Por António Covas
Aos olhos de um observador inteligente, os territórios são cristais multifacetados, reinventados e recriados de forma continuada. No plano analítico, os territórios encontram-se no cruzamento de três tipos de redes: as redes institucionais, de geometria fixa, as redes sociais, de geometria variável e as redes tecno-funcionais, também de geometria variável.
Neste alinhamento promissor, a realidade diz-nos, infelizmente, que preferimos trocar o capital social, recurso barato e abundante da cooperação interpares, por capital político-institucional produzido por estruturas burocráticas do estado-central e do estado-local.
Em consequência, a desafeição política que hoje se verifica em quase todos os sistemas políticos domésticos tem a ver com este grave desequilíbrio em que o poder reside mais nas redes institucionais e burocráticas do estado-administração, enquanto o capital social, mais difuso e inorgânico, reside nas redes sociais e funcionais de geometria variável.
A consequência lógica e a expressão deste desequilíbrio mostram-nos que o ativismo político das gerações mais jovens passou a morar nas redes sociais e nas comunidades online onde procura pertencimento, identidade e reconhecimento. Estamos muito longe de uma interação favorável e positiva entre comunidades online e offline. Há aqui muito trabalho para fazer em matéria de investigação-ação-extensão.
Entretanto, a explosão, nos últimos anos, de novos sinais distintivos territoriais (SDT), aumenta extraordinariamente, esperamos nós, o número e a qualidade das representações que fazemos dos territórios e de cada um em concreto. A iconografia territorial é um discurso de legitimação, mas reporta-se, também, a um território-desejado.
Cada território apresenta, assim, potencialmente, múltiplas territorialidades, isto é, converte-se num significante com muitas significações e significados, logo, objeto de muitas geometrias variáveis.
Na verdade, nos últimos anos, foram criadas em muitas regiões do país, com o apoio de fundos europeus e nacionais, o que poderíamos denominar como o embrião de comunidades inteligentes, por exemplo: parques de ciência e tecnologia, centros de investigação e desenvolvimento, polos tecnológicos, centros de negócios, academias de formação, ninhos de empresas, incubadoras e aceleradoras de startup, espaços de coworking, uma rede de smart cities, uma rede de living labs, uma rede nacional de associações de desenvolvimento local, uma rede rural nacional, sociedades de capital venture, uma Startup Portugal, uma associação de business angels, hubs tecnológicos e criativos, para além de muitas associações empresariais de geometria muito variável.
Ora, pensemos, por um momento, nos imensos efeitos difusos e dispersivos, de duvidosa sustentabilidade, com origem em todas estas presumidas comunidades inteligentes, pensemos no seu impacto aglomerativo e coesivo sobre os territórios de baixa densidade e ficamos, de imediato, com um amargo de boca no que diz respeito à sua eficácia, eficiência e efetividade. Com algumas exceções, como sempre acontece.
De facto, há uma diferença enorme entre o conforto de uma rede digital gerida por uma comunidade online e o desconforto de um problema real gerido por uma comunidade offline, já para não falar da qualidade do ator-rede que administra a rede digital distribuída.
Hoje, à nova economia digital não bastam as comunidades online criadas de geração espontânea em espaços de coworking ou fablab municipais.
Esta é a versão fashion do problema que temos entre mãos e que as políticas públicas de coesão alimentam amiúde, com incentivos de ocasião, quantas vezes sem sucesso visível ou aparente.
Também não bastam as start-up geradas em incubadoras e aceleradoras, quais corredores solitários em busca de uma pista segura que lhes garanta um mínimo de sustentabilidade.
À nossa frente está, portanto, um trabalho enorme de construção social e política de uma sociedade colaborativa a partir de uma base comum de inteligência coletiva territorial (racional, emocional, natural e artificial) que as CRP (comunidades, redes e plataformas) podem ajudar a montar e operar.
Acresce que, a cooperação territorial descentralizada, um recurso acessível e barato, aumenta os ativos à nossa disposição e valoriza os elementos que antes podiam ser considerados marginais.
Além disso, se dermos um passo atrás podemos observar como os padrões na natureza e na sociedade se reforçam mutuamente e formam outros tantos sinais distintivos da nossa identidade. Estas breves referências servem apenas para recolocar o nosso problema, ou seja, os territórios têm muitos mais recursos e ativos do que nós imaginamos, apenas não foram ainda redescobertos e recompostos pela investigação-ação coletiva.
Esta é, também, a essência dos sinais distintivos territoriais (SDT), fruto da arte da recomposição de fatores socioculturais e socioeconómicos, que permite novas hermenêuticas territoriais e, portanto, novos significados e significações, enquanto transporta mais valor imaterial para a valorização dos sistemas produtivos locais e regionais.
A título de exemplo, uma denominação de origem, uma indicação geográfica, uma marca coletiva, uma figura prestigiada, uma paisagem literária, um ícone histórico-cultural, um endemismo local, o artesanato de qualidade, a gastronomia tradicional, todos são um bom pretexto para iniciar a arte da recomposição das cadeias de valor tradicionais.
A economia imaterial, mas, também, a economia circular e a economia colaborativa jogam aqui um papel decisivo pois abrem a porta a inúmeros fatores imateriais e intangíveis que contribuem fortemente para recriar as cadeias de valor hoje existentes.
Há mesmo, em alguns casos, uma inversão da cadeia de valor, pois é a mais-valia simbólica da economia do imaterial e do intangível que determina a importância e a projeção económica da cadeia de valor material. É uma grande oportunidade para as regiões mais pobres em recursos materiais.
No mesmo sentido joga a economia circular, pois na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Tal como a economia do imaterial, também a economia circular transforma profundamente as cadeias de produção e valor.
A sinergia toma progressivamente o lugar da entropia e isto por duas vias: os resíduos que se transformam em recursos, por sua vez internalizados em atividades económicas, e as externalidades negativas que são reduzidas ou eliminadas e que são, igualmente, internalizadas na atividade económica.
A produção específica de internalidades é, doravante, não apenas um campo específico de investigação, mas, também, uma forma de autorregulação da cadeia local de valor e ao privilegiar a prestação de serviços é toda a comunidade local que beneficia com essa nova rede de trocas.
Estamos, portanto, perante um problema de escolhas e opções, logo, de atores-rede e modelos de governança territorial que apelam à arte e ciência das comunidades inteligentes, redes sociais e plataformas colaborativas, se quisermos, a uma internet democrática ao serviço dos cidadãos (CRP).
António Covas
António Covas é Professor Catedrático Aposentado da Universidade do Algarve.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
