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SOCIEDADE: Pontes de Odeceixe e Sol Posto foram inauguradas há 90 anos, aproximando o Barlavento e Odemira de Lisboa

Publicada em: 26/07/2026 15:17 -

Por Aurélio Nuno Cabrita

A construção de estradas macadamizadas, como a maioria das vias de comunicação em Portugal, delongou-se pelos anos. Não que amiúde as autarquias não solicitassem a sua construção.

Por exemplo, Aljezur pedia, em março de 1892, às Cortes e ao governo, a conclusão da estrada daquela vila até Lagos. Lembrava que «Ha vinte e tantos annos que foram inaugurados os trabalhos da construcção da mesma estrada na extensão de 35 kilometros approximadamente, e tal foi e tem sido o descuido empregado em ordenar a construcção d’ella, que apenas se acha construida de Lagos ao sitio denominado Espinhaço de Cão, na extensão de 20 kilometros, e de Aljezur ao sitio do Porto de Alfambras, na extensão de 7 kilometros».

Entre estes troços existia, pois, uma «ilha» de 8 km com as terraplanagens quase destruídas, e 200 metros inteiramente por construir.

Justificava a edilidade o pedido e a urgência «pela necessidade absoluta que os seus habitantes têem de conviver constantemente com o resto do Algarve, a fim de importarem e exportarem os productos de que necessitam, e especialmente com Lagos, onde se acha installada a comarca, não tendo outra via de communicação alem da estrada referida e achando-se esta nas condições já expostas, bem podem v. exas., srs. deputados, conhecer quão difficil se torna a estes povos a vida commercial e agricola e o poderem satisfazer até os mandados das auctoridades judiciaes da séde da comarca».

A via terá ficado concluída pouco depois, sendo que em 1898 já era uma realidade.

Por sua vez, em 1909, era a Câmara de Portimão que solicitava a conclusão da estrada de Lagos a Odemira.

Através de uma circular enviada à congénere de Silves, pedia o seu apoio para uma representação que tencionava remeter ao parlamento, para que «na próxima dotação das estradas do paiz seja compreendida a da estrada real n.º 197, por Lagos a Odemira, vista ser esta a que mais rapidamente nos poria em comunicação com a capital do paiz».

Em Silves, os vereadores, em reunião de 24 de junho de 1909, deliberaram por unanimidade subscrever a proposta. Por essa altura, a via entre São Teotónio e Odemira estava quase concluída.

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Lagos

Em 1915, no I Congresso Regional Algarvio, Agostinho Lúcio traçou o panorama rodoviário na região.

No caso em apreço, estavam em construção cerca de 7 000 metros e projetados cerca de 8 800 m (troços entre Aljezur e Odeceixe).

A via era tida como primordial: «é importante para o Turismo, por ligar o Algarve com Lisboa, atravessando o Alemtejo, sendo ao mesmo tempo a mais curta distancia entre Faro e Lisboa», lê-se na tese que apresentou.

Recorde-se que, por aqueles anos, não havia ainda qualquer ligação terrestre, por estrada macadamizada, do Algarve a Lisboa.

Só em 1932 ocorreu a inauguração da estrada de Barranco do Velho/Ponte do Roxo, como já aqui recordámos.

Foi já no estertor da Primeira República e na Ditadura Militar que os derradeiros quilómetros ficaram concluídos. Em janeiro de 1924, o periódico farense «Correio do Sul» noticiava que o governo aprovava o orçamento suplementar para a conclusão da via entre Aljezur e Brejo Fundo.

Quatro anos depois e segundo o jornal «A Voz», na sua edição de 27 de julho de 1936, entre 1928 e 1929 avançaram as terraplanagens entre Odeceixe e o Brejo Fundo (Rogil), ocorrendo a macadamização deste troço entre 1931 e 1932.

Ainda que, a 23 junho de 1935, o «Correio do Sul» anunciasse a conclusão da estrada de Lagos a Alcácer do Sal, juntamente com as pontes de Odeceixe e do Sol Posto, para o início do ano seguinte, somente em junho de 1936 aquelas importantes infraestruturas ficaram concluídas.

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Foto: jornal «Costa de Ouro», Lagos

 

Com cerca de 183 m de comprimento, a ponte de Odeceixe, sobre a ribeira de Seixe, projetada por Francisco de Araújo e construída em betão armado (quatro anos de execução) pela Sociedade Moderna de Engenharia, Lda., teve um custo de 1 800 contos e constituiu, na época, a maior infraestrutura do género concebida em Portugal.

