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OPINIÃO: A praia da infância

Publicada em: 05/08/2026 09:21 -

Por Pedro Lemos

Estou na praia da minha infância, não reconheço ninguém e isso traz-me uma sensação estranhamente boa. Conto centenas de rostos, ouço outras tantas vozes, vejo de tudo. Ninguém me parece familiar, mas sinto-me em casa.

Há muita coisa que aprendi aqui.

Uma vez, há muitos anos – quantos não me recordo, teria talvez 10, 11, 12 – estava sentado, perto da rebentação, quando um rapaz, que me pareceu ser da minha idade, me convidou para jogar à bola com ele.

Não me lembro do nome, o meu irmão juntou-se depois e ficámos os três, à beira-mar, a tentar mostrar os fracos dotes futebolísticos. Ele vinha de longe, tenho ideia de que da zona de Bragança, e espantou-se pelo facto de sermos dali, de morarmos tão perto da praia.

Anunciou-nos como uns «sortudos», epíteto que só viria a entender verdadeiramente muitos anos volvidos. Nunca mais o vi.

Uma outra vez, sentado na toalha, a proximidade de uma outra sombrinha fez-me ouvir, detalhe por detalhe, toda a história de vida de uma numerosa família. Falavam longamente dos problemas que os assolavam, das preocupações, também das conquistas. A maior: estarem ali.

Impressionou-me a descrição das horas de trabalho a mais durante o ano, dos repetidos sacrifícios para um dia, afinal, terem direito à alegria fugaz de uma semana de férias no Algarve.

Já era mais velho – provavelmente com uns 15, 16 anos – e recordei-me também do rapaz do início da crónica. Talvez fosse mesmo – ainda sou – um sortudo.

Hoje, como gosto de fazer amiúde, estou de regresso à praia da minha infância – que está longe de ser a mais bonita, a de água mais límpida, a mais espaçosa, mas é a praia da minha infância.

A vida agora é outra: há minutos, aqui sentado à beira-mar, uma bola veio na minha direção e um conjunto de miúdos pediu desculpa ao «senhor» que julgo ser eu.

É Agosto, há tanta gente à minha volta. Não os conheço, mas gosto de estar com eles. Como se vivéssemos numa qualquer comunhão que se repete a cada Verão.

Pedro Lemos

Poucas coisas me dão mais gozo na vida do que sentar-me frente a frente com uma pessoa, olhar-lhe nos olhos, escutá-la e ouvir a sua história para depois a verter num texto. Acho que isso diz tudo sobre como vejo e encaro isto do jornalismo, onde ando há quase 10 anos. Sou o Pedro.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

 
 
 
 

 

 
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