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OPINIÃO: As Bibliotecas Públicas e a IA: que futuro queremos construir?

Publicada em: 21/07/2026 21:59 -

Por Rute Guerreiro

Desde tempos imemoriais, o Homem demonstrou a sua capacidade inventiva para se adaptar ao seu meio, na perspetiva de tornar mais simples as tarefas do quotidiano.

Exemplo disso, foram a descoberta do fogo, a agricultura, a eletricidade, a escrita, a imprensa, a indústria, a rádio e a televisão, a internet, e mais recentemente, mas ainda no século passado, na década de 50, a inteligência artificial.

Com efeito, em 1950 é o matemático Alan Turing quem teoriza sobre a hipótese de uma máquina pensar e imitar o comportamento humano, tendo a inteligência artificial sido oficialmente considerada uma disciplina académica em 1956.

A cada nova invenção, surgem tendencialmente dois movimentos opostos, aquele representado pelos que defendem a mudança proposta e rapidamente se moldam ao seu uso, e aqueles que demonstram relutância em se adaptar, preferindo o conforto do que já lhes é conhecido.

Diria, porém, que existe um meio termo, ou seja, aqueles que percebem que não se devem fechar e rejeitar o novo, fingindo que este não existe, mas também não se deixam subjugar pelo novo, sem o questionar.

Para quem viveu os primórdios da internet, e que consegue ter a perceção do antes e do depois, é talvez fácil perceber a forma inequívoca como a sociedade sofreu enormes alterações, num curto período de tempo: por exemplo, ao nível das relações interpessoais, a “aldeia global” tornou-se ainda mais global, com as redes sociais a estreitar a proximidade, mas, ao mesmo tempo, nunca se colocou tanto na mesa a discussão sobre o isolamento social.

Também ao nível do acesso à informação, a internet veio democratizá-lo, pelo menos no mundo ocidental (tendo as políticas de educação dos países apostado nas bibliotecas públicas para atingir esse fim).

Mas a internet veio também produzir uma “babel” de informação, exigindo ao recetor competências para a sua correta triagem e boa utilização (sendo que o papel das bibliotecas é o de capacitar o cidadão comum para essa função).

No que diz respeito ao conhecimento, a Inteligência Artificial (IA) veio criar a promessa de simplificar o processo, quase como se se constituísse como uma calculadora do pensamento.

Todavia, aqui reside o perigo, ou pelo menos, a necessidade de estarmos atentos. Tudo o que nos exige esforço mental, desenvolve as nossas competências ao nível da análise, da síntese, etc.

O que a IA nos propõe é exatamente o contrário: mastigar a informação por nós, para nos propor um resultado/conhecimento que advém não do nosso próprio raciocínio, mas dos dados que a máquina coligiu.

Naturalmente, há sempre a componente humana, na medida em que é necessário dar instruções à máquina.

Talvez o novo papel das bibliotecas públicas passe, precisamente, por capacitar os seus utilizadores a discernir o que é produto de IA e a fazer uma boa utilização desta ferramenta.

Assim, estamos a assistir a um recrudescimento da inteligência artificial nas redes socias, numa fase em que ainda está em desenvolvimento, e durante a qual ainda é relativamente fácil discernirmos a sua utilização.

No entanto, sabemos que, em pouco mais de cinco anos, o cenário será previsivelmente diferente e que o uso da IA terá um crescimento exponencial, com inevitáveis transformações sociais, para o bem e para o mal.

Com efeito, se não tivermos cidadãos treinados e capacitados para o raciocínio e pensamento crítico, facilmente seremos enganados pelas falsas informações.

Ora, onde entram as bibliotecas públicas neste contexto?

Parece-me evidente que as bibliotecas públicas, centros culturais por excelência, lugares de encontro entre pessoas que desejam cultivar a mente, as relações interpessoais e o espírito crítico, além de proporcionarem também uma vertente lúdica, são e continuarão a ser espaços fundamentais de partilha do conhecimento, de fruição cultural e local de encontro de ideias.

Só assim será possível preservar o humanismo e continuar a cultivar o espírito crítico.

Muitas serão as utilizações benéficas da IA nas bibliotecas públicas, como de resto em tantas outras áreas.

A título de exemplo, a sua utilização poderá passar pela facilitação dos procedimentos técnicos documentais, dos procedimentos de gestão de empréstimos e outros que facilmente poderão ser potenciados e rentabilizados com esta tecnologia.

Mas o essencial só as pessoas poderão fazer, ou seja, preservar o que de mais sagrado existe: o livre arbítrio, a capacidade de decisão, o pensamento crítico, a liberdade de expressão.

Para isso, temos que refletir sobre algumas questões: estamos, como profissionais da informação, a conseguir acompanhar o passo alucinante da ascensão das novas tecnologias?

De que forma podemos contribuir para potenciar o espírito crítico dos nossos utilizadores?

Que papel têm as bibliotecas públicas na democratização do acesso à informação e ao conhecimento nesta era da IA?

Finalmente, que futuro queremos ajudar a construir?

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

 

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