Por Pedro Lemos
Estou na praia da minha infância, não reconheço ninguém e isso traz-me uma sensação estranhamente boa. Conto centenas de rostos, ouço outras tantas vozes, vejo de tudo. Ninguém me parece familiar, mas sinto-me em casa.
Há muita coisa que aprendi aqui.
Uma vez, há muitos anos – quantos não me recordo, teria talvez 10, 11, 12 – estava sentado, perto da rebentação, quando um rapaz, que me pareceu ser da minha idade, me convidou para jogar à bola com ele.
Não me lembro do nome, o meu irmão juntou-se depois e ficámos os três, à beira-mar, a tentar mostrar os fracos dotes futebolísticos. Ele vinha de longe, tenho ideia de que da zona de Bragança, e espantou-se pelo facto de sermos dali, de morarmos tão perto da praia.
Anunciou-nos como uns «sortudos», epíteto que só viria a entender verdadeiramente muitos anos volvidos. Nunca mais o vi.
Uma outra vez, sentado na toalha, a proximidade de uma outra sombrinha fez-me ouvir, detalhe por detalhe, toda a história de vida de uma numerosa família. Falavam longamente dos problemas que os assolavam, das preocupações, também das conquistas. A maior: estarem ali.
Impressionou-me a descrição das horas de trabalho a mais durante o ano, dos repetidos sacrifícios para um dia, afinal, terem direito à alegria fugaz de uma semana de férias no Algarve.
Já era mais velho – provavelmente com uns 15, 16 anos – e recordei-me também do rapaz do início da crónica. Talvez fosse mesmo – ainda sou – um sortudo.
Hoje, como gosto de fazer amiúde, estou de regresso à praia da minha infância – que está longe de ser a mais bonita, a de água mais límpida, a mais espaçosa, mas é a praia da minha infância.
A vida agora é outra: há minutos, aqui sentado à beira-mar, uma bola veio na minha direção e um conjunto de miúdos pediu desculpa ao «senhor» que julgo ser eu.
É Agosto, há tanta gente à minha volta. Não os conheço, mas gosto de estar com eles. Como se vivéssemos numa qualquer comunhão que se repete a cada Verão.
Pedro Lemos
Poucas coisas me dão mais gozo na vida do que sentar-me frente a frente com uma pessoa, olhar-lhe nos olhos, escutá-la e ouvir a sua história para depois a verter num texto. Acho que isso diz tudo sobre como vejo e encaro isto do jornalismo, onde ando há quase 10 anos. Sou o Pedro.
FONTE: SUL INFORMAÇÃO
