destes assuntos, como vai até aos dirigentes de grandes nações, pois reconhecer a gravidade das calamidades que se possam repetir inviabilizaria ou prejudicaria os negócios…

Costumo lembrar as estórias da série do Asterix, porque o chefe da aldeia tem muito medo do dia em que o céu lhe caia em cima da cabeça, mas, como tem a vidinha para tratar, diz sempre “este não será ainda a véspera desse dia”.

Populistas e iliberais adoptam a crítica a estas informações por contrariarem os seus propósitos de hegemonia política e económica e todos sabemos que os EUA estão, nestes tempos conturbados, a protagonizar a descrença oficial contra as investigações e as ciências, nomeadamente as  do Ambiente. Podemos vir todos a pagar muito caro estes comportamentos ilógicos e egoístas.

Sul Informação
(Origem IPCC , in Courier International)

E agora, neste outro mapa, mostram-se as regiões do planeta com maior carência de água, onde se verifica que, de novo, a nossa região está pintada com as cores mais carregadas.

No entanto, há poderes políticos e económicos, produtivistas, que não levam a sério os resultados das investigações que prejudicam quer os seus negócios, quer as políticas laxistas no que se refere ao Ambiente e à Biodiversidade. 

E fica ainda por falar na situação dos fogos infernais em todos os continentes,  bem como da perda acentuada dos gelos nas calotes polares, do aquecimento e acidificação dos oceanos – verdadeiro caos previsível a que os maiores  poderes políticos não ligam, mais interessados que estão em angariar maiores proveitos à custa dos povos mais fracos…

Tanto caos previsível que quase ninguém respeita!!

Só a divulgação dos resultados das investigações independentes e credíveis, levadas a efeito por cientistas acreditados, poderá criar nos cidadãos a noção exacta da gravidade das condições climáticas que nos envolvem e daí tornarem-se cidadãos informados e activos na defesa da integridade do planeta e das nossas vidas.

Um futuro capaz de sobreviver aos cataclismos depende muito duma cidadania activa em todas as nações, sobretudo naquelas onde a discussão esteja a pervertida.

Fernando Santos Pessoa

Fernando Santos Pessoa é arquiteto paisagista e engenheiro silvicultor…e escreve com a ortografia que aprendeu na escola.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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