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OPINIÃO: Hospitalidade sem apagamento: a língua portuguesa, a pertença e a ética de acolher

Publicada em: 14/08/2026 13:40 -

Por Helena Santos Leitão

Costumo escrever sobre ética global. Sobre os desafios que atravessam fronteiras, as responsabilidades partilhadas entre povos, os direitos humanos, as desigualdades e os dilemas que emergem num mundo cada vez mais interdependente. Interessa-me pensar o que devemos uns aos outros enquanto membros de uma comunidade humana comum, para além das nacionalidades, das culturas e das geografias que nos distinguem.

Desta vez, porém, escrevo sobre algo aparentemente mais próximo e quotidiano, mas não menos relevante: a língua portuguesa e a experiência de pertença no nosso próprio país.

O impulso surgiu depois de ler um artigo de opinião recentemente publicado no Sul Informação, intitulado “Em português, por favor!”1, no qual Cristina Marreiros refletia sobre a presença crescente do inglês no quotidiano português, particularmente nas regiões mais marcadas pelo turismo. Como escreveu: “Os nossos vizinhos espanhóis podem ter muitos defeitos, mas nestas questões de primeiro mostrar a sua “espanholidade” estão certíssimos.”

A leitura trouxe-me à memória a crónica “Deixem-nos falar”2, de Miguel Esteves Cardoso, publicada no Público em 2018, onde escrevia que: “Como em Portugal toda a gente que trabalha em hotelaria sabe falar inglês é em inglês que se fala”. Acrescentava ainda que: “Por esta razão cada vez há mais estrangeiros que não se dão ao trabalho de aprender uma palavra de português. É pena, (…)”.

Recordei também o artigo de Fernanda Câncio, publicado no Diário de Notícias em 2024, sob o título “Please wait to be seated: a Lisboa que só fala inglês e está a violar a lei”3, no qual se pode ler num dos testemunhos: “Ninguém se queixa. E temos imensos clientes portugueses, que sempre recebemos muito bem.”

É precisamente esta aparente ausência de conflito que torna o fenómeno mais inquietante. Quase sem darmos por isso, instala-se uma sensação, que muitos reconhecerão, a de, por vezes, nos sentirmos estrangeiros no nosso próprio país. A conjugação desses textos com experiências vividas, confesso que sobretudo em restaurantes e cafés e durante os meses de verão, levou-me a interrogar sobre uma questão linguística, cultural e política, mas também profundamente ética: estaremos, em nome da hospitalidade, do turismo e da internacionalização, a aceitar o progressivo “apagamento” da língua portuguesa?

Esta pergunta é provocadora e poderá parecer exagerada.

O português continua a ser a língua oficial do país e possui uma tradição literária e cultural de extraordinária riqueza. Não está, certamente, em risco de desaparecer de um dia para o outro. Todavia, uma língua não se perde apenas quando deixa de ter falantes. Pode também enfraquecer de forma parcial e gradual, quando deixa de ser utilizada em determinados espaços, quando perde prestígio, quando é afastada de certas áreas do conhecimento ou quando os seus próprios falantes começam a considerá-la insuficiente em determinados contextos.

Quando “good morning” substitui “bom dia”

Tornou-se frequente entrar num restaurante, num café ou num estabelecimento hoteleiro e ser recebida com um “good morning” ou um “hello”. Quantas vezes já tive de responder, gentilmente: “Pode falar português comigo.”

Não está em causa a utilização do inglês quando ela é necessária. Pelo contrário, a capacidade de comunicar noutras línguas constitui uma competência valiosa e, em muitos contextos, quase indispensável. Permite receber melhor quem nos visita, reduzir barreiras e criar relações entre pessoas de diferentes origens.

O que merece reflexão é a transformação do inglês na língua presumida do primeiro contacto, mesmo em Portugal e mesmo quando quem entra no estabelecimento pode ser português. Quando se presume que o cliente fala inglês, não se está apenas a escolher uma língua internacional, está-se também, ainda que involuntariamente, a transmitir que o português deixou de ser a língua principal daquele espaço.

O episódio parece pequeno, mas possui um forte significado simbólico.

O cidadão português deixa de ser o interlocutor esperado no seu próprio país. Tem de se identificar, responder em português ou pedir que lhe falem na sua língua. Aquilo que deveria ser natural passa a exigir uma espécie de declaração de pertença. E, importa sublinhá-lo, esse reconhecimento nunca deverá implicar hostilidade para com quem nos visita!

A língua não é apenas um instrumento

Por vezes, tratamos a língua como se fosse apenas uma ferramenta de comunicação e escolhe-se aquela que permite transmitir a mensagem com maior rapidez. Nesta perspetiva, a substituição do português pelo inglês seria apenas uma adaptação funcional à globalização.

Mas uma língua é muito mais do que um código para trocar informações.

É através dela que nomeamos o mundo, exprimimos emoções, transmitimos memórias e reconhecemos referências comuns. A língua guarda formas particulares de pensar, de narrar, de criar proximidades e de compreender a realidade. Não transporta apenas palavras, transporta experiências históricas e modos de pertencer.