Já a do Sol Oosto, sobre a ribeira do Torgal (entre Odemira e São Luís), com 88 m de comprimento e 60 m de vão do arco central, foi projetada por Alberto C. Carmona e importou em 887 contos.

A inauguração foi aprazada para 26 de julho de 1936, sendo presidida pelo ministro das Obras Públicas e Comunicações, major Joaquim Abranches.

Este deslocou-se de véspera de comboio para o Algarve, juntamente com vários técnicos da Junta Autónoma de Estradas (JAE), pernoitando na Praia da Rocha.

No dia seguinte, a comitiva ministerial, juntamente com entidades regionais (governador civil, comandante da GNR de Faro, diretor de estradas, diretor escolar, entre outros), rumou a Lagos, de onde partiu, segundo o «Diário de Notícias», «um vistoso cortejo, de algumas dezenas de automóveis, em direcção a Aljezur».

No limite dos concelhos, na altura do Espinhaço de Cão, a Câmara de Aljezur aguardava o ministro, integrando o cortejo.

Segundo aquele diário, a entrada na vila foi «verdadeiramente apoteótica». As ruas encontravam-se «vistosamente engalanadas», no largo da ponte, os alunos da escola aguardavam a comitiva e «foi por entre uma verdadeira chuva de flores, com as ruas atapetadas de verdura e os sinos repicando festivamente que o sr. ministro se dirigiu aos Paços do Concelho, onde se realizou uma sessão solene». A filarmónica local acompanhou o séquito pelas ruas da vila.

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Viviam-se os primeiros anos do Estado Novo, instituído pela Constituição de 1933, e os discursos foram, como não podiam deixar de ser, de exaltação ao presidente do Conselho e ao chefe de Estado, bem como das virtudes que se queriam para o novo regime.

Não obstante, o presidente da Câmara de Aljezur, Romão da Costa Gomes, aproveitou a oportunidade para pedir a realização de outros melhoramentos para o concelho, como a «construção de um edifício escolar, a ligação com a rede telefónica, desassoreamento da ribeira que dá o nome à terra e a canalização das águas», noticiou o DN, na edição do dia 27 de julho.

A sessão terminou com o discurso de Joaquim Abranches, o qual elogiou a obra do regime e os seus representantes máximos, lembrando que «estes trabalhos que interessam ao distrito de Faro, conjugados com os restantes dos outros dois distritos [Beja e Setúbal] que a estrada Lagos-Lisboa atravessa, criarão uma nova artéria na zona litoral, que é da mais alta importância».

Finda a sessão, organizou-se novamente o cortejo até Odeceixe, onde se procedeu à inauguração da ponte.

Esta encontrava-se embandeirada e junto dela aguardavam as autoridades, Câmara de Odemira, governador civil do distrito de Beja, entre outras, bem como a banda municipal de Portimão.

O ministro procedeu, de acordo com o jornal «O Século», de 27 de julho, ao corte das fitas à entrada daquela infraestrutura e demorou-se na vistoria à mesma.

Num breve discurso, elogiou o presidente da JAE, o general Teófilo Trindade (um algarvio, natural de Lagoa), que faltara ao momento solene por motivos de saúde, sendo representado pelo vice-presidente eng. Taveira de Carvalho, o qual abraçou.

A comitiva dirigiu-se então para Odemira, onde chegou cerca das 12h00. Similarmente, a sessão solene ocorreu nos paços do concelho, com a guarda de honra efetuada pelos bombeiros voluntários locais, tendo a banda municipal de Portimão executado a «Maria da Fonte».

O presidente da Câmara César Miranda também não perdeu a oportunidade para elencar várias pretensões, como a ligação telefónica e a conclusão das obras do hospital, agradecendo os melhoramentos já recebidos.

Por sua vez, o governador civil apelou à união dos odemirenses, concretamente a «todos os nacionalistas de Odemira que terminassem as suas divergências, visto a hora ser decisiva em todo o Mundo e se carecer de união franca colaboração». Viviam-se momentos de incerteza, afinal a guerra civil de Espanha havia principiado uma semana antes.

