Joana, João e o estranho caso da moral
OPINIÃO
Por Helena Santos Leitão
Entre linhas de razão, curvas de emoção e escolhas difíceis
Sinopse
O caso. Joana e João são colocados perante um dilema moral. Escolheriam da mesma forma? E, perante a mesma escolha, pesariam os mesmos valores na balança?
Os suspeitos. Razão, emoção, educação, cultura, género e experiência pessoal.
As provas. O que sabemos sobre diferenças médias entre homens e mulheres no julgamento moral, nas respostas utilitaristas e deontológicas, na empatia, no cuidado, na lealdade, na autoridade e na aversão ao dano.
A testemunha incómoda. A velha ideia de que o homem seria mais racional e a mulher mais emocional.
O veredicto…
Joana e João são confrontados com a mesma situação:
Duas pessoas estão em perigo e só uma pode ser salva a tempo. Joana escolhe. João também. Farão a mesma escolha?
Entre o que sabemos, o que sentimos e o que aprendemos a considerar certo ou errado, há uma teia de influências em que se cruzam razão, emoção, educação, cultura, experiência e, talvez, género. A questão torna-se então mais interessante: perante o mesmo problema, Joana e João chegarão à mesma decisão? E, mesmo que cheguem, terão percorrido o mesmo caminho?
Uma hipotética “guerra dos sexos” e as possíveis diferenças entre homens e mulheres na avaliação de dilemas morais têm fascinado a ciência há décadas. Será um deles mais orientado para as consequências e o outro para as regras? Um mais avesso a causar dano e o outro mais disposto a aceitá-lo se daí resultar um bem maior? E onde terminam as diferenças reais e começam os estereótipos?
Durante muito tempo, a discussão foi marcada por duas perspetivas. Lawrence Kohlberg, influenciado por Jean Piaget, propôs uma teoria universalista do desenvolvimento moral, organizada em seis estádios sucessivos. Estudos iniciais realizados neste enquadramento encontraram o estádio 3 como mais frequente nas mulheres, associado à manutenção das relações e às expectativas dos outros, e o estádio 4 nos homens, ligado a uma lógica de “lei e ordem”. Estes resultados, somados ao facto de o modelo ter sido desenvolvido a partir de amostras masculinas, alimentaram críticas de viés de género. Carol Gilligan respondeu propondo duas orientações morais: uma ética do cuidado, mais relacional, e uma ética da justiça, mais abstrata, defendendo que, embora mulheres e homens pudessem recorrer às duas perspetivas, a primeira surgia mais frequentemente nas mulheres e a segunda nos homens. A investigação posterior, contudo, revelou um quadro bem menos binário.
Em 2000, Jaffee e Hyde1 reuniram 113 estudos. Encontraram diferenças pequenas: maior orientação para o cuidado nas mulheres (d = 0,28) e para a justiça nos homens (d = 0,19). A conclusão foi que os dados não sustentavam fortemente a ideia de uma moral feminina assente no cuidado e de uma moral masculina assente na justiça.
Em 2015, Friesdorf et al.2 olharam para a questão por outro ângulo. Numa meta-análise de 40 estudos, com 6.100 participantes, os investigadores encontraram apenas uma diferença muito pequena entre homens e mulheres na tendência para fazer escolhas utilitaristas (d = 0,10). A diferença mais marcada surgiu no parâmetro deontológico, no qual as mulheres obtiveram pontuações superiores (d = 0,57). A explicação proposta afastou, assim, a ideia de que os homens estejam simplesmente mais preocupados em maximizar os resultados, pois a principal diferença parecia estar na maior relutância das mulheres em causar dano. Ou seja, ambos os sexos pareciam valorizar as consequências das suas decisões, mas as mulheres mostraram uma preocupação mais forte em evitar prejudicar diretamente outra pessoa.
Em 2020, Atari et al.3 ampliaram drasticamente a escala. O estudo principal incluiu 336.691 participantes de 67 países e os resultados foram depois replicados numa segunda amostra de 11.969 participantes de 19 países. As mulheres valorizaram consistentemente mais o cuidado, a equidade e a pureza. As diferenças na lealdade e na autoridade foram pequenas e variaram muito entre culturas. E aqui surge algo surpreendente: quanto mais igualitária e flexível é a sociedade, mais acentuadas parecem ser algumas diferenças morais entre homens e mulheres.
