E mais a Taxa de Turismo!
OPINIÃO
O Turismo tornou-se uma das atividades mais rentáveis, não só em Portugal, mas a nível mundial. Implica toda uma série de recursos e gera verbas de grandes dimensões.
O lógico seria que, parte dessas verbas, recebidas pelas diferentes entidades privadas que gerem as atividades e os fluxos turísticos, resultassem em impostos que, por sua vez, seriam canalizados pelas autoridades públicas para os aplicarem nos mais diversos projetos ligados à atividade, incluindo aqueles que amortizam os desgastes provocados pelos turistas.
Pelos vistos, não é assim que funciona, pois, de repente, achou-se por bem cobrar uma “taxa turística” para, supostamente, se amenizar os tais desgastes.
O fenómeno não é exclusivamente português. Em vários países, em várias cidades, a taxa já existe. Se o turista quer visitar, tem de pagar. Mas este já paga a deslocação, o alojamento, a comida, vai pagar as atividades, as visitas, as experiências. E ainda mais a tal taxa.
Vamos lá tentar perceber. Desenvolveram-se várias infraestruturas para atrair turistas, faz-se marketing e publicidade com o mesmo fim. Os turistas vêm, ajudam a criar riqueza e depois vamos taxá-los porque estão a contribuir para a degradação dos espaços.
Mas afinal, queremos os turistas ou não?
Não era assim que deveria ser. As verbas que esses visitantes deixam no território deveriam ser suficientes para cobrir todas as necessidades elencadas para cobrar essa taxa.
Há aqui um efeito de pescadinha de rabo na boca – criam-se as infraestruturas que atraem os turistas, que, por sua vez, ajudam à sua degradação e cobra-se a taxa para melhorar essas mesmas infraestruturas e assim ciclicamente.
No Algarve, continua a discutir-se a sua aplicação. Quer-se uma região a falar a uma só voz, a fazer um planeamento comum, que traga benefícios a todos, e numa questão como esta nota-se bem a união. Dos 16 municípios apenas 7 cobram a referida taxa.
União? Projetos comuns? Pode bem dizer-se – ah, mas em Alcoutim não há o mesmo desgaste de Albufeira. Correto, mas como diziam os Três Mosqueteiros – um por todos e todos por um. Se queremos ter um Algarve uno tem de existir consenso e união.
E supostamente a taxa de turismo existe para minorar o desgaste provocado pelo visitante, o tal que já paga uma quantidade de coisas para cá chegar e ainda mais a taxa.
E quem monitoriza a sua aplicação? A quem prestam contas as Câmaras cobradoras desta taxa?
Vamos tomar como exemplo um dos Municípios que cobra taxa de Turismo, Lagoa. Será de supor que, com essas verbas extra, as casas de banho públicas estejam a funcionar bem e atempadamente limpas.
Vão a Ferragudo, fora do horário de abertura do Mercado e atrevam-se a procurar uma casa de banho pública. Elas existem, mas estão fechadas, temos de pedir a chave no quiosque, e quantas vezes nos dizem – só se consumir.
Mas são públicas ou não?
Vão à Praia da Marinha, fora do período do Verão. Estão lá as novas instalações sanitárias públicas, mas muitas vezes estão fechados. E da limpeza nem vale a pena falar.
Ou vão ainda a Benagil. Pode ser que tenham sorte e que, nesse dia, as casas de banho públicas não estejam fechadas, avariadas ou impróprias para consumo.
Façam o percurso dos Sete Vales Suspensos, trilho absolutamente maravilhoso, premiado, publicitado para atrair visitantes…e cheio de lixo.
A sinalética que marca o trilho, quer a mostrar o caminho, quer a informar os perigos escondidos pela beleza da zona, assim como as baias de proteção são praticamente inexistentes ou estão muito danificadas.
Sim, as pessoas são pouco educadas, não cuidam dos sítios por onde passam. Se calhar, não temos os turistas que queríamos.
Mas, se lhes estamos a cobrar uma verba extra para arranjar o que eles estragam, devíamos realmente usar esses valores para esse fim.
Lançamos um desafio a Lagoa e que pode ser replicado por outros Municípios: aproveitando parte das verbas originadas pela taxa turística, podiam criar uma equipa de limpeza e intervenção que se dedicasse a limpar, reparar, melhorar estas infraestruturas pequenas, mas fulcrais para o bom desempenho turístico.
A limpeza e a segurança de um destino turístico são dois dos valores mais importantes na atualidade. Queremos um Algarve de qualidade, não apenas taxas e taxinhas.
Cristina Marreiros
Cristina Marreiros é Guia-Intérprete e presidente da Agigarve (Associação de Guias-Intérpretes do Algarve).
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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