Falar português em Portugal não é, portanto, apenas uma preferência individual. É participar num património cultural comum e numa continuidade intergeracional. É receber algo que não criámos sozinhos e que temos a responsabilidade de preservar, renovar e transmitir. É precisamente aqui que emerge a dimensão ética: cada geração recebe uma língua que lhe foi confiada pelas anteriores. Pode transformá-la, enriquecê-la e colocá-la em diálogo com outras línguas, mas não deveria tratá-la como um obstáculo à modernidade ou como um sinal de menor cosmopolitismo.

Hospitalidade não é desaparecimento

Portugal orgulha-se, justamente, da sua hospitalidade. Mas o que significa, verdadeiramente, ser hospitaleiro?

A hospitalidade pressupõe que existe alguém que acolhe e alguém que é acolhido. Pressupõe uma casa, não necessariamente no sentido físico, mas enquanto espaço cultural e relacional. Quem abre a casa procura que o visitante se sinta confortável, compreendido e respeitado. Não lhe exige que conheça previamente todos os costumes, nem que fale de imediato a língua local. No entanto, acolher não significa apagar os sinais de quem acolhe. A hospitalidade não exige o desaparecimento do anfitrião.

Começar uma interação com um “bom dia” não constitui falta de educação perante quem não fala português. É a expressão natural do lugar onde nos encontramos. Se o interlocutor não compreender, poderemos mudar de língua e procurar uma forma comum de comunicação.  Esse movimento, começar em português e adaptar depois, é muito diferente de presumir, à partida, que o interlocutor é estrangeiro.

A experiência noutros países mostra que esta precedência linguística não é incompatível com o turismo nem com a abertura ao exterior. Em França sou habitualmente cumprimentada em francês e na Bélgica (na Flandres) em holandês e só depois, se necessário, se procura uma língua comum. Esse primeiro gesto não exclui o visitante: situa-o, com naturalidade, no país que o recebe e preserva a presença da comunidade que o acolhe.

A Lei estabelece mínimos. A Ética exige que pensemos para além deles.

A informação essencial deve estar sempre disponível em português, de forma clara e acessível. Pode e deve ser complementada por outras línguas quando necessário, mas nunca substituída por elas.

Uma indicação poderá cumprir formalmente a legislação se incluir uma tradução portuguesa em letras discretas. Um profissional poderá mudar para português apenas depois de o cliente declarar que é português. Mas a questão ética permanece: que mensagem transmitimos quando o português está presente apenas porque é obrigatório, e não porque é reconhecido como a língua natural da comunidade?

Começar por “bom dia”

Talvez a defesa do português comece em gestos muito simples.

Começa por dizer “bom dia” antes de dizer “good morning”. Por garantir que a informação também está logo disponível em português. Por valorizar os trabalhadores estrangeiros que aprendem a língua e os portugueses que a utilizam com rigor, criatividade e orgulho sereno.

A ética global ensina-nos que a diversidade humana merece proteção. Essa diversidade não é defendida quando uma língua se torna dominante em todos os espaços, mas quando as diferentes línguas podem continuar a existir, a criar e a transmitir formas próprias de compreender o mundo. A internacionalização deve servir a sociedade que a promove, enriquecendo-a e abrindo-a ao mundo, e não contribuir para enfraquecer a sua língua, a sua memória e a sua identidade.

A verdadeira pergunta não é, portanto, apenas se o português continua presente, mas que lugar lhe atribuímos. É possível ser cosmopolita e falar português. É possível receber bem quem chega sem deixar de reconhecer quem já cá está. Por isso, dizer “sou portuguesa, pode falar português comigo” não deve ser entendido como uma recusa do outro. Não é menos hospitaleiro começar por dizer “bom dia”.

É apenas recordar que acolher o outro não nos obriga a desaparecer.

 

Referências:
1. Marreiros C. Em português, por favor! Sul Informação. 2026 Jun 29 [citado 2026 Jul]. Disponível em: https://www.sulinformacao.pt/en/2026/06/em-portugues-por-favor/
2. Esteves Cardoso M. Deixem-nos falar. Público. 2018 Sep 26 [citado 2026 Jul]. Disponível em: https://www.publico.pt/2018/09/26/opiniao/opiniao/deixemnos-falar-1845236
3. Câncio F. Please wait to be seated: a Lisboa que só fala inglês e está a violar a lei. Diário de Notícias. 2024 Nov 3 [citado 2026 Jul]. Disponível em: https://www.dn.pt/sociedade/please-wait-to-be-seated-a-lisboa-que-so-fala-ingles-e-esta-a-violar-a-lei

 

Helena Sanots Leitão

Helena Santos Leitão é médica radiologista, professora universitária e investigadora na Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas da Universidade do Algarve e no Algarve Biomedical Center Research Institute. Formada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e doutorada pela Universidade de Coimbra, trabalha nas áreas da imagem médica, bioética, direito médico, gestão em saúde e educação médica. Ao longo do seu percurso, acumulou experiência em administração hospitalar e tem participado em projetos que aproximam o ensino médico, a investigação biomédica e os cuidados de saúde.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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