Nos 25 anos da identificação do Ribāt da Arrifana
OPINIÃO
Por Rosa Varela Gomes
O Ribāt da Arrifana, no litoral de Aljezur, Monumento Nacional classificado desde 2013, dada a sua importância histórica e arqueológica, foi, no corrente ano, semifinalista na categoria de História, no programa “Sete Maravilhas de Portugal”, o que lhe terá dado alguma visibilidade.
Esta, no entanto, não é suficiente para promover a sua conservação visto que, atualmente, se encontra abandonado, devido à incúria de quem tem a principal obrigação de zelar pelo Património Nacional – o Ministério da Cultura.
Quem visita o Ribāt vê muros, quase totalmente cobertos por vegetação, que podem ser associados a casas abandonadas e arruinadas, como muitas outras existentes no designado Trilho dos Pescadores, integrado na Rota Vicentina, dado não existir qualquer informação no local, embora ele esteja indicado em textos de divulgação do percurso mencionado, que passa exatamente pelo seu centro, ajudando à sua destruição.
O estado de ruína é evidente e muitas daquelas estruturas pertenceram a antigas mesquitas, do único complexo cenobítico muçulmano existente no atual território português.
Daquele monumento, conhece-se o nome do fundador, Ibn Qasī, teólogo, poeta, estadista e criador de estado teocrático, que D. Afonso Henriques reconheceu como seu aliado e par, que promoveu a sua edificação em 1130, tendo o mesmo sido abandonado em 1151, após a sua morte.
Na Europa existe, apenas, outro ribāt similar, em Espanha (Guardamar, Alicante), que também foi intervencionado arqueologicamente, mas consolidado e devidamente protegido por vedação, tendo entrada com guarda que acompanha quem pretende visitá-lo.
A reconstituição de uma das suas mesquitas encontra-se patente no Museu Arqueológico Etnológico e Paleontológico Municipal de Guardamar, valorizando a importância de tal património.
Em Espanha, valoriza-se o património histórico-arqueológico, servindo diversos propósitos, mas, em Portugal, o Ribāt da Arrifana encontra-se esquecido e em vias de desaparecer.
Este arqueossítio foi identificado, em 2001, por dois arqueólogos, docentes da NOVA-FCSH (Rosa Varela Gomes e Mário Varela Gomes) que, ao longo dos anos, ali realizaram intervenções arqueológicas, cujos resultados demonstraram, ao Mundo, a sua importância e foram evidenciados através de exposições e publicações, existindo mais de trinta artigos, em revistas científicas e catálogos de exposições, tendo sido objeto de programas de televisão, permitindo o seu conhecimento, tanto nacional como internacionalmente e a classificação mencionada.
As escavações arqueológicas ali realizadas identificaram diversos testemunhos de quatro núcleos de edificações, erguidas em pedra e taipa, certamente com funções distintas e refletindo planeamento hierarquizado, capaz de traduzir aspetos funcionais e simbólicos.
Ali contam-se atualmente as ruínas de nove pequenas mesquitas (todas com o respetivo oratório – mihrāb orientado para Meca), tal como restos de minarete, de muro de orações, vasta necrópole, muro envolvente e outras construções.
Os trabalhos mencionados só foram possíveis graças aos apoios concedidos por diferentes instituições, nacionais e internacionais, como o extinto Instituto Português de Arqueologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Fondation Max van Berchem e Câmara Municipal de Aljezur.
O Ribāt da Arrifana foi visitado por vários ministros portugueses, de diferentes governos, e de outros países, bem como por distintas individualidades ligadas à Fundação Aga Khan.
Mais recentemente, em 24 de novembro de 2025, foi visitado pela Doutora Ana Catarina Sousa, vice-presidente do Património Cultural I.P., acompanhada por Rosa Varela Gomes, assim como pelo Dr. Manuel Marreiros, presidente da Autarquia de Aljezur, e elementos da respetiva vereação, tendo em vista verificar o estado lastimável em que se encontra e promover ações de conservação que nunca se concretizaram.
Todavia, o Ribāt da Arrifana continua aceleradamente a degradar-se…
Será que se está à espera que seja totalmente destruído para, conforme os antigos proprietários pretendiam, ali se erguer um bonito hotel?
Rosa Varela Gomes
Rosa Varela Gomes é arqueóloga e professora da NOVA-FCSH.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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