Por António Covas
Foi publicado o relatório conjunto do Conselho da Europa e da Comissão Europeia, intitulado “Here to stay? The transitions of rural youth before and after the Covid-19 pandemic”, que examina as experiências de jovens entre os 18 e os 30 anos de 14 países europeus em contexto rural, (entre 2019 e 2023).
O estudo foi liderado por Francisco Simões, investigador do CIS-ISCTE, e incide sobre temas como a educação, os sistemas de apoio, a participação jovem, o emprego, a mobilidade e o acesso ao lazer, à cultura e ao desporto.
Embora o relatório reflita tendências positivas, como o aumento da participação do ensino superior e a redução da taxa de jovens NEET (nem educação, nem emprego ou formação), estes progressos contrastam com desafios persistentes, incluindo o declínio da população jovem, o aumento do desemprego, fraca participação cívica e desvantagens estruturais no mercado de trabalho das zonas rurais.
Em termos de políticas públicas, a juventude rural não é, na maior parte dos casos, encarada como um subgrupo com necessidades específicas, o que resulta em políticas fragmentadas e pouco direcionadas. Não obstante o declínio acentuado da população jovem, 80% dos inquiridos manifesta, também, o seu direito a ficar nas terras de origem.
Esta é, pois, uma boa oportunidade para uma breve reflexão sobre o papel e as funções do movimento associativo e das associações que exercem a sua atividade em meio rural e que se confrontam com este dilema de partir e ficar com bastante frequência.
A propósito, é importante lembrar que a maioria das associações de base territorial ainda em operação nasceu no princípio dos anos 90 do século passado no quadro do programa LEADER da Política Agrícola Comum (PAC) que viu a luz do dia em 1992.
Dito isto, precisamos que o movimento associativo e as suas associações adquiram duas facetas intimamente interligadas: como comunidades offline enraizadas nos seus territórios de origem e como comunidades online inseridas em redes e plataformas colaborativas.
Estamos, assim, a reinventar o movimento associativo como o ator-rede e o operador de um ou mais territórios-rede.
A partir deste conjunto de interfaces e hiperligações o movimento associativo e as suas associações, em função do seu contexto particular, estarão perante um leque de opções e atividades muito variado, por exemplo:
– A gestão conjunta e colaborativa de parques empresariais e zonas industriais de um território-rede, em articulação com a CIM respetiva,
– A gestão cooperativa de propriedades rústicas sob a forma de banco de solos, a gestão de uma zona de intervenção florestal e/ou a gestão de um programa de emparcelamento rural tendo em vista, por exemplo, a redução do risco de incêndio,
– A gestão comum e colaborativa de áreas integradas, por exemplo, uma associação de parques naturais, para efeitos de ordenamento do mosaico paisagístico e suas amenidades, da sua biodiversidade e provisão de serviços de ecossistema, onde se incluem as bioenergias e a agricultura biológica,
– A gestão conjunta e colaborativa de agro parques e parques agroecológicos de âmbito municipal e intermunicipal com vista à criação de sistemas agroalimentares de base local (SAL) e de oferta integrada de produtos e serviços de agro-silvo-pastorícia,
– A gestão conjunta e colaborativa de parcerias empresariais, tendo em vista a formação de arranjos produtivos locais e marcas coletivas de referência regional, visando a formação de ecossistemas de sucessão empresarial e o rejuvenescimento intergerações,
– A gestão comum e colaborativa de ecossistemas específicos, por exemplo, áreas de montado, através de serviços de investigação-extensão, em estreita associação com a academia e as ONG da área da proteção da natureza,
– A promoção de cooperativas e organizações de produtores, de sociedades de agricultura de grupo (SAG) e a gestão agrupada multiprodutos, em estreita associação com os laboratórios colaborativos, os grupos operacionais de investigação e os living labs,
– A gestão comum e colaborativa de empreendimentos de fins múltiplos onde se inclui não apenas o turismo ecológico, mas, também, as quintas pedagógicas, os condomínios rurais, os aldeamentos seniores (cohousing) e as explorações de agricultura alternativa.
Em todos os casos estamos a usar os signos distintivos do território e a transferir o seu valor simbólico e icónico para osprincipais veículos produtivos desses territórios que são os produtos com indicação geográfica de proveniência (IGP), os produtos com denominação de origem controlada (DOC), as marcas coletivas, os mercados de nicho, os terroirs de visitação, as cadeias de valor mais relevantes e as fileiras de exportação.
A terminar, deixo aqui alguns exemplos de multisserviços que podem ser operados por uma associação de desenvolvimento rural em articulação com outras entidades e operadores locais e regionais:
– Paisagens literárias e visitas guiadas e a criação de clubes de leitura,
– Percursos de natureza, observação de endemismos, a flora e a fauna local, com ligação aos centros de ciência viva e clubes de ciência viva,
– Oficinas de artes e ofícios, residências artísticas, circulação e venda de obras de arte,
– Oficinas de artes da rua e do ambiente com ligações diretas às aplicações e atividades de economia circular,
– Oficinas de artes do espetáculo, residências artísticas, com ligação às escolas e à população sénior,
– Programa envelhecimento ativo: serviços ambulatórios, gestão de carsharing e carpooling, cohousing, aldeamentos e condomínios seniores,
– Criação de um marketplace para gerir agricultura comunitária, mercados locais, circuitos curtos de comercialização, marcas coletivas,
– Organização e gestão de parques ambientais, bio parques, programa de agricultura regenerativa, gestão de serviços de ecossistema,
– Organização e gestão de baldios, cooperativas, condomínios, sociedades de agricultura de grupo, gestão agrupada multiprodutos, marcas coletivas, IGP e DOP,
– Organização e gestão multisserviços: cuidadores informais, cuidados continuados, serviços de trabalho temporário, organização de atividades de recreio e lazer, provas desportivas, percursos de natureza e visitas guiadas,
Todavia, o rejuvenescimento rural só acontecerá se os territórios tiverem escala, massa crítica, intensidade-rede e músculo financeiro mínimo, suficientes para proporcionar serviços ambulatórios de qualidade, proteção jurídica do emprego intermitente, espaços de coworking e residências criativas, clubes e associações de oferta cultural e criativa, transporte partilhado, cohousing e condomínios acessíveis e, antes de tudo, uma infraestrutura tecno-digital de qualidade que suporte uma economia produtiva – agro alimentar, agro florestal, agro turística, agro energética, agro paisagística – assente na oferta integrada de bens e serviços complementares em estreita articulação com a economia criativa.
António Covas
António Covas é Professor Catedrático Aposentado da Universidade do Algarve.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
