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OPINIÃO: Em português, por favor!

Publicada em: 30/06/2026 11:36 -

Por Cristina Marreiros 

Somos um país que cada vez mais vive do turismo, permeável às mais diversas influências e uma delas são as diferentes línguas que vamos ouvindo, sendo que umas influenciam mais do que outras. Talvez por trabalharmos, maioritariamente, com estrangeiros e usarmos outras línguas no nosso dia a dia, o português nos é tão caro.

Infelizmente, este sentimento não é comum a muitos portugueses. Se assim fosse, não existiria um canal de televisão chamado “Now”. Por acaso, até temos uma palavra em português – “Agora”. Ou ainda vários programas, em diferentes canais televisivos, feitos por portugueses, para portugueses, mas com nomes em inglês.

Razão teve o Reitor da Universidade Nova quando ordenou que a Business School deveria ter sempre o nome em português – Faculdade de Economia. E não é, de todo, um provincianismo bacoco como alguém na altura lhe chamou. É, sim, o reconhecimento da nossa língua, que é parte muitíssimo importante da nossa cultura, da nossa tradição, do ser Português.

Poucas coisas serão mais irritantes que estar entre portugueses, numa apresentação, num seminário, numa discussão pública, com sessões destinadas para o público português, e sermos bombardeados por palavras inglesas quando a nossa língua é tão rica e nos pode dar todo um contexto em português.

Há algum tempo, na apresentação de uma plataforma digital, a palavra “input” foi repetida tantas vezes que só apetecia gritar se nunca tinham ouvido falar de contributos, recursos ou entradas. Outra palavra que também entrou muito na moda em termos empresariais é “stakeholders”. E que tal, parceiros ou intervenientes? Pequenos exemplos que, poderiam ser muitos mais, ilustram o quão mal tratada é a língua-mãe.

Igualmente incomodativo é entrar num estabelecimento comercial e o cumprimento ser em inglês. Bem sabemos as dificuldades por que passam muitos empregadores, que recorrem a colaboradores oriundos dos mais diversos países, falantes de outras línguas, com desconhecimento quase completo da nossa.  

Mas o mínimo dos mínimos que se requer seriam umas frases em português para poder comunicar o básico. Especialmente para aqueles que estão na linha da frente, no atendimento ao público.

E a premissa de que os clientes são maioritariamente estrangeiros, por isso não faz mal, não deve servir como desculpa. Nem que houvesse um só falante de português, devia ser imperativo ser esta a língua usada. É a língua oficial do país, portanto, o normal, o lógico é que seja a utilizada no dia a dia.

Os nossos vizinhos espanhóis podem ter muitos defeitos, mas nestas questões de primeiro mostrar a sua “espanholidade” estão certíssimos.

Até porque, se viajamos, é para conhecer novas culturas. E a língua será, porventura, o maior elo de ligação entre o génio criativo, as ações, o passado e o presente de um povo, a forma mais pura e emocional como comunicamos as nossas vivências e emoções.

A nossa capacidade de atração de turistas é grande, mas já vamos sentindo algum mal-estar em certos sítios, em certas áreas, onde os locais se queixam de estar a ficar para trás, esquecidos em nome dos que vêm de fora, e que as nossas tradições se vão alterando para agradar a esses mesmos turistas, os tais que procuram aquilo que nos faz diferentes e especiais, a nossa cultura, a nossa identidade. E vamos ficando todos cada vez mais iguais, menos diferentes, menos especiais.

Ah, mas os estrangeiros não falam português, não conhecem a nossa língua. E pela forma como vamos reagindo já não falta muito para nós próprios começarmos a ter dificuldades em nos fazermos entender em bom português.

Aquilo que mais incomoda e se estranha não são os turistas, mas os nacionais e o provincianismo de nos pormos em bicos dos pés para usar expressões que nada de novo ou de melhor trazem ao falar português. O português é uma língua viva, como tal sujeita a alterações, adaptações, melhorias. Não estamos contra esta evolução natural, mas contra o uso exagerado e sem nexo de estrangeirismos.

A minha Pátria é a língua portuguesa, já o dizia um grande poeta. Vistas as coisas por este prisma, andamos a maltratar a pátria, a desprezar as suas subtilezas e a hipotecar o futuro linguístico.

 Da próxima vez que, em Albufeira, Lisboa ou Porto o receberem com um “good morning” responda “Bom dia”. É um pequeno gesto, mas pequenos gestos repetidos muitas vezes podem ter capacidade de mudar muita coisa.

Cristina Marreiros

Cristina Marreiros é Guia-Intérprete e presidente da Agigarve (Associação de Guias-Intérpretes do Algarve).

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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