O quadro continuou a ganhar nuances.
Em 2024, Qian et al.4 analisaram dados de 612 participantes do Japão, China e Estados Unidos através de um modelo que distingue a sensibilidade às consequências, às normas morais e a tendência geral para agir ou não agir. Nos três países, as mulheres mostraram maior sensibilidade às normas morais do que os homens. Mas a cultura também deixou a sua marca: os participantes ocidentais revelaram maior sensibilidade às normas, enquanto os japoneses, de ambos os sexos, mostraram uma tendência mais acentuada para a inação.
Em 2026, Zakharin e Bates5 analisaram duas amostras, dos Estados Unidos e do Reino Unido, num total de 2.494 participantes, utilizando a versão revista do Questionário de Fundamentos Morais. As mulheres atribuíram maior importância ao cuidado e à igualdade, enquanto os homens, pontuaram mais alto na lealdade, autoridade e proporcionalidade. Na pureza, porém, não houve diferenças significativas entre homens e mulheres, contrariando alguns estudos anteriores que tinham encontrado valores superiores nas mulheres. Os autores reconhecem ainda que diferentes culturas podem atribuir significados distintos aos mesmos valores morais.
Estas “provas” lembram-nos que aquilo que encontramos depende também de onde, como e com que perguntas medimos a moralidade.
Então, Joana e João têm uma moral diferente, ou não? A resposta parece ser menos simples e, talvez, mais interessante. Os julgamentos morais não dependem apenas da emoção ou da razão. Também o contexto social pode alterar a forma como avaliamos uma situação, tornando as decisões morais mais flexíveis e complexas do que uma simples oposição entre “certo e errado” ou entre sentimento e lógica. Existem diferenças médias em alguns domínios, mas não duas morais separadas. E uma diferença entre médias de grupos não permite prever o que fará uma pessoa concreta perante um dilema. Talvez Joana e João usem, afinal, os mesmos ingredientes morais: cuidado, justiça, razão, emoção, regras e consequências, atribuindo-lhes, por vezes, pesos diferentes na balança.
Esta velha tentação de opor razão e emoção não é nova. Em 1895, Oscar Wilde fez Lord Goring afirmar, em An Ideal Husband, que a vida da mulher se moveria em “curvas de emoções”, enquanto a do homem avançaria em “linhas de intelecto”. A versão condensada “men are governed by lines of intellect, women: by curves of emotion” é frequentemente atribuída a James Joyce.
Talvez a ciência esteja a dizer algo muito mais interessante: homens e mulheres são ambos feitos de linhas de intelecto e curvas de emoção. As proporções podem variar, em média. Mas a moral não se escreve em médias, escreve-se, sempre, no singular.
Referências
1. Jaffee S, Hyde JS. Gender differences in moral orientation: a meta-analysis. Psychol Bull. 2000;126(5):703-26.
2. Friesdorf R, Conway P, Gawronski B. Gender differences in responses to moral dilemmas: a process dissociation analysis. Pers Soc Psychol Bull. 2015;41(5):696-713.
3. Atari M, Lai MHC, Dehghani M. Sex differences in moral judgements across 67 countries. Proc Biol Sci. 2020;287(1937):20201201.
4. Qian Y, Takimoto Y, Wang L, Yasumura A. Exploring cultural and gender differences in moral judgment: a cross-cultural study based on the CNI model. Curr Psychol. 2024;43:5243-53.
5. Zakharin M, Bates TC. Age, gender, and score distributions of moral foundations. PLoS One. 2026;21(7):e0352584.
Helena Santos Leitão
Helena Santos Leitão é médica radiologista, professora universitária e investigadora na Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas da Universidade do Algarve e no Algarve Biomedical Center Research Institute. Formada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e doutorada pela Universidade de Coimbra, trabalha nas áreas da imagem médica, bioética, direito médico, gestão em saúde e educação médica. Ao longo do seu percurso, acumulou experiência em administração hospitalar e tem participado em projetos que aproximam o ensino médico, a investigação biomédica e os cuidados de saúde.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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