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OPINIÃO: A mudança de paradigma sobre a Obesidade

Publicada em: 23/07/2026 21:46 -

Por Carolina Venda

Durante décadas, a obesidade foi encarada como uma consequência de más escolhas. Comer demasiado, fazer pouco exercício, ter pouca força de vontade. A solução parecia simples: “comer menos e mexer-se mais”. Mas sabe-se hoje que isso é redutor.

A ciência veio mostrar-nos uma realidade muito diferente. Hoje sabe-se que as pessoas comem mais porque têm obesidade e não o contrário.

Hoje sabemos que a obesidade é uma doença crónica, complexa, com fenótipo recidivante, regulada por hormonas e genes, centrada no cérebro e multifatorial, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde e por todas as principais sociedades científicas.

Resulta da interação entre fatores genéticos, biológicos, hormonais, psicológicos, sociais, económicos e ambientais. Continuar a reduzi-la a uma questão de responsabilidade individual não só é cientificamente incorreto, como dificulta o tratamento.

Portugal enfrenta atualmente uma verdadeira epidemia silenciosa. Estima-se que 28.7% dos adultos portugueses vivam com obesidade e que 67.6% apresentem excesso de peso.

Entre as crianças, a realidade é igualmente preocupante: 13,5% das crianças entre os 6 e os 8 anos têm obesidade e quase um terço já apresenta excesso de peso.

Estes números significam que, em praticamente todas as famílias, escolas e locais de trabalho existe alguém a viver com esta doença. No Algarve, 19.2% da população tem obesidade e 36.3% apresenta excesso ponderal.

As consequências são profundas. A obesidade aumenta significativamente o risco de diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, apneia do sono, doença hepática, infertilidade, problemas osteoarticulares e vários tipos de cancro.

Em Portugal, constitui atualmente o segundo fator de risco que mais contribui para a perda de anos de vida saudável, sendo responsável por 7,4% dos anos de vida perdidos por morte prematura ou incapacidade (DALYs).

Entre 2000 e 2021, a mortalidade associada ao excesso de peso aumentou 14%, enquanto a carga global da doença cresceu 28%, segundo o estudo Global Burden of Disease, de 2021.

A obesidade tem igualmente um impacto económico e social significativo. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) estima que 10 % da despesa total em saúde em Portugal é destinada ao tratamento de doenças relacionadas com o excesso de peso, com um impacto global de 3% no produto interno bruto (PIB).

Esta situação tem implicações diretas na sustentabilidade do Serviço Nacional de saúde, exigindo respostas organizadas, equitativas e eficazes, com base na melhor evidência científica disponível. Perante estes dados, torna-se evidente que estamos perante um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI.

Muito mais do que escolhas individuais. É verdade que a alimentação e a atividade física continuam a desempenhar um papel determinante. A evidência demonstra que mais de metade da prevalência do excesso de peso está associada a fatores alimentares.

Contudo, responsabilizar exclusivamente cada indivíduo é ignorar o contexto em que vivemos. Vivemos rodeados de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sal, permanentemente disponíveis, acessíveis e intensamente promovidos.

Passamos grande parte do dia sentados, deslocamo-nos de automóvel, trabalhamos ao computador, aumentamos o tempo de lazer em frente aos ecrãs e dispomos de cada vez menos tempo para cozinhar ou praticar exercício físico.

Este ambiente, frequentemente designado por ambiente obesogénico, favorece diariamente o ganho de peso e dificulta a manutenção de hábitos saudáveis.

Pedir às pessoas para mudarem de comportamento sem alterar este contexto é exigir-lhes que lutem permanentemente contra um sistema que facilita precisamente aquilo que depois condenamos. Portanto medidas de prevenção primordial e primárias são urgentes.

Uma nova forma de olhar para a obesidade. Nos últimos anos, a forma de tratar esta doença começou finalmente a mudar.

Com a publicação do Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade, a Direção-Geral da Saúde propõe uma transformação importante na resposta do Serviço Nacional de Saúde.

Em vez de intervenções isoladas e centradas apenas na perda de peso, pretende-se acompanhar a pessoa ao longo da vida, reconhecendo que a obesidade exige vigilância contínua, tal como acontece com a diabetes ou a hipertensão.

