Por António Covas
Em plena era tecno-digital, as fragilidades do modelo dicotómico litoral-interior deixam preanunciar uma crise grave da nossa democracia política de base territorial e, correlativamente, o declínio do movimento associativo de base local.
É urgente, portanto, uma revisitação dos princípios de funcionamento deste movimento à luz do pensamento cognitivo da sociedade da informação e do conhecimento, sobretudo lá onde se multiplicam as interfaces entre a economia produtiva e a economia criativa.
Creio ser chegado o momento de as Comunidades Intermunicipais (CIM) e as organizações do movimento associativo de base local (Animar, Federação Minha Terra, CASES e outras) se encontrarem e elaborarem uma agenda comum para o século XXI e a partir daí reinventarem o seu modo de funcionamento e financiamento.
No território de cada CIM teríamos, doravante, um ator-rede e um curador territorial acreditado para supervisionar e orientar as múltiplas interfaces entre comunidades offline e online e desde logo, à cabeça, a mobilização da população juvenil e estudantil até ao final do ensino secundário, a base de todas as ulteriores derivações associativas.
A título de exemplo, deixo aqui sinalizadas as áreas que considero mais relevantes para a formação de uma agenda comum do movimento associativo de base local: as áreas recreativas, desportivas e criativas do movimento estudantil em estreita ligação com todas as escolas e agrupamentos escolares (1), a área do envelhecimento ativo e da saúde pública (2), a área da bio economia, comunidades locais de energia e economia circular (3), a área dos telesserviços, serviços de proximidade, mobilidade, proteção civil e sua interoperabilidade (4), a área dos mercados e serviços turísticos ligados à economia da região (5), a área conexa das artes, ofícios, eventos e cultura (6), a área das PME, do movimento starting up e do movimento associativo dos jovens empresários (7), a área da agricultura familiar e cooperativa, dos circuitos curtos, das denominações de origem e indicações geográficas (8), a área de acolhimento, inclusão e integração de cidadãos migrantes (9) e, finalmente, a grande área da comunicação, do storytelling e do branding territorial (10).
Dito isto, o sentido de urgência parece-me indiscutível. As grandes transições em curso anunciam uma mudança paradigmática de longo alcance que não sabemos como circunscrever ou delimitar. O risco de colisão é iminente e precisa desesperadamente do movimento associativo de base local e territorial para prevenir o acidente e evitar o pior.
Nunca, como agora, precisámos tanto do consenso dos comuns para orientar na boa direção os dispositivos digitais, a colaboração entre pares e a ação coletiva, a interação entre comunidades online e offline e a provisão e partilha de bens comuns. A este propósito, vejamos algumas linhas de abordagem desta lógica de ação coletiva dos bens e serviços comuns.
– Em primeiro lugar, há, ainda, muitos ângulos mortos entre a economia dos bens públicos, a economia dos bens privados e a economia dos bens comuns; esta questão dos ângulos mortos e das suas externalidades (1) assumirá uma relevância crescente e será, seguramente, um dos temas fortes no debate público dos próximos anos, sobretudo no que diz respeito à natureza da coabitação e política regulatória entre bens públicos (estado), bens privados (mercado) e bens comuns (comunidade);
– Em segundo lugar, os dispositivos colaborativos da sociedade digital favorecem a solidariedade comunitária e a inovação social (2) e são muito úteis no combate à pobreza e desigualdades, saúde pública e envelhecimento ativo; este é o momento para desindustrializar a misericórdia, a pobreza, a saúde pública e a velhice, mas, também, para promover a economia da inovação social e do emprego em nome da dignidade da pessoa humana, da ética dos comuns e de uma democracia local e territorial mais robusta;
– Em terceiro lugar, os novos dispositivos da sociedade tecno-digital, sobretudo, os sistemas de informação geográfica e a robótica avançada favorecem a ecologia dos recursos naturais e as práticas de economia circular (3), ou seja, é toda a cadeia de valor do sistema produtivo que fica sob observação;na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, a ecologia humana e a democracia de base local agradecem;
– Em quarto lugar, a associação virtuosa entre o património e a paisagem, de um lado, a arte e a cultura, de outro, tem um impacto fundamental no nosso modelo de linguagem, cultura geral e interpretação da realidade (4) e, no final, traduz-se em melhores instrumentos de ordenamento do território, melhores relações cidade-campo, melhor qualidade do ambiente urbano e uma utilização mais criteriosa do espaço público por todas as gerações;
– Em quinto lugar, os novos dispositivos colaborativos da sociedade tecno-digital favorecem a promoção e a proteção do emprego intermitente (5) que tenderá a crescer nos próximos anos com a revolução da inteligência artificial, a pluriatividade e o plurirrendimento e a proliferação de novos modelos de negócio; além disso, é uma janela de oportunidade para a renovação do movimento associativo;
– Em sexto lugar, há uma pequena/grande revolução a fazer no que diz respeito à colaboração estreita entre a literacia tecno-digital mais próxima das populações e patrocinada pelo movimento associativo e mudanças profundas no ambiente escolar e universitário (6) sem a qual não será possível pôr em prática os quatro vetores deste novo associacionismo das redes e plataformas, tal como referimos logo no início.
Aqui chegados, é forçoso reconhecer que numa sociedade que envelhece e declina socio-demograficamente, como é o caso das áreas de baixa densidade, estes progressos ainda não se traduzem em melhorias substantivas de natureza colaborativa na sociedade política em geral e no movimento associativo em particular.
Vivemos numa sociedade complexa e contingente que exige um pensamento muito mais crítico e transdisciplinar. Neste sentido, precisamos de evitar, a todo o custo, que haja nas sociedades atuais uma clivagem entre natureza, cultura e política, sobretudo, entre a alegria da cultura e a deceção da política e que, por falta de propósito e ambição, haja, digamos, uma interrupção na linha do tempo. A cultura, sempre mais generosa, pode ajudar a política, sempre mais calculista, a adquirir essa visão de futuro e, assim, a renovar a esperança política.
À medida que nos aproximamos do ciberespaço e da cibercultura caminhamos em direção a novos códigos de comunicação e linguagem e a uma verdadeira reprogramação das mentes. Por isso, é essencial que deixemos de ser apenas espetadores passivos para ser, também, atores proativos nos espaços públicos e comuns da sociedade da informação e do conhecimento.
A terminar, precisamos de reforçar o movimento associativo da sociedade da informação e comunicação. Ele compreende melhor que ninguém os novos conceitos operatórios da transição tecno-digital: a conectividade da infraestrutura tecno-digital (1), a multiescalaridade da governança multiníveis (2), a circularidade dos recursos da bio economia e da economia circular (3), a distinção dos signos do território e o seu valor simbólico (4), a racionalidade da inteligência coletiva e o papel do ator-rede do território (5), a formação e a literacia tecno-digital da população (6), a reputação do território, a comunicação e o storytelling (7).
É com base nestes novos conceitos que nasce uma economia criativa para territórios inteligentes e uma nova inspiração para o movimento associativo nas interfaces das comunidades offline e online.
Esta é a nova missão do movimento associativo do século XXI: ser racional e emocionalmente inteligente, ser um ator-rede cosmopolita de elevada intensidade-rede e um curador acreditado de economia criativa na sua área de influência.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
