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CIÊNCIA: 400 e o Eclipse

Publicada em: 10/08/2026 14:58 -

Por Luis Azevedo Rodrigues

Na próxima quarta-feira, ao fim da tarde, a Lua vai tapar quase todo o Sol. Consegue fazê-lo devido a um número: quatrocentos.

Há alguns anos escrevi a crónica “Os meus dias já foram mais pequenos”. A frase, dita assim, parece daquelas queixas de meia-idade — o tempo já não chega para nada, as rugas, as dores nas costas. Contudo, o título tinha uma armadilha: a frase é literalmente verdadeira. Os meus dias já foram mais pequenos, e os dos meus avós também, e os dos dinossauros muito mais. O dia na Terra tem-se vindo a alongar ao longo do tempo e a culpada disso é a Lua; tal como o do eclipse do próximo dia 12 de Agosto.

O Sol tem um diâmetro cerca de 400 vezes maior do que a Lua. E está, por puro acaso, cerca de quatrocentas vezes mais longe de nós. Duas grandezas gigantescas que se anulam uma à outra, e o resultado é que ambos os discos praticamente ocupam o mesmo pedaço de céu, meio grau, ou uma unha do dedo mindinho com o braço esticado. Não há nenhuma razão física para isto acontecer. Não é lei, não é desígnio, não é nada. Calhou simplesmente. E calhou-nos a nós.

A Lua tem cerca de 4500 milhões de anos, nasceu de um choque, quando um corpo do tamanho de Marte colidiu com a Terra que ainda se encontrava em formação.

A Lua influencia os nossos oceanos, originando uma bojudez na água do mar de cada lado do planeta. Só que a Terra roda mais depressa do que a Lua orbita, arrastando essa bojudez à sua frente, como quem tenta fugir com o lençol enquanto outro o segura. Essa fricção trava-nos, um travão que provoca que o dia terrestre se alongue cerca de 1,7 milissegundos por século: parece nada, mas somado ao longo do tempo profundo, nota-se.

E aqui aparece o terceiro 400, o meu preferido.

Há aproximadamente quatrocentos milhões de anos, no Devónico, a duração do dia terrestre não tinha 24 horas, mas cerca de vinte e duas, e o ano tinha perto de quatrocentos dias. Isto não é suspeita de gabinete: os corais daquele tempo depositavam uma banda de crescimento por dia e uma marca mais espessa por ano, e quem as conta encontra, entre duas marcas anuais, cerca de quatrocentas bandas diárias. Um coral fóssil é um relógio que ninguém precisa de acertar e diz-nos, laconicamente, que a Terra girava mais depressa sobre si mesma.

400 vezes maior. 400 vezes mais longe. 400 dias por ano, há 400 milhões de anos. O mesmo número a aparecer quatro vezes na mesma história: dois deles por puro acaso, dois devido à maré. E é a maré que, devagar, vai desfazer o acaso.

Porque o que a Terra perde em rotação, a Lua ganha em distância: afasta-se de nós 3,8 centímetros por ano, mais ou menos à velocidade a que nos crescem as unhas. E quanto mais longe vai, menor fica o seu disco no céu. Daqui a cerca de seiscentos milhões de anos, deixará de chegar para tapar o Sol, e o eclipse total desaparecerá da Terra. Para sempre.

Pois é, os meus dias já foram mais pequenos, o ano já teve quatrocentos dias, e o eclipse total tem prazo de validade. Nós é que vivemos, por sorte, na janela onde os quatrocentos ainda batem certo.

Convém ir ver na quarta-feira, ao fim da tarde, começa por volta das 18h40 e o máximo é pelas 19h35, mas ver com cuidado: aqui no Algarve, a Lua tapa cerca de 92% do Sol e não chega a tapá-lo por inteiro, o que significa que não existe um único instante em que seja seguro olhar sem óculos de eclipse certificados — procure a marcação ISO 12312-2.

Os oito por cento que sobram queimam tão bem como os cem, e a retina não tem recetores de dor: quando percebemos, já é tarde. Óculos escuros, radiografias, vidro fumado e o fundo da garrafa não servem para nada.

A Lua está de saída.

Referências

Nimmo, F., Kleine, T., & Morbidelli, A. (2024). Tidally driven remelting around 4.35 billion years ago indicates the Moon is old. Nature, 636, 598–602. https://doi.org/10.1038/s41586-024-08231-0

Stephenson, F. R., Morrison, L. V., & Hohenkerk, C. Y. (2016). Measurement of the Earth’s rotation: 720 BC to AD 2015. Proceedings of the Royal Society A: Mathematical, Physical and Engineering Sciences, 472(2196), Article 20160404. https://doi.org/10.1098/rspa.2016.0404

Wells, J. W. (1963). Coral growth and geochronometry. Nature, 197(4871), 948–950.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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