Este novo modelo assenta em três princípios fundamentais: acompanhamento continuado, integração entre os diferentes níveis de cuidados e atuação por equipas multidisciplinares.

O percurso inicia-se nos cuidados de saúde primários, através da prevenção, identificação precoce e avaliação clínica completa, valorizando não apenas o índice de massa corporal, mas também as causas da doença, a presença de comorbilidades e o seu impacto funcional.

Sempre que necessário, a pessoa é acompanhada por equipas multidisciplinares constituídas por médicos, nutricionistas/dietistas, psicólogos e profissionais especializados em exercício físico, permitindo construir um plano terapêutico verdadeiramente personalizado.

Os quatro pilares do tratamento. Independentemente da necessidade de medicamentos ou cirurgia metabólica, existe um consenso claro: a base do tratamento continua a assentar na mudança sustentada do estilo de vida.

Os quatro pilares fundamentais são: 1) Alimentação nutricionalmente equilibrada; 2) Atividade física regular, incluindo 150 a 300 minutos semanais de exercício aeróbio e treino de força duas a três vezes por semana; 3) Sono de qualidade e gestão do stress; 4) Intervenção psicológica, nomeadamente através da terapia cognitivo-comportamental, para identificar gatilhos, promover a autorregulação e facilitar a manutenção das mudanças.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que todas as pessoas com obesidade tenham acesso a programas estruturados que integrem estas intervenções, podendo ser complementados, quando indicado, por terapêutica farmacológica ou cirurgia bariátrica.

Não existem soluções rápidas. Os avanços terapêuticos dos últimos anos representam uma oportunidade sem precedentes. Novos medicamentos permitem alcançar perdas de peso anteriormente difíceis de obter, enquanto a cirurgia metabólica continua a ser altamente eficaz em situações selecionadas.

No entanto, estas abordagens não dispensam acompanhamento clínico rigoroso. A perda de massa muscular, o risco de défices nutricionais e a dificuldade em manter resultados reforçam a importância de programas estruturados e de elevada qualidade, centrados na mudança comportamental e no seguimento a longo prazo.

A obesidade não se “cura” com uma receita. Controla-se ao longo da vida.

O maior obstáculo continua a ser o preconceito. Talvez o maior desafio nem seja clínico. As pessoas que vivem com obesidade continuam frequentemente a ser alvo de comentários, discriminação e culpabilização. Muitas adiam consultas por vergonha, sentem-se julgadas ou acabam por acreditar que o insucesso resulta exclusivamente de falta de esforço.

Este estigma tem consequências reais. Afasta os doentes dos cuidados de saúde, compromete a adesão ao tratamento e agrava o sofrimento psicológico. Combater a obesidade implica também combater o preconceito.

O verdadeiro desafio começa agora. Portugal dispõe hoje de uma estratégia alinhada com as recomendações internacionais e sustentada pela melhor evidência científica disponível.

O desafio passa agora por transformar essa estratégia em realidade. Isso exige investimento nas equipas multidisciplinares, formação dos profissionais, reforço da prevenção desde a infância, melhoria dos ambientes alimentares e promoção da atividade física em todas as fases da vida.

Mas exige também uma mudança cultural. Precisamos de deixar de olhar para a obesidade como um fracasso individual e começar a reconhecê-la como aquilo que verdadeiramente é: uma doença crónica que merece prevenção, diagnóstico precoce, tratamento adequado e acompanhamento continuado.

Porque ninguém escolhe desenvolver obesidade. Mas todos beneficiamos de uma sociedade que saiba preveni-la, tratá-la e, acima de tudo, compreender quem vive com ela.

Em Portugal, a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), fundada em 1989, promove a investigação e divulgação científica sobre a doença e ainda apoio aos doentes.

É da responsabilidade de todos mudarmos a forma como se olha para a obesidade, descartar a culpabilização e aumentar o acesso à prevenção, diagnóstico e tratamento desta doença.

Carolina Venda

Carolina Venda é médica de família (especialista em Medicina Geral e Familiar), a exercer na USF Farol em Faro.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

 

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