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Já o ministro das Obras Públicas vincou a importância da ponte do Sol Posto e da estrada que servia: «esta artéria vivificará uma fértil região, de grande valor económico sob o ponto de vista cerealífero e corticeiro, até hoje desprovida de meios de comunicação».

Prometeu para breve a ligação de Odemira à sede de distrito.

Quanto à ponte do Sol Posto, era semelhante à da Foz do Dão, a ponte Salazar, construída escassos anos antes. De lá vieram mesmo os moldes para o arco central, por via fluvial até ao porto da Figueira da Foz, de onde por via marítima chegaram a Vila Nova de Milfontes e daqui, através do rio Mira, até Odemira.

Lembrou o ministro a importância das dragagens que o governo fizera no rio, que permitiram a subida da embarcação.

De seguida, sintetizou os trabalhos em curso naquela estrada, desde a betuminização entre Alcácer do Sal e Grândola; os trabalhos na ponte de Alcácer; a grande reparação entre Santiago e o Cercal; a pavimentação entre esta localidade, a Portela da Maceira e Odemira; a grande reparação entre Brejo Fundo e Aljezur; a grande reparação da ponte de Odemira sobre o rio Mira e por último a grande reparação entre Odemira e o Moinho da Légua.

Para mais tarde, estavam previstas a betuminização de todos aqueles troços e a reparação entre Aljezur- Alfambras e Lagos.

Elogiou mais uma vez o presidente da JAE e agradeceu ao presidente da Câmara e ao governador civil a receção de que fora alvo.

Finda a sessão, decorreu o almoço, de 100 talheres, na Sociedade Recreativa Odemirense, oferecido por uma comissão local e durante o qual se repetiram os discursos e se renovaram os elogios ao regime instituído.

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Foto: jornal «Costa de Ouro», Lagos

 

Terminado o repasto, a comitiva dirigiu-se, às 16h00, para a ponte, procedendo à sua inauguração. O ministro Abranches felicitou o pessoal técnico e fiscais que a tinham executado.

Segundo «O Século», o «acto foi presenciado por enorme multidão, que, por completo, enchia aquela infraestrutura, vinda dos mais variados pontos». Também o DN salientou a assistência: «ambas as inaugurações tiveram muitas centenas de pessoas, sendo curioso o aspecto que os cerros vizinhos ofereciam cheios de camponeses vindos de grandes distancias».

Finda a cerimónia, o ministro seguiu de automóvel para Lisboa. Nessa noite, de acordo com «O Século», os «edifícios públicos de Odemira iluminaram», enquanto na praça Sousa Prado atuou a filarmónica de Portimão.

Ambas as infraestruturas foram intervencionadas já no século XXI: a de Odeceixe entre agosto de 2007 e julho de 2008 e a do Sol Posto em 2016.

Se esta última perdeu importância com a nova ponte em Vila Nova de Milfontes, inaugurada em 1978, a de Odeceixe continua a ser, 90 anos depois, fundamental na mobilidade entre o Barlavento Algarvio e o Sudoeste Alentejano.

Se a produção de cereais é hoje residual, o turismo e a agricultura intensiva impuseram-se por aqueles campos charnequeiros.

Há muito anunciado e tantas vezes adiado, o famigerado IC4, entre Sines e Lagos, decalca a história da construção da então estrada macadamizada, cujas obras se perderam nos anos e se prolongaram por décadas até à sua conclusão. Uma infraestrutura primordial que tarda em concretizar-se.

Todavia, por agora, em julho de 1936 era finalmente possível viajar por estrada entre o Barlavento Algarvio e o Sudoeste Alentejano, e para o jornal «Costa de Oiro», de Lagos, «é de esperar que, de futuro, a nossa região seja mais visitada por turistas de todo o País e que as relações comerciais entre os concelhos de Lagos, Aljezur e Odemira se intensifiquem».

Prognóstico certeiro. Foi há 90 anos.

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Ponte de Odeceixe em 1944 – Foto: “Gazeta dos Caminhos de Ferro”

Foto de destaque: Ponte de Odeceixe na atualidade

Nota: Nas transcrições manteve-se a ortografia da época. As imagens utilizadas são meramente ilustrativas e correspondem, na sua maioria, a bilhetes-postais ilustrados.

Aurélio Nuno Cabrita 

Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de história local e regional, bem como colaborador habitual do Sul Informação.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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