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Rádio RIO Odemira

O arvoredo urbano

OPINIÃO

O arvoredo urbano

Por Fernando Santos Pessoa

Este é um assunto a que quero voltar, porque me parece que deveria preocupar quer a população, quer os poderes instituídos, sobretudo no sul do País, e que respeita a um elemento fundamental para ajudar a modificar, para melhor, o microclima urbano: o arvoredo.

Quer queiram, quer não os negacionistas, os “trumpistas” e os que desdenham da Ciência, o aquecimento global do planeta está ai, a ser medido todos os dias – onde já vai o tecto de 1,5ºC proposto pelo Acordo de Paris!

Se os já referidos poderes instituídos acreditassem mesmo que as alterações climáticas se irão agravar, cada vez com mais fenómenos extremos de secas e excessos torrenciais de chuvas, há muito que deveriam estar a ser tomadas medidas para minimizar os seus efeitos.

Se parte das grandes chuvadas ainda pode ter algum acolhimento nas barragens que existem, embora muita da água se perca com a excessiva torrencialidade das linhas de drenagem, já as secas prolongadas e as altas temperaturas durante uma boa parte do ano causam sérios problemas de desconforto e de saúde pública.

A excelência da vida urbana exige que a estrutura verde da cidade seja capaz de conferir aos habitantes as condições saudáveis de alta qualidade do ar e de espaços de ar livre onde se possam praticar passeios e caminhadas – ou simplesmente descansar.

Na minha profissão de projectar espaços verdes, posso assumir que a urgência será cada vez menos de jardins, mas antes de arvoredo. É que, por espaço verde urbano, não deve pensar-se logo em jardins e relvados, os quais, nas nossas condições climáticas, são exigentes em mão de obra e em regas – e a água é um factor limitante.

E, o que é ainda mais grave, regam-se os jardins com água da rede pública que é tratada para poder ser bebida – é um desperdício cada vez menos aceitável.

Nas muitas cidades que tenho visitado na Ásia Central e Médio Oriente, regiões onde as temperaturas são normalmente elevadas e a água é escassa, os jardins são, em regra, apenas algumas relíquias do passado – as zonas livres urbanas são grandes alamedas e praças arborizadas onde as pessoas se acolhem e as regas são efectuadas com água não tratada, numa rede diferente da água potável – e nós é que somos ,…

O arvoredo pode e deve ser implementado com abundância, pois, desde que sejam utilizadas árvores próprias da nossa ecologia, elas são menos exigentes em água – e a  sombra é um factor fundamental para melhorar o conforto urbano.

Em cidades como Faro, mesmo usufruindo da proximidade do mar e das suas brisas refrescantes, há períodos prolongados de estiagem em que se sente a falta de sombra e dos seus efeitos na propagação de oxigénio e das brisas. Então nas povoações algarvias do interior, sobretudo nas que têm maior expressão edificada, como Loulé, S. Brás de Alportel, etc., essa necessidade acentua-se.

Já tenho falado na necessidade de mais bosques urbanos em Faro, e sempre me responderam que estão previstos… mas os anos passam e as previsões não se cumprem. Seria bom que não se perdesse mais tempo.

Pedaço a pedaço, todo o miolo verde tradicional das povoações (quintas, hortos, cercas de conventos) foi sendo comido. E hoje, com o conhecimento que se tem das questões essenciais para uma boa qualidade de vida urbana, não se deve perdoar às autoridades centrais, regionais e locais que se esqueçam, antes se deve exigir delas, que corrijam os defeitos das estruturas urbanas – enquanto restarem umas migalhas de terrenos que possam ser transformados em bosques urbanos.

Fernando Santos Pessoa

Fernando Santos Pessoa é arquiteto paisagista e engenheiro silvicultor…e escreve com a ortografia que aprendeu na escola.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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